As autoridades percorrem a zona em carrinhas com anúncios por altifalante a dizer aos vendedores não autorizados para desocuparem as ruas, mas reconhecem que a popularidade da caça ao tesouro de domingo é demasiado elevada para permitir mais do que um controlo momentâneo
Todos os fins de semana, centenas de milhares de pessoas de todas as idades partem em caçadas ao tesouro no coração de Seul. Tanto moradores locais como turistas, muitos procuram pechinchas em roupas, relógios, joias, matrículas, alimentos excedentes, maços de cigarros com décadas e vários "artigos vendidos apenas na televisão" que se veem nos anúncios publicitários da madrugada.
Há muito terreno para percorrer. Esta extensa e informal feira de velharias ao ar livre ocupa mais de 5,6 quilómetros de ruas — cerca de 30 quarteirões, além de várias ruas secundárias e becos — na capital sul-coreana quase todos os fins de semana, durante todo o ano, independentemente do tempo. Mas o dia mais movimentado para os caçadores de pechinchas é o domingo, quando a maioria dos vendedores sai às ruas.
As mercadorias transbordam das lojas para os passeios e ilhas de trânsito, onde os vendedores despejam pilhas de roupa, utensílios de cozinha, gadgets e até produtos de beleza e perfumes, novos e usados, para os caçadores de tesouros vasculharem.
Os frequentadores habituais criaram grupos de chat para partilhar as suas descobertas com outros, enquanto os designers de moda vêm buscar inspiração junto dos clientes.
As autoridades percorrem a zona em carrinhas com anúncios por altifalante a dizer aos vendedores não autorizados para desocuparem as ruas — eles devem ter licenças —, mas reconhecem que a popularidade da caça ao tesouro de domingo é demasiado elevada para permitir mais do que um controlo momentâneo.
As origens do mercado situam-se no bairro de Sinseol-dong, onde se encontra o Mercado Popular de Seul — um espaço com 5 040 metros quadrados que alberga 868 lojas. Antiga escola, foi transformado em mercado pela autarquia em 2008, quando os vendedores foram transferidos de outra zona de Seul no âmbito de um projeto de reabilitação.
O Mercado Popular de Seul começou rapidamente a oferecer vendas ao ar livre aos domingos. Ao verem as multidões que estes eventos atraíam, os vendedores das ruas vizinhas abriram as suas próprias lojas improvisadas nas calçadas, acabando por se espalhar pelos bairros adjacentes para formar o enorme mercado de rua que os visitantes conhecem hoje.
Embora este destino de compras em particular tenha menos de duas décadas, a cultura de vendas de rua de Seul remonta à década de 1960. Após a Guerra da Coreia, muitos tiveram dificuldades em ganhar dinheiro e começaram a vender os seus pertences para sobreviver. Alguns começaram a montar bancas para vender artigos usados, com os vendedores a deslocarem-se por diferentes partes da capital sul-coreana à medida que as áreas foram sendo reabilitadas ao longo das décadas.
Um mercado para tudo
Changhoon Han gere uma loja de artigos em segunda mão nos limites do mercado de rua em Sinseol-dong.
Numa recente manhã de domingo, colocou alguns artigos em destaque na rua, tendo o cuidado de não os deixar invadir a própria estrada e chamar a atenção das autoridades.
Há uma mistura eclética de artigos em exposição: relógios, obras de arte, esculturas, um letreiro de táxi — e cigarros?
Han diz que as caixas de cigarros com várias décadas não são para fumar, mas para colecionar. Era uma verdadeira moda entre os adultos mais velhos há alguns anos, diz ele, quando os maços de meados do século XX esgotavam quase assim que eram expostos.
Um cartaz pendurado na loja de Han explica bem a situação. "Compramos tudo", diz o cartaz.
Antigos colecionadores ávidos de todo o tipo venderam-lhe as suas coleções, diz Han. O interesse esmorece, os artigos são vendidos e novos colecionadores e tendências tomam o seu lugar.
"É um ciclo", diz Han.
A apenas cerca de 10 passos da loja que vende e compra tudo encontra-se uma rua lateral sem saída, movimentada por compradores que vasculham caixas cheias de coisas aleatórias, incluindo fios, relógios, verniz para unhas, uma chaleira elétrica e alguns frascos de pólen de abelha. Mas, principalmente, ferramentas e materiais.
Este lugar não tem nome, mas as pessoas conhecem-no pelo local, diz um funcionário da loja. A simpatia do vendedor é o que faz com que os clientes continuem a visitar a loja.
“Ele dizia: ‘mime-se com uma chávena de café com este dólar’, enquanto devolvia uma nota que o cliente tinha usado para pagar um produto de dois dólares”, diz o homem.
Outro visitante, Si Hwa Lee, vem ao mercado popular todos os domingos depois da missa há 10 anos.
"Nunca me canso de vir aqui", diz. "É viciante e emocionante ver que coisas inesperadas se podem encontrar todas as semanas."
Lee criou um grupo de chat com alguns amigos que fez no mercado, onde partilham os artigos surpreendentes que compraram e marcam encontros para refeições.
Ele diz que alguns clientes aproveitam as vendas de rua como forma de ganhar um dinheiro extra, comprando artigos para depois os revender online. Se procurar com atenção, vai encontrar artigos de grande valor vendidos a preços muito reduzidos — como equipamento de áudio no valor de 650 dólares à venda por 20 dólares, afirma.
