O Shakhtar tem uma missão: retirar 90 atletas menores da Ucrânia

16 mar, 09:12
Shakhtar Donetsk

O clube criou um plano para levar os jovens para a Croácia, onde vão ficar instalados na academia do Hadjuk Split. O resgate está a ser feito em três etapas e Edgar Cardoso, que faz a ligação do clube com os jogadores, explica como está a processar-se.

Edgar Cardoso chegou na semana passada a Portugal e foi com um estado de espírito bem mais tranquilo, ao lado da família, que partilhou com o Maisfutebol o projeto que lhe tem ocupado os últimos dias: retirar os jogadores menores do Shakhtar Donetsk da Ucrânia.

O coordenador da formação diz que o objetivo é resgatar noventa miúdos até aos 18 anos e levá-los para a Croácia, onde os espera a academia do Hadjuk Split.

«A ideia partiu do Dario Srna, que é o diretor geral do Shakhtar, e o Hadjuk Split acabou por ser uma solução óbvia, porque o Srna é croata e utilizou a rede de contactos dele. Por isso encontrar uma solução para onde levar os jogadores acabou por ser relativamente fácil», conta.

 «A Lei Marcial obriga todos os homens entre os 18 e os 60 anos a permanecerem no país, ninguém pode sair, e nós tivemos esta ideia de deixar em segurança os jogadores que podem efetivamente sair da Ucrânia. Perguntámos às famílias de todos os miúdos entre os 12 e os 17 anos se queriam que retirássemos os miúdos para uma zona segura e a resposta foi esmagadora.»

A partir daí os responsáveis do clube começaram a trabalhar num plano para fazer o resgate e chegaram a um projeto que se dividia em três momentos.

«O primeiro momento foi com os jogadores que, depois de ter começado a guerra, nunca chegaram a ir para casa. Houve vinte e sete miúdos que nunca foram para junto da família, porque são daquelas regiões mais problemáticas, como Donetsk, Luhansk ou Khakiv», explica.

«Os pais optaram por não fazer regressar os miúdos a casa por razões de segurança e pediram ao Shakhtar para eles ficarem em Kiev. Por isso ficaram vinte e sete miúdos na Academia e houve treinadores, psicólogas, pessoal administrativo, num total de quinze pessoas, que abandonaram as suas casas para ficarem em permanência, com as respetivas famílias, na Academia durante uma semana para tomarem conta destes miúdos.»

Foram homens e mulheres, funcionários do clube, que se voluntariaram para continuar no país e em Kiev, a tratar destes jovens, que eram naturais de zonas exclusivamente perigosas.

«Começámos a tirar alguma informação do que era o dia a dia e a perceber que os dias geralmente eram mais calmos e as noites mais atribuladas, com mais explosões e mais ataques. Ao fim de dez dias, decidimos então que se ia tirar aqueles 27 miúdos de Kiev e tiraram-se logo de madrugada: assim que o sol começou a surgir, os miúdos fizeram-se à estrada, de autocarro, em direção à fronteira com a Hungria», revela Edgar Cardoso.

«Foi um trajeto que demorou praticamente 24 horas, com escolta policial e correu tudo bem, esta primeira escolta correu às mil maravilhas e ao fim de um dia chegaram à fronteira com a Hungria. Depois antes da fronteira mudaram-se para um comboio e passaram a fronteira de comboio, foi lá que tudo o que era passaportes e documentos foi visto e revisto. Foram acompanhados na passagem da fronteira por duas psicólogas, porque as senhoras podem passar a fronteira.»

Jovens do Shakhtar já em Split a assistir ao último jogo do Hadjuk

Refira-se que este transporte do primeiro grupo de jovens até à Hungria aconteceu já há cerca de uma semana: no início da semana passada.

«Depois de chegarem à Hungria viajaram para Zagreb e nesta altura já estão na Academia do Hadjuk Split, que abriu as portas ao Shakhtar para que os miúdos possam dormir, comer e treinar.»

A ideia inicial do Shakhtar passava apenas por retirar este grupo, que tinha especificidades complicadas: os jovens estavam em Kiev sozinhos, sem nenhum apoio familiar.

Perante o sucesso do resgate, porém, os responsáveis da formação do Shakhtar decidiram alargar o projeto a mais jovens jogadores do clube.

