Relatório da IGAS revela que foram gastos mais de 627 milhões de euros em produção adicional em pouco mais de três anos
Os dados são impressionantes e revelam, pela primeira vez, o que se passa nos hospitais com as cirurgias extra: foram pagos mais de 627 milhões de euros aos profissionais de saúde para fazerem operações fora do horário de trabalho, entre 2022 e o final de março deste ano, segundo um documento da Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) a que a CNN Portugal teve acesso.
Há hospitais em que os médicos fazem mesmo mais operações nesta chamada produção adicional - em que as equipas recebem à parte para combater as listas de espera - do que no horário normal de trabalho.
É o caso do hospital Amadora-Sintra, em que 57% das operações foram feitas em horários extra como fins de semana, mas também das unidades de saúde de Castelo Branco e de Trás os Montes, onde 54% das cirurgias se realizaram em adicional, com os médicos a somarem estes valores ao seu ordenado.
Na unidade local de saúde Amadora-Sintra, dentro do horário de trabalho, as equipas realizaram 23.500 cirurgias, mas, em horas extra, fizeram 31.400, tendo recebido por estas 21,5 milhões de euros. Em Trás os Montes, os profissionais concluíram 20 mil cirurgias no seu dia a dia de trabalho e 24 mil na produção extra, pela qual o hospital gastou 18,8 milhões de euros. Também na unidade local de saúde de Castelo Branco foi detetado este cenário em que se fez mais atividade cirúrgica fora do horário. Os clínicos fizeram apenas seis mil operações durante o tempo de serviço, mas depois conseguiram realizar sete mil na produção adicional, com a qual ganharam oito milhões de euros.
Os valores constam de um projeto de relatório da Inspeção Geral das Atividades em Saúde, que está a investigar a produção que é feita em todo o SNS. E uma das conclusões é de que em 70% das unidades de saúde do país o peso deste tipo de cirurgia é de 30% ou mais.
O hospital que recebeu um valor mais alto foi o de Braga, com pagamentos aos médicos que chegam aos 45 milhões. Já as áreas com mais gastos são ortopedia e oftalmologia. Só às equipas destas duas especialidades dos vários hospitais do país foram pagos 300 milhões naqueles três anos e três meses.