E é possível encontrar coisas com histórias peculiares, como adereços de filmagens de filmes ou vídeos trazidos por celebridades que não sabiam onde mais se livrar deles.
Decisões, decisões
Enquanto a zona de Sinseol-dong, em Seul, parece ter um mínimo de controlo sobre as vendas de rua, se for para oeste em direção à zona de Dongmyo, as coisas ficam mais agitadas e até mesmo avassaladoras. Este bairro, onde duas linhas principais de metro se cruzam, é famoso pelo seu mercado de artigos em segunda mão. O ambiente geral é caótico e empoeirado, o que contribui para a energia frenética de caça ao tesouro que percorre as ruas.
Só escolher por qual rua virar aqui já pode ser um desafio, com esquinas e cruzamentos a transbordarem de pilhas de coisas para vasculhar à procura daquela pepita que tornará a caça ao tesouro um sucesso.
E a hesitação pode ser a sua ruína.
Um comprador, numa visita recente, passou 10 minutos a examinar um relógio de marca de luxo. "É verdadeiro ou falso?", pergunta o comprador ao vendedor.
"Não sei dizer, não tenho documentação", responde o vendedor, mas salienta que o seu preço de venda está muito, muito abaixo do que este relógio custaria no retalho.
"Volto mais tarde", diz o potencial comprador. E quando volta, 20 minutos depois, o vendedor de relógios está a colocar o relógio num saco de plástico, enquanto o novo comprador exibe um sorriso malicioso no rosto.
O discurso de venda
Para além da mistura excêntrica de artigos disponíveis, os vendedores não têm receio de usar os seus argumentos de venda.
Um vendedor ambulante diz que o que está a oferecer vai trazer prazer no quarto. Outro diz que tem o artigo perfeito para manter os músculos da barriga da perna tonificados.
Robert Kim vende pequenos pedaços de couro — e canta o sucesso dos Beatles "Love Me Do" para fazer com que os compradores parem e olhem.
Kim diz que canta há seis anos na sua loja, simplesmente porque gosta. A pandemia da Covid-19 levou-o a pensar: "Devo fazer o que quiser, porque só se vive uma vez."
As canções pop da década de 1970 compõem a maior parte da sua lista de reprodução, já que o seu objetivo é cantar músicas com as quais os compradores estejam familiarizados, e a maioria deles pertence a uma faixa etária mais velha, refere.
O criador de tendências vintage
Embora isso possa ser verdade para os artesãos de couro, a área de Dongmyo do mercado de rua atrai visitantes de todas as idades, muitos deles devido à sua vasta seleção de roupa vintage.
Um estudante universitário de 22 anos, que se limitou a dar o nome de Park, diz que veio a Dongmyo à procura de padrões de camuflagem, tendo optado por visitar a zona devido ao seu papel no desencadeamento da tendência vintage que está a varrer Seul e porque ficou convencido pelos vídeos do Instagram que mostravam alguns dos tesouros que os compradores tinham encontrado ali.
Por exemplo, a tendência da camuflagem provavelmente teve início com muitos moradores locais mais velhos que usavam roupa militar nas zonas de Dongmyo e Dongdaemun, afirma Park.
Na verdade, foi o estilo desses adultos mais velhos que chamou a atenção do famoso estilista búlgaro Kiko Kostadinov em 2018. Ele publicou stories e posts no Instagram, referindo-se àquela como a "melhor rua do mundo".
Alguns anos mais tarde, lançou as coleções de 2024 com a Prada e a Asics, que, segundo alguns observadores de moda, foram inspiradas nos estilos que viu nas ruas de Dongmyo.
Embora estas ruas possam ajudar a definir tendências, também vão contra elas, pelo menos num aspeto. Há tanto para ver — e tanto para perder por falta de atenção — que poucas pessoas têm os olhos fixos nos telemóveis enquanto caminham pela zona.
Regras não escritas da caçada
À medida que o crepúsculo desce num domingo recente, dois adolescentes passam minutos a vasculhar uma montanha de mostradores e braceletes de relógios com a lanterna do smartphone acesa, à procura de um relógio Louis Vuitton — um verdadeiro tesouro.
Duas jovens na casa dos 20 anos também estão agachadas, a vasculhar os milhares de relógios.
"Estes são para homens, estes são para mulheres, não vou explicar isto outra vez", explica o proprietário em voz alta, enquanto as mulheres se riem.
Às vezes, as coisas podem até ficar um pouco dramáticas.
Os compradores podem disputar artigos e os vendedores podem entrar em conflito com os clientes.
Tae-sung Ha já lidou com muitos clientes mal-educados. Quando um cliente atira um cigarro eletrónico descartável para o chão durante a visita da CNN, ele detém-no. "Ei, não se atiram os pertences dos outros. Não me faças zangar", diz ele enquanto o cliente se afasta a dar passos furiosos.
Mas as boas maneiras trazem bons negócios. Uma mulher consegue até regatear o preço de uma frigideira para ovos, apenas por pedir com educação.
Perto dali, um ciclista tatuado pára para perguntar a Ha o preço de um machado enorme, grande o suficiente para ser usado como arma numa guerra viking.
A mercadoria de Ha resume o espírito deste fenómeno dos domingos em Seul — um cigarro eletrónico descartável, uma frigideira e um machado de quase dois metros de altura. Seria difícil imaginar uma mistura mais aleatória de artigos que se possa encontrar numa única banca. Mas é isso que torna este fenómeno dos domingos em Seul único.
