Duas irmãs americanas ficaram hospedadas num pitoresco B&B inglês. O drama começou quando a chave do quarto se partiu

CNN , Francesca Street
2 ago, 09:00
Jill e Jan Shropshire
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Viagem das duas americanas a Inglaterra ficou gravada nas suas memórias. Ficaram fechadas num quarto de hotel, sem telefone fixo no quarto e nenhuma delas tinha telemóvel

Jill Shropshire rodou a chave na fechadura e sentiu imediatamente um estalido. Ficou parada por um momento, incrédula: a chave tinha-se partido na sua mão.

"Não estava a prestar atenção ao que estava a fazer e simplesmente enfiei-a lá dentro… Acho que a coloquei ao contrário e parti-a na fechadura", conta Jill hoje à CNN Travel. "Pensei logo: 'Oh, não. Isto não é nada bom'".

Jill virou-se para mostrar a chave partida à sua irmã, Jan Shropshire. Mas Jan já se tinha enfiado numa das camas individuais, tirando as botas.

"Estava bêbada", conta Jan à CNN Travel. "Já me estava a arrastar para a cama".

Jill chamou a atenção de Jan acenando com a chave partida.

"Acabei de nos trancar acidentalmente cá dentro", disse à irmã.

Com os olhos turvos, Jan ignorou a preocupação de Jill, mal levantando o olhar.

"Ah, ligamos lá de manhã. Vai correr tudo bem", murmurou, puxando os cobertores por cima da cabeça.

Jill olhou à volta do quarto. As duas irmãs americanas na casa dos vinte anos estavam hospedadas num B&B rural, numa antiga casa remodelada nas Midlands, em Inglaterra.

"Não havia telefones", recorda Jill. "Estávamos em 1997".

"Acho que a enfiei ao contrário e parti-a na fechadura. Pensei logo: 'Oh, não. Isto não é nada bom'".

Jill Shropshire

Não só não havia telefone fixo no quarto, como nenhuma das irmãs tinha telemóvel.

Nada disto augurava nada de bom. Mas a Jill também estava cansada e um pouco embriagada. Ambas as irmãs tinham bebido vários gin tónicos no pub local naquela noite.

Por isso, também se deitou na cama.

"Vamos tratar disso de manhã", disse à irmã mais nova, que já tinha fechado os olhos.

Durante a noite, Jill acordava mais ou menos de hora a hora, lembrando-se da situação complicada e perguntando-se o que iriam fazer.

"Acordava cheia de stress", recorda.

Confusa, por causa do cansaço causado pelo gin, dizia a si própria que não havia nada a fazer até de manhã.

Mas uma mistura de jet lag e álcool levou as irmãs a dormir até bem depois das 11:00. Quando finalmente acordaram, a pousada estava silenciosa. Elas tinham esperança de chamar a atenção de outros hóspedes. Talvez o proprietário as ouvisse?

"Mas toda a gente já tinha saído para o dia, por isso não havia ninguém para ajudar", recorda Jill.

"Estávamos completamente sozinhas", diz a Jan.

Não tinham comida no quarto além de um único frasco de manteiga de amendoim. Não havia casa de banho. E estavam presas.

As irmãs não estavam propriamente em pânico. Ambas achavam que a situação era, pelo menos, um pouco divertida. Mas não queriam passar o dia inteiro presas num quarto.

"Então, abrimos a janela", recorda Jill. "A porta da frente fica mesmo por baixo de nós. Mas não havia ninguém a passar na rua, ninguém a entrar nem a sair, absolutamente ninguém. Quer dizer, ficámos ali à janela durante uma eternidade, a gritar. Batíamos na porta, debruçávamo-nos pela janela".

Ninguém respondia. A rua inglesa, adormecida, parecia totalmente deserta. As irmãs estavam oficialmente trancadas.

Uma viagem memorável a Inglaterra

Jill e Jan viajaram para Shropshire em 1997. Aqui pode ver Jill a explorar a cidade de Shrewsbury (Jill e Jan Shropshire)

Tendo crescido no Sul dos Estados Unidos, nas décadas de 1980 e 1990, Jill e Jan sempre sonharam em visitar Inglaterra. Mais concretamente, sonhavam em visitar Shropshire, um condado nas West Midlands, na Inglaterra, na fronteira com o País de Gales.

Normalmente, não é um dos destinos turísticos mais procurados, mas, para a Jill e a Jan, este desejo era pessoal.

"O nosso apelido é Shropshire, por isso queríamos ir a Shropshire", explica Jan.

Em 1997, as irmãs decidiram embarcar na sua primeira viagem juntas, de mochila às costas pelo Reino Unido, com Shropshire como ponto alto.

