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Infeciologista e docente da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa

O vírus da memória curta

1 dez, 10:30

Há doenças que matam o corpo. E há as que adormecem a memória. A infeção por VIH, em 2025, parece viver nesse limbo: indetetável para quem o trata, invisível para quem já o esqueceu.

Quarenta anos depois do início da epidemia, a ciência venceu quase todas as batalhas -mas pode estar a perder a guerra da atenção. Hoje, quem vive com VIH e adere ao tratamento tem uma esperança de vida semelhante à da população geral. Há terapêuticas simples, eficazes e discretas; há combinações injetáveis trimestrais, que libertam do ritual diário do comprimido; já está disponível um injetável semestral. E há a certeza transformadora de que “indetetável é intransmissível”. Uma enorme conquista.

Mas o sucesso tem o seu reverso. A perceção de que “agora o VIH trata-se” banalizou o risco, esvaziou o medo e adormeceu a prevenção. O preservativo saiu de cena, a testagem perdeu prioridade, e até entre profissionais de saúde a ideia de “testar apenas quem parece em risco” continua viva. O resultado: novas infeções, diagnósticos tardios, e um vírus que, embora controlado, não desapareceu.

Os números não mentem: 40 milhões de pessoas vivem hoje com VIH, 1,3 milhões foram infetadas só em 2024 e 630 mil morreram de causas associadas à SIDA. Oito em cada dez conhecem o seu estado serológico, mas milhões continuam fora do radar - e muitas vezes só descobrem o vírus quando já é tarde demais.

Entretanto, a desigualdade grita. Enquanto metade do globo celebra avanços, a outra metade ainda luta por testes, medicamentos e dignidade. É na África Subsariana que metade das novas infeções continuam a acontecer, entre a pobreza, o silêncio e as leis que punem em vez de proteger.

O VIH não acabou. Apenas mudou de forma - e de lugar na nossa consciência. A prevenção não se faz só de fármacos, mas de memória e de compromisso. A Profilaxia pré exposição (PrEP), a Profilaxia pós-exposição (PEP) e os novos tratamentos são armas poderosas, mas perdem força se o esquecimento se tornar epidémico.

O Dia Mundial de Luta Contra a SIDA não é um ritual. É um alerta de que o vírus, embora controlado, continua a testar-nos - à ciência, à empatia e à capacidade de não repetir erros.

Porque talvez o maior risco já não seja o vírus em si, mas a nossa tendência para o esquecer.

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