Investigadores descobrem "novo caminho" na cura para a Sida

CNN Portugal , MMC
5 jun 2025, 17:00
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As últimas duas pandemias globais podem encontrar um caminho comum

Lembra-se das vacinas da Moderna e da Pfizer que ajudaram a combater a pandemia de covid-19? E se a novidade que ambas trouxeram ajudar a combater outra pandemia que ainda não foi totalmente resolvida até aos dias de hoje?

Os investigadores do Instituto de Infeção e Imunidade Peter Doherty, de Melbourne, publicaram, no último dia 29 de maio, um artigo científico que revela a descoberta de um “novo caminho” para uma potencial “cura do VIH”, vírus que causa a Sida e que foi a última pandemia global antes da covid-19.

A descoberta consiste na introdução de mRNA (ou RNA mensageiro) - como nas vacinas da Moderna ou da Pfizer (apenas estas duas vacinas tinham este mensageiro) - no tipo de glóbulos brancos que abrigam o VIH, algo que, segundo a investigadora Paula Cevaal, coautora do artigo que falou ao The Guardian, lembra que “era considerado impossível” anteriormente, uma vez que os glóbulos brancos não absorvem nanopartículas lipídicas (LNPs), usadas para carregar mRNA. 

O VIH é um vírus silencioso, na medida em que consegue alocar-se nos glóbulos brancos de forma passiva - como se de um standby se tratasse - quando uma pessoa se submete a tratamentos, que, assim, não têm capacidade de irradiar o vírus. Tornam-no apenas ‘dormente’. A partir do momento em que o paciente deixa o tratamento, o vírus e respectivos sintomas voltam a manifestar-se.

Esta descoberta pode mudar o método com que os tratamentos do VIH atuam: ao invés de anular os sintomas, podemos estar perante o ‘rastilho’ da cura do vírus que provoca a Sida.

Para que se entenda qual é a principal razão pela qual não há, pelo menos por enquanto, uma cura para o VIH, é importante perceber como é que o vírus escapa, de certa forma, a um tratamento permanente.

De forma simplificada, há vários tipos de glóbulos brancos, que são responsáveis pela defesa do organismo. Entre os vários tipos de glóbulos brancos existem os linfócitos, que são células de memória, ou seja, são células que combateram vírus anteriores e que memorizam infeções precedentes, reagindo de forma mais rápida e eficaz no caso de um novo episódio com os vírus que já provocaram infeções anteriormente. 

Estas células possuem um reservatório onde o vírus VIH se instala, de forma ‘dormente’, no momento em que o paciente recebe os tratamentos, sendo inacessível a uma intervenção definitiva dos tratamentos, pelos mesmos motivos, devido à rejeição dos glóbulos brancos face à entrada de LNPs, que carregariam o mRNA para esse reservatório, de forma a que instruísse as células a revelarem o vírus. 

Nesse sentido, o instituto australiano conseguiu desenvolver um novo tipo de LNP: o LNP X, que, agora sim, conseguiu ser absorvido pelos glóbulos brancos, nos primeiros testes - com células doadas por pacientes de VIH - realizados pela equipa de investigadores, tendo a possibilidade de acesso ao reservatório celular em que o VIH se consegue alojar de forma latente. Com isto, depois de expulso do reservatório celular, o vírus pode ser ‘atacado’ de forma conclusiva, podendo tornar a Sida, ainda considerada uma doença crónica, numa doença curável. 

Apesar destas projeções otimistas, Paula Cevaal alerta que “na biomedicina há muitas coisas que não chegam aos pacientes” (por falhas em testes, por exemplo), mas revela-se confiante com esta descoberta: “No campo da cura do VIH, nunca vimos nada tão bom quanto o que estamos a ver, em termos do quão bem conseguimos revelar o vírus”. 

Paula Cevaal revela, para já, os próximos passos da investigação, e diz-se “esperançosa” com a possibilidade de “ver o mesmo tipo de resposta num animal” e, posteriormente, com a hipótese de testes em humanos. 

Outro coautor do artigo, Michael Roche, diz ao The Guardian que a descoberta pode implicar avanços na cura de outras doenças que envolvem os glóbulos brancos, como o cancro. 

Segundo dados da UNAIDS, em 2023, cerca de 40 milhões de pessoas padeciam de VIH e dependiam, por isso, de medicamentos de forma contínua e crónica, de forma a combater ou, neste caso, ‘adormecer’ um vírus silencioso, como é o da Sida.

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