Eliminar a SIDA até 2030? Reino Unido acha possível. Em Portugal aguarda-se há quase dois anos a autorização de medicamentos inovadores

26 out, 07:00
Sida (arquivo)

Especialista não acredita que a data possa ser atingida em Portugal, e aponta outras falhas para além dos medicamentos

Os três medicamentos que fazem parte do plano do Reino Unido para eliminar o vírus da imunodeficiência adquirida (VIH) até 2030 estão à espera de autorização para comercialização em Portugal há quase dois anos. A juntar a isso, diz à CNN Portugal (do mesmo grupo da TVI) o diretor do serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral, Fernando Maltez, há outros dois fatores tão ou mais importantes que tornam essa uma meta difícil: a consciência social e a ação política, questões determinantes para que, quando os fármacos estiverem disponíveis, possam ser administrados a toda a população, incluindo às pessoas mais deslocadas ou desinformadas.

Os três medicamentos em que o NHS baseia o “combate” ao vírus que causa a síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA) são o Vocabria, Rekambys e Rukobia, passando o plano por articular a administração com a generalização dos mesmos a toda a população, sobretudo àquela que está mais isolada ou desinformada, que é onde se identificam a maioria dos casos. Os primeiros dois funcionam em conjunto, através de injeções que podem ser dadas de dois em dois meses, facilitando o processo para o doente, uma vez que até aqui só existiam tratamentos através de comprimidos. Em articulação funcionam como um tratamento contra o VIH. Já o terceiro destina-se a pessoas que desenvolvam maior resistência aos outros tratamentos retrovirais disponíveis. Os três foram aprovados este ano no Reino Unido, que rapidamente avançou para a sua utilização no programa que quer ver concluído em 2030.

Ainda antes disso, todos foram também aprovados pela Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla original), que tutela as licenças farmacêuticas na União Europeia. Apesar de terem sido aprovados entre o fim de 2020 e o início de 2021, nenhum dos fármacos está, atualmente, em comercialização em Portugal.

A Autoridade do Medicamento (Infarmed) refere à CNN Portugal que os três medicamentos se encontram em “avaliação pré-hospitalar”, aguardando ainda os acordos de comparticipação do Estado sob os quais deverão ser comercializados.

"Os medicamentos Vocabria (Cabotegravir) + Rekambys (Rilpivirina) e Rukobia (Fostemsavir) estão neste momento em avaliação prévia hospitalar e, nesse sentido, não se encontram ainda comercializados em Portugal", afirma o Infarmed.

Estes três retrovirais são vistos como grandes esperanças para eliminar a infeção no mundo. Fernando Maltez, que vai estar numa conferência de apresentação destes fármacos em breve, sublinha, porém, que "qualquer medicação nova tem implicações que só se conhecem na vida real", assumindo uma postura cautelosa perante estes medicamentos.

Além disso, refere o médico, é preciso perceber como cada caso vai aderir aos medicamentos, bem como grupos de pessoas específicos, como crianças, grávidas ou transgéneros. Por isso, avisa: "Há um conjunto de aspetos que não permite dizer que só com isso se permite a eliminação [da SIDA] em 2030".

Reino Unido define meta para fim da epidemia

O Reino Unido segue o exemplo da Organização das Nações Unidas, que definiu como objetivo “acabar com a epidemia de SIDA em 2030”, baseando-se para isso em três pilares: tratamento, novas infeções e discriminação. Um conjunto de medidas que junta a ciência à política, mas que, até ver, não tem dado os resultados pretendidos a nível mundial. O primeiro objetivo, o chamado “90-90-90”, passava por ter 90% dos infetados detetados, 90% em tratamento e 90% com carga viral não detetável até 2020. Uma meta alcançada nos países mais desenvolvidos, como Portugal, mas que falhou nos países em vias de desenvolvimento.

É uma meta que Fernando Maltez vê como ambiciosa, recusando-se a dizer se acha que correrá bem: “É bom que se estabeleçam essas metas para se poder lutar por elas, mas é difícil lá chegar".

Sobre Portugal, diz o diretor do serviço de Infecciologia do Hospital Curry Cabral à CNN Portugal (do mesmo grupo da TVI), “não existe nenhuma meta específica”, optando pela cautela de “conseguir no ano de 2030 o mínimo de número de casos”.

“Os zero casos parece-me difícil de atingir. Implica não só ter a disponibilização do medicamento, mas também disponibilizar o medicamento às pessoas, que as pessoas recorram aos cuidados de saúde, que não estejam afetadas pela situação, por medos ou pânicos”, refere o especialista, sublinhando que também a nível global será difícil atingir o fim da epidemia em 2030.

Medicamento pode ajudar a prevenir

O diretor-executivo do Grupo de Ativistas em Tratamentos (GAT) afirma à CNN Portugal que estes três medicamentos devem ser "aprovados o quanto antes e disponibilizados para as pessoas que precisam". Ricardo Fernandes destaca que isso é particularmente relevante no caso do Rukobia, que se dirige a pessoas cujo tratamento com outras terapêuticas não funciona tão bem: "Estas pessoas são tratadas na mesma, mas podem ter uma melhor qualidade de vida se for adicionado este medicamento ao seu tratamento".