"Acabámos por ficar em Shrewsbury", diz Jill.

Esta cidade histórica de Shropshire está repleta de edifícios medievais, ruas pitorescas e um centro que remonta à era Tudor. Era a Inglaterra que as irmãs sempre tinham imaginado.

"E ficámos num pequeno B&B muito agradável, no fim de uma rua sem saída", recorda Jill. "Era uma casa antiga; entrávamos e havia uma pequena secretária. Tudo tinha um ar um pouco da casa 'da avó'. Não sei quantos quartos tinha no rés-do-chão, talvez três ou quatro, se tanto? E nós ficámos no terceiro andar."

Este último andar tinha uma porta de vidro à prova de som no topo das escadas e, a seguir, um corredor que conduzia a dois quartos pequenos.

Jill e Jan adoraram conhecer a pitoresca Inglaterra. Aqui, Jan pousa para uma fotografia em Shrewsbury (Jill e Jan Shropshire)

A pitoresca pousada era a base perfeita para explorar a região. Jan e Jill adoravam passear pelas ruas de calçada, espreitar o interior do castelo medieval de Shrewsbury e mergulhar na cultura dos pubs ingleses.

Na sua segunda noite na cidade, instalaram-se para uma longa noite num dos pubs.

#Comemos#, recorda Jill. "Depois, entrou mais gente. Bebemos uns copos…"

As irmãs começaram por partilhar pints com os locais, depois passaram para a sua bebida preferida, o gin tónico.

Divertiram-se a conversar com outros frequentadores do pub, explicando como tinham ido parar à cidade.

"Foi maravilhoso", recorda Jan sobre a noite. "Embora tenha ficado um pouco desiludida por ninguém ter ficado impressionado com o facto de o nosso apelido ser Shropshire."

"Ninguém quis saber", diz Jill, entre risos.

"Ninguém quis mesmo saber nada", concorda Jan, encolhendo os ombros. "Estávamos a pensar: 'Isto não é especial?' E toda a gente respondia: 'Não…'"

Enquanto voltavam para casa a cambalear, Jan e Jill sentiam-se eufóricas. Era tão emocionante viajar juntas, para um lugar totalmente novo, pela primeira vez. Sempre quiseram conhecer mais do mundo. A sua aventura em Shropshire parecia o início de um novo capítulo.

Ficarem presas no quarto da pousada não fazia parte da visão que tinham para esta nova e emocionante era.

Um dia presas num quarto

Este é o B&B em Shropshire onde as irmãs Jill e Jan ficaram presas durante horas (Jill e Jan Shropshire)

Quando as irmãs acordaram para essa realidade, nenhuma delas conseguia acreditar, mas ambas ficaram contentes por estarem uma com a outra.

"Teria sido muito mais stressante sozinha", diz Jan.

"Ou com qualquer outra pessoa", diz Jill. "Outra pessoa poderia entrar mesmo em pânico e isso seria ainda mais stressante".

"Para nós, ambas pensamos… 'Isto vai resolver-se de alguma forma'", concorda Jan. "Quer dizer, não vamos ficar neste quarto para sempre. Vamos sair daqui mais cedo ou mais tarde".

Depois de terem gritado pela janela durante algum tempo, sem sucesso, Jan e Jill decidiram tirar os pijamas e, pelo menos, aproveitar o dia da melhor forma possível.

Começaram a comer manteiga de amendoim para se alimentarem, mas, como não tinham talheres à mão, tiveram de retirar pedaços com um pedaço de cartão dobrado.

A falta de casa de banho estava longe de ser ideal, mas arranjaram uma solução (mais ou menos) viável.

"Havia um lavatório independente…", recorda Jill.

Não era uma solução fantástica. Mas a maior preocupação era a saúde da Jan.

"Sou diabética tipo 1 desde sempre", explica. "Em 1997, usava um frasco de insulina e seringas - que já não se usam, porque agora temos canetas de insulina, bombas de insulina e coisas do género. Mas, naquela altura, em todos os sítios onde íamos, perguntava ao proprietário da pousada se podia guardar a minha insulina no frigorífico".

Como Jan estava presa no quarto, não conseguia aceder à sua medicação.

"Fiquei lá em cima durante várias horas sem insulina".

Ainda assim, Jan tentou não se preocupar. Não havia nada a fazer e sentia-se relativamente estável. Além disso, estava confiante de que iriam escapar em breve.

"Limitei-me a sentar-me na cama e a ler", conta Jan.

Ambas as irmãs tinham trazido pilhas de livros para a viagem de mochila às costas de duas semanas. Isso tornava o transporte das malas para dentro e para fora dos comboios uma tarefa árdua, mas agora estavam gratas pela distração que os livros lhes proporcionavam.

