Esqueçam o Natal. Na Sicília, já estão a pensar na Páscoa

CNN , Julia Buckley
1 dez, 09:00
Populares acendem foguetes para indicar o caminho para as carroças (Julia Buckley/CNN)

Em Caltanissetta, não há caças aos ovos de chocolate nem coelhinhos fofinhos. Naquela cidade medieval, as ruas ficam repletas de figuras em tamanho real a narrar a Paixão de Cristo e fiéis devotos a caminhar descalços pelas ruas

A contagem decrescente para as festas de fim de ano começou. Mercados de Natal, vinho quente, patinagem no gelo - em todo o mundo, em todos os continentes, as pessoas começam a preparar-se para entrar no espírito natalício.

Mas uma cidade siciliana já está a pensar no que vem a seguir: a Páscoa.

Caltanissetta, mesmo no centro da maior ilha do Mediterrâneo, é famosa em toda a Itália pelas suas celebrações e desfiles da Páscoa.

Esqueça as caças aos ovos de chocolate e os coelhinhos fofinhos. Imagine figuras em tamanho real a narrar a Paixão de Cristo com detalhes comoventes, fiéis devotos a caminhar descalços pelas ruas e as chaves da cidade a serem entregues a um cidadão. No passado, as celebrações incluíam até a libertação de um condenado da prisão. Infelizmente, para aqueles que estão presos em Caltanissetta, esta é uma tradição que ficou firmemente no passado.

As tradições da Páscoa - ainda tão profundamente enraizadas, ao ponto de fazer regressar milhares de emigrantes de Caltanissetta todos os anos para a celebrar - remontam a séculos.

A mais espetacular acontece na Quinta-feira Santa, com a procissão das vare: quadros em tamanho real que representam cenas da Via Sacra, que são levados em procissão pela cidade desde o pôr-do-sol até às primeiras horas da manhã.

As cenas das vare foram criadas por uma dupla de artistas, pai e filho, Francesco e Vincenzo Biangardi, entre 1883 e 1902. Nascidos em Nápoles, os dois mudaram-se para o sul para trabalhar como artistas na Calábria e na Sicília, antes de se estabelecerem em Caltanissetta para criar estas figuras - que viriam a tornar-se a sua obra-prima.

Sobre plataformas com rodas, à altura dos ombros, erguem-se, imponentes sobre a multidão. Cada uma retrata, com pormenores muitas vezes comoventes, a viagem de Cristo até à cruz.

Ali está ele diante do sumo sacerdote Caifás, depois de ter sido açoitado. Cambaleando diante de Verónica, que lhe limpará o rosto com o véu, e orando no jardim do Getsémani.

Há a Última Ceia, um vasto quadro em que os discípulos se voltam uns contra os outros para descobrir quem traiu o seu mestre. À sua maneira, é tão espetacular como o famoso fresco da Última Ceia de Leonardo da Vinci, em Milão.

E há Maria e o jovem São João a abraçá-lo enquanto é retirado da cruz numa cena de Pietà tão terna como a famosa escultura de Miguel Ângelo, na Basílica de São Pedro.

Ao todo, são 16 vare (peças), 15 das quais foram feitas pela dupla Biangardi, com recurso a papel maché, gesso e madeira.

Na Quinta-feira Santa, a procissão das vare realiza-se pelas ruas da cidade. Julia Buckley/CNN
Cada carro alegórico é empurrado por membros da sua respetiva guilda. Julia Buckley/CNN

“São muito importantes para a cidade”, explica Salvatore Petrantoni, vereador de Caltanissetta responsável pelos eventos, incluindo a Semana Santa. “Uma vara por si só não teria muito valor mas, em conjunto, dentro da tradição, tornam-se importantes.”

De facto, enquanto são levadas em procissão pelas ruas de Caltanissetta, causam impacto. Para começar, são enormes: cada figura tem pelo menos o tamanho de uma pessoa real, e algumas são bem maiores. E são colocadas sobre plataformas móveis que começam aproximadamente à altura dos ombros das equipas de homens fortes que as empurram.

Partindo pontualmente às 20:00, cada grupo é acompanhado por uma banda em marcha. A música de cada banda compete com a das bandas vizinhas, fazendo ecoar as ruas estreitas de Caltanissetta com cânticos fúnebres e marchas solenes.