«Começámos a pensar: e porque não tentar retirar todos os miúdos menores de 18 anos. Mesmo eles estando com as famílias, vamos perguntar às famílias se preferem que eles fiquem numa zona de conflito ou se preferem que o clube os tire do país enquanto esta situação durar», refere.

«A adesão por parte das famílias foi muito grande e há três dias fizemos mais um transporte de quarenta jogadores. Quem vive no lado leste da Ucrânia, tinha o ponto de encontro na Academia em Kiev. Decidimos uma data e demos aos jogadores 48 horas para virem até à Academia. Para quem vive a oeste de Kiev, demos dois pontos estratégicos para os miúdos se juntarem à comitiva que seguia com escolta em direção à fronteira. Houve mais staff administrativo feminino a passar a fronteira da mesma forma, em comboio em direção à Hungria, de onde seguiram de avião para Zagreb. Dormiram uma noite em Zagreb e já se juntaram ao primeiro grupo em Split.»

Nesta altura, portanto, o Shakhtar já conseguiu colocar sessenta e sete miúdos do clube na Croácia, a viver na academia do Hadjuk Split e em completa segurança.

Mas a missão do clube ainda não acabou: há um terceiro resgate que está a ser preparado para jovens que ainda estão na Ucrânia e há, depois disso, a preocupação em concentrar toda a gente.

«Ainda vamos fazer um terceiro e último transporte para quem não conseguiu chegar à Academia em 48 horas. Para além disso, há vários jogadores que saíram da Ucrânia por meios próprios, com a mãe ou os avós, e temos miúdos espalhados por meia Europa. Temos jogadores na Polónia, na Hungria, na Rep. Checa, na Suécia, em Itália...», sublinha.

«Estou em contacto diário com eles. Tenho alguns jogadores que já estão a treinar em alguns clubes, no Slavia de Praga e na Atalanta, por exemplo, mas a nossa ideia passa por ter o máximo destes miúdos juntos na Croácia. Contamos ter noventa jogadores no Hadjuk Split.»

Jovens do Shakhtar já em Split a assistir ao último jogo do Hadjuk

Edgar Cardoso, na sua qualidade de coordenador da formação, tem sido a pessoa que à distância comunica com os jogadores: não apenas os que estavam na Ucrânia, mas também os que viajaram com familiares para fora do país. Tem sido ele a centralizar as informações dos vários atletas.

«Os miúdos não são obrigados a viajar para a Croácia, claro, eles são livres de escolherem onde querem ficar, mas a maioria quer viajar para junto dos colegas», frisa.

«A nossa prioridade sempre foi humanitária: retirar os miúdos da Ucrânia e colocá-los num local seguro. Assim que os três grupos estiverem juntos, mais alguns dos miúdos espalhados pela Europa, bem como as famílias, eu viajo para a Croácia para, em parceria com os treinadores do Hadjuk Split, criar alguma harmonia de trabalho.»

O futebol passou a ser o menos importante nesta fase, mas é fundamental transmitir alguma normalidade a estes jovens que viram a vida virar-se do avesso e tiveram que fugir de uma guerra. Daí que haja a preocupação de rapidamente por toda a gente a treinar dentro do modelo do clube.

«O Hadjuk vai dar-nos campos para treinarem só os jogadores do Shakhtar. Os treinadores do Hadjuk vão estar disponíveis para nós e esse é o projeto para os próximos dias: criar uma uniformização de trabalho para estes miúdos dentro do que eles estão habituados.»

Refira-se que tudo isto representa um forte investimento do Shakhtar. É preciso pagar ao Hadjuk Split pela comida, pela dormida, pelos campos de treino e pela disponibilidade dos treinadores. Mas o clube já demonstrou que nesta altura não olha para o dinheiro.

Por isso já transformou, por exemplo, a Arena de Lviv num centro de acolhimento para três mil pessoas, que procuram aproxima-se da fronteira com a Polónia para fugir à guerra.

O mais importante é que as pessoas estejam em segurança. Edgar Cardoso diz que, em relação aos jovens, tem falado com eles todos os dias e sente que estão a aprender a viver novamente.

«Quando falo com eles sinto que estão felizes por estarem num local seguro e por poderem sair à rua. Nas redes sociais publicam muitas fotografias, o que é normal porque isto é tudo novo. Mas é claro que depois há aqueles momentos em que ficam mais sozinhos, pensam na Ucrânia e nos familiares que deixaram no país. Eles estão apreensivos.»

Vai ser preciso tempo para eles voltarem a sonhar.

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