"A preços comportáveis e que sejam acessíveis para a população, é um medicamento claramente necessário. Essas pessoas têm poucas opções", refere o também membro do Grupo Europeu de Tratamento da SIDA, ressalvando que a comparticipação deste medicamento não deverá ser muito onerosa para o Estado, até porque são poucas as pessoas a necessitar dele.

Além disso, destaca o responsável da GAT, existe ainda um outro fator relevante: o Rukobia também pode ser utilizado como meio de profilaxia, podendo funcionar, em certos casos, como uma prevenção contra a infeção, uma espécie de vacina.

"Há pessoas que não têm ou não conseguem ter acesso aos meios de prevenção, como o preservativo, que podem beneficiar disto", acrescenta.

Sobre os outros medicamentos, Ricardo Fernandes lembra que a eficácia é similar aos já existentes, mas adianta ver neles uma vantagem: a forma de administração. É que o Vocabria e o Rekambys são administrados por via subcutânea, através de uma injeção que é dada de dois em dois meses. "Além de ser confortável é mais prático", reforça o ativista, frisando que as pessoas podem esquecer-se no caso da toma diária de comprimidos, mas que não se esquecerão de uma injeção periódica num hospital.

Seja como for, vinca, a aprovação destes medicamentos, independentemente da rapidez, deverá fazer sempre parte de um plano que inclua a questão política e social, pedindo, por isso, um preço que seja sustentável para o Serviço Nacional de Saúde. E essa parte social também ganha um papel na aprovação dos medicamentos: Ricardo Fernandes afirma que haverá uma maior adesão das pessoas infetadas com VIH caso estes fármacos sejam aprovados: "A eficácia é semelhante aos medicamentos existentes, mas vamos ganhar eficácia na adesão ao tratamento".

Desafio político e social

Independentemente da eficácia dos medicamentos existentes, Fernando Maltez destaca a importância dos pilares político e social, sem os quais, refere, é impossível que a ciência consiga eliminar a doença. Esse é, também, um dos grandes desafios assumidos pelo Reino Unido, que quer generalizar o acesso a medicamentos e testes a toda a população.

Os dados mais recentes do Centro Europeu para o Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC, na sigla original) que englobam registos portugueses, mostram que há comunidades particularmente afetadas pela doença.

Em Portugal, cerca de 50% dos novos casos detetados de VIH em 2019 (o último ano em que o País divulgou dados) foram sinalizados em imigrantes, nomeadamente da América do Sul. Uma realidade que se repete em quase todos os países. Na Irlanda, por exemplo, quase todos os casos são detetados entre comunidades de estrangeiros.

Por isso, e sublinhando que atuar contra a discriminação é um dos pilares da ONU, Fernando Maltez pede uma maior participação e consciência política e social: "Temos, neste momento, todas os meios necessários para eliminar a infeção. Temos terapêuticas extremamente eficazes e que conseguem colocar as pessoas com cargas virícas indetetáveis, onde a infeção não é transmissível. Temos meios de prevenção eficazes, sabemos como a infeção se transmite".

Assim, destaca o infecciologista, o importante é generalizar estas práticas e terapêuticas a toda a população, incluindo as comunidades discriminadas ou geograficamente deslocalizadas. Apesar de não existirem dados oficiais a partir de 2019, o médico confirma que  há "uma proporção importante de novos casos entre imigrantes, particularmente do Brasil".

São pessoas, diz, que poderão sentir-se à margem ou não terem conhecimento da forma como podem receber o acompanhamento devido. Por isso, Fernando Maltez avisa que eliminar a SIDA "não está só dependente da ciência, é preciso participação e ação política e social".

Números longe do objetivo

Segundo o “90-90-90”, o número de novos infetados, por exemplo, devia ter caído para 500 mil por ano a partir de 2020. No entanto, segundo a ONU, em 2021 foram identificados mais 1,5 milhões de casos, havendo ainda o registo de cerca de 650 mil mortes relacionadas com a SIDA no ano passado.

Números que trazem os totais para cerca de 84,2 milhões de casos de infeção desde o início da epidemia, dos quais resultaram 40,1 milhões mortes associadas. Em Portugal, e de acordo com o relatório mais recente, que data de 2019 (o país suspendeu a comunicação de dados durante a pandemia de covid-19), já morreram 10.905 pessoas em pouco mais de 40 anos com SIDA. O número de óbitos tem vindo a descer de ano para ano, confirmando que o País, à semelhança dos vizinhos europeus, está numa trajetória para acabar com a doença.

Para 2025 o objetivo passa a ser "95-95-95", contabilizando apenas 200 mil novos casos em todo o mundo. Um número que não deverá ser cumprido, de acordo com os especialistas.

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