A psicóloga Nicole McNichols defende que a novidade sexual não precisa de ser extrema para melhorar a vida íntima dos casais. Pequenas mudanças regulares — a chamada "micro-novidade" — podem aumentar a satisfação, enquanto fatores como educação sexual deficiente, influência da pornografia e dificuldades de comunicação continuam a afetar jovens e adultos nas relações
No que diz respeito a aprender sobre sexo, considero que a maioria das pessoas foi criada em um de três ambientes familiares: positivo em relação ao sexo, negativo em relação ao sexo ou evitante em relação ao sexo.
No primeiro ambiente, a sexualidade é tratada como uma parte saudável e especial da vida. Os pais incentivam a curiosidade sexual dos filhos e fornecem respostas cientificamente corretas às suas perguntas. Dão o exemplo de intimidade saudável fora do quarto e respeitam a privacidade.
Num ambiente negativo em relação ao sexo, a sexualidade é frequentemente tratada como algo proibido e inapropriado, a curiosidade é desencorajada e prevalece um clima de vergonha e secretismo sexual.
A maioria dos meus clientes, no entanto, cresceu em ambientes que evitam falar em relação ao sexo, onde o tema não era discutido. Muitas vezes era evitado e tornava-se desconfortável quando surgia. Pessoas que crescem neste vazio de informação muitas vezes não sabem como abordar o tema do sexo com os seus parceiros quando chegam à idade adulta.
Mas para Nicole McNichols, também conhecida como a “professora do sexo”, o tema surge constantemente. A reconhecida psicóloga leciona a mais de 4.000 estudantes universitários por ano na Universidade de Washington, na sua muito popular disciplina de psicologia, “The Diversity of Human Sexuality.”
Esta conversa foi ligeiramente editada e condensada para maior clareza.
McNichols fornece alguma educação sexual muito necessária no seu novo livro, “You Could Be Having Better Sex: The Definitive Guide to a Happier, Healthier, and Hotter Sex Life.” Sentei-me com ela para ajudar a preencher o vazio de informação.
CNN: Dá aulas sobre sexualidade a estudantes universitários. Quais são alguns dos desafios que enfrentam?
Nicole McNichols: Muitos jovens adultos hoje em dia não recebem praticamente nenhuma educação sexual formal. Ao mesmo tempo, a pornografia está em todo o lado. Para os jovens, cria uma ideia muito performativa do sexo: mostra imagens completamente irrealistas dos genitais e da resposta sexual, reforçando estereótipos de género disfuncionais onde o sexo agressivo é a norma.
Já tive alunos que me disseram: “Sabe, sinto que, por ter visto tanta pornografia quando era mais novo, isso estragou o sexo para mim.” Eles levam para as suas experiências muita insegurança, muita vergonha e ideias tóxicas sobre como o sexo deve ser.
Como educadora, isso coloca-me numa posição algo difícil, porque, por um lado, vejo o meu papel como o de defender que cada pessoa se envolva em experiências sexuais consensuais que a façam sentir realizada. Mas, ao mesmo tempo, basear experiências sexuais no que vemos na pornografia cria uma vivência muito desligada do corpo, que não é prazerosa nem saudável.
O segundo desafio é a própria cultura de encontros e relações. Existe uma “cultura de indiferença” — os jovens adultos receiam que querer que um encontro casual evolua para uma relação mais significativa e profunda os faça parecer carentes. As redes sociais e as aplicações de encontros ajudaram a criar estas “situações indefinidas”, onde as pessoas têm medo de ser vulneráveis e honestas.
Isto está a gerar muita insegurança e solidão. Não significa que encontros casuais não possam ser divertidos e prazerosos, se for isso que realmente se quer nessa fase da vida. Mas se não for o seu caso, e se quiser algo mais, isso também é saudável e perfeitamente aceitável.
Descreve a chave para um melhor sexo como uma pirâmide ou hierarquia de necessidades sexuais. O que significa isso?
Baseia-se na ideia de que, se queremos ter melhor sexo, a resposta não é entrar primeiro numa loja erótica e comprar um conjunto completo de dominatrix, certo? Primeiro, é preciso fazer o que está na base da pirâmide, que envolve compreender como o nosso corpo funciona e como experienciamos o prazer.