Passaram-se horas. De vez em quando, tentavam gritar pela janela ou bater na porta por baixo da janela. Mas a pousada - e a estrada em geral —-continuavam desertas.

Fuga do quarto

Estava a anoitecer quando as irmãs finalmente ouviram movimento no corredor lá fora. No dia anterior, tinham conhecido um casal russo que estava hospedado no quarto ao lado, mas quaisquer tentativas de uma conversa mais longa tinham sido frustradas pela barreira linguística. Agora ouviam vozes abafadas a falar no corredor.

Jill e Jan olharam uma para a outra. Jan estava em choque.

"Não conseguia acreditar, porque já estávamos lá dentro há tanto tempo", diz.

Jill levantou-se imediatamente. Não queria perder a oportunidade. Começou a gritar e a bater na porta.

"Levantei-me tipo: 'Meu Deus, tenho de os apanhar antes que entrem no quarto deles ou saiam outra vez'", recorda. "Acho que foi um grito frenético de 'socorro, socorro!'"

"E pensei: 'Eles vão simplesmente ignorá-la, vão apenas ouvir murros e conversas e vão simplesmente ignorar tudo isso'", diz Jan.

Mas mesmo que os outros hóspedes da pousada não conseguissem compreender os detalhes do que estava a ser dito, reconheceram o pânico na voz de Jill. Responderam, gritando algo em russo. Depois, as irmãs ouviram passos a descer as escadas.

Em poucos instantes, ouviram a proprietária da pousada a pedir desculpa, com a voz abafada.

"Ela estava mesmo do outro lado da nossa porta, por isso conseguimos comunicar com ela", diz Jill. "Ela estava assustada, mas a culpa foi toda minha, porque parti a chave na fechadura. Mas ela pediu muitas desculpas e ficou em pânico por termos passado o dia todo lá em cima".

A proprietária disse às irmãs que iria chamar um serralheiro. Passou mais algum tempo e, de novo, houve agitação à porta. O serralheiro tinha chegado.

"Acho que ele simplesmente desmontou tudo. Desmontou o puxador da porta e tirou-nos de lá", diz Jill.

Quando a porta finalmente se abriu, Jill e Jan mal conseguiam acreditar que estavam livres.

As irmãs ficaram aliviadas por terem conseguido escapar do quarto do B&B e continuar a explorar Shropshire. Aqui, Jan é fotografada junto a uma caixa de correio inglesa (Jill e Jan Shropshire)

"Saímos imediatamente, porque já estávamos lá dentro há horas", recorda Jan. "Saímos, fomos comer, demos um passeio."

Shrewsbury parecia ainda mais apelativa depois de um dia passado trancadas num quarto de hotel. As irmãs voltaram ao pub, precisando de uma bebida para celebrar que "graças a Deus que já não estávamos presas".

"E deram-nos outra chave. Não sei se fui eu que nos tranquei naquela noite ou não, talvez não tenha sido", diz Jill.

Décadas de aventuras

Jill e Jan ainda se riem do dia em que ficaram presas no B&B e continuam a gostar de viver aventuras juntas (Jill e Jan Shropshire)

Quase 30 anos depois do seu "encarceramento" na pousada, Jill e Jan ainda se riem da chave que se partiu na fechadura e do dia em que ficaram presas no quarto do sótão.

"Essas pequenas coisas, esses pequenos percalços, tornam tudo mais memorável", diz Jill. "Divertimo-nos imenso a viajar de mochila às costas pelo Reino Unido. Passar por estes pequenos percalços torna-nos mais resilientes. Sabemos que somos capazes de lidar com as situações."

"E rimos muito de nós próprias", acrescenta Jan.

"É verdade", diz Jill.

Desde aquela primeira viagem memorável, Jan e Jill já viajaram juntas muitas vezes. Hoje, também trabalham juntas, gerindo um negócio de joalharia.

A perspetiva das irmãs em relação ao trabalho, às viagens e à vida é, em geral, "o que tiver de ser, será". Elas sugerem que os percalços que tiveram nas viagens quando tinham cerca de 20 anos ajudaram a moldar essa mentalidade positiva.

"Simplesmente não nos stressamos, a menos que as nossas vidas estejam em perigo", diz Jan.

Jan sugere que a sua perspetiva provavelmente se deve, em parte, ao facto de ter crescido com diabetes.

"Quando a tua situação de base é como uma pedra às costas, tudo o resto corre bem e até tem o seu lado engraçado", afirma.

"Gosto de ter a atitude de que a vida é boa", concorda Jill. "Só tens de continuar a olhar para as coisas boas da vida e a ser curioso. Ter curiosidade pelo mundo à tua volta".

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