E, para além das pessoas que empurram cada carro alegórico - que podem precisar de até seis pessoas para os mover, embora hoje em dia também contem com a ajuda de rodas motorizadas por baixo dos carros -, há outras pessoas que as acompanham. O público segue a "sua" vara em procissão, enquanto os membros da guilda abrem caminho, acendendo sinalizadores nas ruas para anunciar a chegada dos carros.

Entretanto, cada vara tem um líder, impecavelmente vestido com um fraque, que conduz o movimento do tableau com uma batuta de metal, batendo-a na polia da carroça para indicar aos que a empurram na parte de trás quando parar e quando recomeçar.

À frente de todos segue a cuntastoria, ou “contadora de histórias”, uma mulher que declama a história dos evangelhos em siciliano.

É um bailado executado com precisão que transporta os espectadores diretamente para a emoção da história da Páscoa nesta região profundamente católica de Itália. Milhares de pessoas convergem para a praça principal da cidade, em frente à catedral, para assistir à partida da procissão, benzida pelo bispo; para seguir as carroças que subiam, desciam e contornavam a cidade montanhosa; ou para sair de madrugada das suas casas para ver as carroças percorrerem as estreitas ruas residenciais.

Onde quer que a procissão passe, há centenas de pessoas à sua espera. Separam-se silenciosamente como o Mar Vermelho à medida que as carroças se aproximam.

Arte para o povo

As cenas não são apenas artisticamente belas - têm significado para a comunidade. Cada uma foi atribuída a um grupo diferente, ou guilda, de trabalhadores da cidade, de padeiros a ferreiros, de carpinteiros a canalizadores. Várias foram atribuídas a mineiros - a área em redor de Caltanissetta era famosa pelas suas minas de enxofre no século XIX. "Era uma forma de agradecimento por não haver desastres nas minas", explica Petrantoni. Uma delas foi encomendada por um grupo de mineiros que sobreviveram a uma explosão que matou tragicamente os seus colegas de trabalho.

A procissão das vare, que parte todos os anos na Quinta-feira Santa, é o mais espetacular dos rituais pascais de Caltanissetta, mas está longe de ser o único. Aqui, a tradição continua durante toda a Semana Santa.

Quarta-feira é o dia da Real Maestranza - essencialmente uma associação dos artesãos históricos da cidade. O grupo remonta ao período medieval, quando os governantes de Caltanissetta formaram um exército privado para defender a cidade em caso de invasão sarracena. Hoje, é um grupo civil dividido em subgrupos, como guildas, em que cada um representa uma profissão: pintores e decoradores, pasteleiros, carpinteiros, cabeleireiros e assim por diante.

A Real Maestranza começou por ser um exército privado na Idade Média. Hoje, assemelha-se mais a um conjunto de guildas. Julia Buckley/CNN

Estes civis tomam conta da cidade na quarta-feira antes da Páscoa, quando o "capitão" da Real Maestranza - escolhido anualmente entre os subgrupos - se dirige à câmara municipal com uma espada simbólica e recebe a chave da cidade sobre uma almofada.

O autarca despede-se do seu poder; durante o resto da Semana Santa, este capitão é o "padrono della città", ou senhor da cidade, responsável por Caltanissetta. Antigamente, ele (é sempre um homem) podia escolher um prisioneiro da cadeia local para ser libertado. Infelizmente para os malfeitores de hoje, o capitão já não tem o poder de conceder perdão. No entanto, ainda veste o traje tradicional pomposo, composto por casaca, calças curtas e meias brancas, enquanto exerce o seu poder sobre os cidadãos durante a semana. Os membros da Real Maestranza participam também numa procissão de varicedas - pequenas vare - na noite de quarta-feira.

Uma estátua milagrosa

Mas para os verdadeiramente devotos nisseni (como são conhecidos os habitantes de Caltanissetta), a Sexta-feira Santa é a noite mais importante. É a noite em que, liderados novamente pela Real Maestranza, percorrem a cidade em procissão com o Cristo Nero, ou Cristo Negro: uma escultura de madeira do crucifixo que se acredita ser milagrosa e é tão amada que é conhecida como Signore della Città, ou Senhor da Cidade. Numa procissão espetacular, o Cristo Nero é retirado do seu local na igreja Santuário Signore della Città. Por cima de um globo dourado, é levado em procissão pela colina íngreme até ao centro da cidade, antes de seguir o percurso da procissão pela cidade.