Antes de chegar ao ponto de ter relações com um parceiro, é preciso reconhecer que podem existir muitos fatores ao nível individual que interferem com o ciclo do prazer, como a imagem corporal, o stress, o cansaço, doenças, ansiedade e depressão.
Depois passamos à camada intermédia: como comunicar com um parceiro, seja num encontro casual ou numa relação de longa duração? Como identificar pequenos ressentimentos na relação que talvez nem reconhecemos devido a fatores socioeconómicos ou culturais?
Na terceira e última camada, chegamos ao desenvolvimento de curiosidade sexual e a uma mentalidade de crescimento sexual, ou seja, estar aberto a compreender as dinâmicas psicológicas subjacentes a coisas como fetiches e fantasias, mesmo que se opte por não participar nelas.
O que é o ciclo de prazer em três partes?
Muitas pessoas pensam, erradamente, que o prazer é apenas um evento neurológico único. Mas o prazer é uma sequência de diferentes eventos neurológicos, um ciclo dividido em três partes: desejo, gosto e aprendizagem. E existem diferentes fatores que podem interferir nesse ciclo.
O desejo envolve anseio, vontade, procura de recompensa. Se analisarmos o que interfere com esse desejo — seja imagem corporal, stress ou ansiedade — podemos desobstruir esse caminho. Depois passamos ao gosto e ao que impede essa fase, como a comparação e a desconexão mental durante o sexo, e como a atenção plena pode ajudar a manter o foco no momento.
A fase de aprendizagem implica refletir sobre o que foi prazeroso durante o sexo. O que queremos experimentar da próxima vez? O que queremos repetir? A beleza disso é que ajuda a aprender mais, mas também alimenta o desejo. Porque pensar e saborear a experiência também reforça o desejo. Esse é o ciclo do prazer.
Também escreve sobre a ideia de um "manifesto do consentimento". Pode explicar?
O manifesto do consentimento aborda a cultura de indiferença e o facto de as conversas nacionais sobre sexo precisarem de evoluir para além do consentimento apenas como proteção de limites físicos, passando a incluir a compreensão de que o sexo é também uma experiência social, emocional e relacional.
Se queremos experiências sexuais saudáveis, precisamos de estar conscientemente atentos ao que é aceitável — não apenas no início, mas ao longo de toda a experiência — e aprender o nosso estilo de comunicação sexual para dar e interpretar sinais. Mas, para além disso, precisamos de honestidade emocional. Precisamos de normalizar que é legítimo querer clareza sobre a natureza da relação antes de avançar.
Se estivermos a ser desonestos e a induzir alguém em erro sobre o significado ou contexto de um encontro, não existe consentimento informado. Mesmo que haja participação voluntária e entusiástica durante o ato, se no dia seguinte se descobre que a outra pessoa ocultou uma infeção sexualmente transmissível ou que era casada, por exemplo, não houve consentimento informado.
Fala-se muito sobre a importância da novidade para manter o sexo interessante. Em que é que a "micro-novidade" é diferente?
O conceito de micro-novidade baseia-se em investigação que analisou casais em relações de longa duração e o que fazem durante o sexo. A novidade foi um dos principais fatores identificados. Para muitos casais, a novidade pode parecer avassaladora. Mas a investigação mostrou que o efeito da novidade estabiliza cerca de 12 vezes por ano, ou seja, aproximadamente uma vez por mês. Portanto, não é necessário introduzir novidade sempre que se tem relações.
Casais que introduzem uma novidade uma vez por mês ou mais desfrutam de maior satisfação sexual. E não precisa de ser algo grandioso. Pode ser experimentar uma posição diferente. Pode ser usar um brinquedo sexual favorito e explorar isso. Pode ser ter relações a uma hora diferente do dia, num local diferente. Pode ser usar uma venda.
Sim, a novidade pode ser algo grande e elaborado, se houver interesse e motivação para isso, mas não tem de ser. Penso que é muito mais motivador perceber que a micro-novidade é algo alcançável — e que não é preciso tornar-se uma pessoa completamente diferente para o conseguir.
*Ian Kerner é terapeuta licenciado de casais e família, escritor e colaborador da CNN em temas de relações. O seu livro mais recente é um guia para casais, “So Tell Me About the Last Time You Had Sex”
