"Profundamente perturbador": Shireen Abu Akleh 1971-2022

17 mai, 21:47
Shireen Abu Akleh (Foto: Al-Jazeera)

Shireen Abu Akleh passou duas décadas a denunciar para a Al Jazeera os abusos das forças israelitas na Palestina mas também ela acabou por ser uma vítima da violência que acontece há décadas nestes territórios. A morte da jornalista provocou grande indignação, que acabaria por ser estender às cerimónias fúnebres - nas quais a intervenção da polícia de Israel voltou a ser alvo da condenação internacional.

Shireen Abu Akleh, de 51 anos, era um dos rostos mais importantes do jornalismo palestiniano. Jornalista veterana, que tinha também passaporte norte-americano, passou duas décadas a denunciar os abusos das forças israelitas nos territórios ocupados da Palestina para a estação árabe Al Jazeera, mas foi precisamente a cobertura de um ataque israelita ao campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia, que lhe viria a custar a própria vida. Shireen Abu Akleh foi alvejada mortalmente pelas forças de Israel. Vestia um colete à prova de bala, onde se podia ler “press” (imprensa em inglês), mas foi atingida por disparos na cabeça.

As circunstâncias da morte da repórter geraram grande indignação e consternação, com a Al-Jazeera a acusar Israel de ter assassinado a jornalista “a sangue frio”, num “crime atroz”. O exército israelita escudou-se no argumento de que se estava a defender de um ataque e o primeiro-ministro, Naftali Bennet, sugeriu mesmo que a repórter tenha sido vítima de disparos palestinianos. Mas as versões do lado do Estado judaico não convencem nem as autoridades palestinianas nem os observadores internacionais, incluindo as Nações Unidas, que pedem um "inquérito transparente e imparcial" à morte da repórter.

Este clima da indignação viria a agudizar-se dois dias depois, com os acontecimentos que acabaram por marcar o dia do seu funeral, quando milhares de pessoas prestavam uma última homenagem a Abu Akleh, erguendo bandeiras palestinianas e entoando cânticos “Palestina, Palestina”. Imagens que se tornaram virais nas redes sociais mostraram as forças de Israel a carregar sobre os homens que seguravam o caixão da jornalista durante o cortejo fúnebre entre o Hospital de São José, em Jerusalém Oriental, e a Igreja Ortodoxa Grega. A violência foi de tal ordem que, por pouco, os homens não deixaram a urna cair ao chão.

Estas imagens correram o mundo e mereceram a condenação de diversas entidades internacionais. Os próprios Estados Unidos, tradicionais aliados de Israel, descreveram as cenas como “profundamente perturbadoras”.

Mais, os líderes religiosos de Jerusalém uniram-se para condenar a cena de violência a uma só voz, numa conferência de imprensa em que acusaram Israel de “falta de respeito” à Igreja. O representante do Vaticano na Terra Santa classificou as ações como "injustificadas" e lembrou um acordo celebrado em 1993 entre a Igreja Católica e Israel que “prevê a liberdade religiosa” - que, neste caso, foi “brutalmente violada”.

A família revelou entretanto que as forças israelitas não só usaram e abusaram da força no cortejo fúnebre como, apenas algumas horas depois da morte de Abu Akleh, já tinham invadido a casa da jornalista, retirando as bandeiras palestinianas e pedindo aos enlutados que não entoassem cânticos de apoio à Palestina.

“Era um funeral pacífico. Toda a gente queria mostrar o seu apoio e o seu amor. No final das contas, mesmo na sua morte, não pôde estar em paz”, afirmou a sobrinha Lina Abu Akleh, em declarações à Al Jazeera.

Uma ideia corroborada por Diana Buttu, advogada especialista em direitos humanos e em assuntos relacionados com a Palestina. Buttu considera que a forma como as forças do Estado judaico lidaram com a morte de Abu Akleh mostra como a repórter, mesmo depois da sua morte, continuava a ser "uma espécie de holofote" com a "luz" que chamava a atenção para os "abusos cometidos por Israel".

“Shireen Abu Akleh, Al Jazeera, Jerusalém ocupada.” Esta era a despedida que Abu Akleh usava como assinatura em todas as reportagens e pontos de direto. Palavras que agora deixam de fazer parte da emissão do canal árabe mas que continuam a inspirar as mulheres palestinianas.

“A ausência de Shireen revelou-nos que como ela era uma parte integral da nossa memória palestiniana, da nossa identidade nacional e da nossa relação com o território e o ocupado”, escreveu Maram Humaid, repórter da Al Jazzera em Gaza.

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