A escultura é adorada pelos nisseni não só por ser considerada milagrosa, mas também por estar ligada aos mais pobres da sociedade, explica Tony Gangitano, cineasta italiano natural de Caltanissetta. Conta-se que foi descoberta pelos fogliamari - pessoas que sobreviviam da recolha de ervas e folhas silvestres no campo para depois as venderem nas cidades - em 1618. Durante uma colheita (fogliamari significa "folhas amargas") nos arredores de Caltanissetta, terão entrado numa gruta, onde encontraram duas velas acesas, uma de cada lado da escultura. Ao lavarem o crucifixo, a cor escureceu de imediato, dando origem ao nome Cristo Nero.

O filme de Tony Gangitano, "U Cristu Truvatu", conta a história do 'Cristo Negro' de Caltanissetta. Tony Gangitano

Estudos recentes sugerem que a escultura é de origem bizantina, sendo uma das mais antigas representações da crucificação na Sicília. Até hoje, ninguém sabe de onde veio ou como foi parar àquela gruta nos arredores de Caltanissetta.

“Sempre fui fascinado pelas procissões”, confessa Gangitano, que agora vive entre a Sicília e o continente. Planeava fazer uma curta-metragem sobre o ritual, mas transformou-a numa longa-metragem, misturando documentário e reconstituição histórica. Protagonizado pelo conceituado ator italiano Gaetano Aronica e filmado na parte medieval da cidade construída pelos conquistadores árabes, que governaram a região na Idade Média, “U Cristu Truvatu” conquistou o primeiro prémio no Festival Internacional de Cinema Cavalo de Ouro de Taipei, em 2022.

Hoje, os fogliamari ainda existem - basta caminhar por Caltanissetta durante o dia para ver frequentemente carrinhas e carros parados à beira da estrada, com ervas silvestres e folhas de salada acabadas de colher à venda no capô. Os membros da associação lideram a procissão da Sexta-Feira Santa, à frente dos padres locais. Seguem-se os nisseni, que caminham descalços pela cidade - os que fizeram um voto a Cristo Nero - e os membros da Real Maestranza, trajados com fato e gravata, cada um com uma lanterna. Alguns também transportam espadas, lanças ou escudos.

Na Sexta-feira Santa, o Cristo Nero é levado em procissão pelas ruas, transportado por fiéis descalços. Julia Buckley/CNN

“É a procissão mais silenciosa e com maior número de participantes”, descreve Petrantoni, referindo-se ao evento da Sexta-Feira Santa. Enquanto caminham pelas ruas tranquilas, os fogliamari lideram cânticos e lamentações numa mistura de siciliano e latim, aquilo a que Gangitano chama “um dialecto extremamente fechado”.

É uma cena extraordinária, quase bíblica - e, para os fiéis, é um dos acontecimentos mais comoventes da Páscoa aqui na Sicília. “As pessoas choram porque sabem que terão de esperar mais um ano”, diz Petrantoni, que indica que, dos 60 mil habitantes de Caltanissetta, cerca metade participa, e outros mil formam o núcleo oficial da procissão, caminhando descalços pela cidade durante várias horas.

“As tradições fazem-se sentir com mais intensidade na Sicília porque as vivemos desde a infância”, explica Petrantoni, que caminha descalço ao lado do próprio Cristo Nero e que sente tão profundamente a importância das procissões que o cargo de conselheiro para eventos foi criado especialmente para ele. A sua influência mantém-se ao longo do ano - as montras das lojas fechadas exibem imagens das vare e de outras procissões, lembrando Caltanissetta das suas tradições pascais, ao longo de todo o ano.

Quem for visitar, também será lembrado disso mesmo, se visitar a Pasticceria de Fraia, uma das famosas pastelarias de Caltanissetta: é lá que se faz a spina santa, um doce em forma de coroa de espinhos, recheado com geleia de mirtilo. Foi criado para a visita do Papa João Paulo II, em 1993. "Ele disse que foi a melhor coisa que já comeu", conta Gangitano, com orgulho.

“As vare recordam-nos do que sempre fomos. Há tanta história. Por isso é que cuidamos tão bem delas”, observa Petrantoni, que quer usá-las noutros eventos, exibindo algumas vare em setembro para uma ocasião especial. Embora as vare estejam sempre na sua mente - e sempre expostas nas montras das lojas espalhadas pela cidade - em fevereiro, o planeamento para a Semana Santa de 2026 vai começar a sério.

Gangitano, especializado em fazer filmes sobre a Sicília, defende que, mesmo num mundo em constante mudança, preservar estas tradições é crucial.

“Estão na raiz da identidade de cada cidade, de cada pessoa”, sublinha. “Se não conhecermos o passado, não podemos encarar o presente.

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