Mais "sexting", mais masturbação e mais dificuldades em atingir o orgasmo. Como a covid-19 mudou a sexualidade e os relacionamentos

30 set, 23:00
Namorar (Pexels)

Muito já se escreveu sobre a forma como a pandemia mudou as nossas vidas e deixou marcas na nossa saúde física e mental, mas que efeitos concretos teve a covid-19 sobre a nossa sexualidade? Foi esta a pergunta a que um painel de oradores, constituído pelo psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz e pelas psicólogas Gabriela Moita e Patrícia Pascoal, procurou responder no congresso da Ordem dos Psicólogos, que decorreu em Aveiro

Com os confinamentos impostos durante a pandemia, a separação física e o isolamento originaram mais relações à distância, profundamente marcadas pela presença da tecnologia. O "sexting", designação que deriva da junção das palavras "sex" (sexo) e "texting" (envio de SMS), é uma das expressões mais evidentes das adaptações que a covid-19 trouxe à sexualidade, como explicou a psicóloga Patrícia Pascoal, no congresso da Ordem dos Piscólogos, que decorreu em Aveiro. A este propósito, a especialista afirmou que quem estava mais sozinho acabou por explorar outras formas de se relacionar sexualmente com os outros.

“As pessoas que estavam sozinhas e que tinham aplicações começaram a usar muito mais o ‘sexting’. Acabaram a explorar uma sexualidade muito escrita, muito textual e também através do envio de fotografias", notou a psicóloga.

Na mesma linha, o psiquiatra e sexólogo Júlio Machado, outro dos oradores do painel, salientou o papel da tecnologia nos relacionamentos durante a pandemia. E foi mais longe: o médico referiu até uma certa "dependência tecnológica" que ainda não desapareceu. “Na pandemia, assistimos a um aumento de casos de dependência tecnológica. As pessoas saíram da pandemia, mas não saíram da dependência da mesma forma”, sublinhou.

Ferramentas tecnológicas que também promoveram os relacionamentos extraconjugais: "Houve quem se tenha entretido a criar perfis falsos e a namoriscar. Isso já existia, mas se calhar no confinamento as coisas eram mais propícias a isso”, vincou Júlio Machado Vaz.

Por outro lado, mais sozinhas, "as pessoas aprendem a adaptar-se às circunstâncias" e isso levou a um aumento da masturbação, notou Patrícia Pascoal. Mas a especialista deu outra nota importante: estudos apontam também para um aumento das "dificuldades no orgasmo".

“As pessoas queriam saber se podiam ter relações sexuais de máscara”

Nesta conversa moderada pela psicóloga Gabriela Moita, foi também abordado o modo como as regras de higiene, fundamentais no combate ao vírus, acabaram por afetar a sexualidade. Júlio Machado Vaz revelou que houve quem tivesse determinado "condições que não fazem sentido nenhum” e Patrícia Pascoal lembrou que “as pessoas tinham dúvidas concretas - por exemplo, se podiam ter relações sexuais de máscara”.

Patrícia Pascoal destacou ainda que o “discurso higienista e conservador” que emergiu com a covid-19 trouxe novamente "uma linha de pensamento de que há uma forma certa para ter uma boa sexualidade”. "Já tínhamos visto este discurso aparecer com o VIH. Na altura, havia muitas conversas sobre se se podia ter ou não relações sexuais”, completou.

Para a psicóloga, a pandemia “foi uma oportunidade ótima para demonstrar que a sexualidade é contextual e vive da interação de múltiplos contextos”: “Há fatores que mudam muito a forma como a sexualidade é vivida”. E um desses fatores é desde logo "o contexto socioeconómico". "A desigualdade traduz-se em mais tensão, mais conflitos, mais perturbação e dificuldades sexuais", frisou.

No caso de ambientes de violência doméstica, por exemplo, a especialista referiu que “podemos estar a falar de jovens a tentar fazer processos de autonomia e que se veem confinados num meio hostil, com mais dificuldade de acesso a cuidados de saúde mental”. Júlio Machado Vaz secundou esta ideia, afirmando que os confinamentos acabaram por promover a "violência doméstica e sexual" e a "maior dificuldade nos pedidos de ajuda".

As desigualdades no acesso à saúde foram "uma das questões que a pandemia veio acentuar", vincou Patrícia Pascoal, com "as pessoas a deixarem de ter acesso às consultas e a vigilâncias das gravidezes". E também aqui, houve quem tenha sentido isso ainda mais na pele. A psicóloga foi perentória: "As mulheres transexuais foram as mais afetadas".

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