Seul anuncia o fim "gradual" de apartamentos semisubterrâneos, como os do filme "Parasitas", após morte de uma família

11 ago, 21:41
A realidade supera a ficção: trabalhadores limpam uma "banjiha" que ficou inundada no distrito de Gwanak, em Seul, esta quinta-feira. (ANTHONY WALLACE/AFP)

As inundações desta semana vieram realçar as desigualdades socioeconómicas da capital sul-coreana e podem representar o fim das chamadas "banjiha". Mas alguns grupos exigem medidas mais imediatas

Seul foi esta semana atingida pelas chuvas mais fortes dos últimos 80 anos, provocando inundações em edifícios e estações subterrâneas. E em casas, também: a fação mais vulnerável da população, com baixos rendimentos e sem outras opções habitacionais, tende a ocupar as chamadas "banjiha", pequenos apartamentos semisubterrâneos de luminosidade limitada e com parcas condições de salubridade. O governo sul-coreano mostra-se agora determinado em "eliminar gradualmente" estas casas, após uma família ter morrido afogada na sequência de uma inundação na segunda-feira. 

As "banjihas" surgiram na década de 80, quando a especulação imobiliária e a escassez de apartamentos na atarefada capital levou a que antigos abrigos de emergência, concebidos em períodos de maior tensão entre as Coreias, fossem transformados em apartamentos. São ainda refúgios de emergência, mas para a camada populacional que não dispõe de outros meios de sobrevivência. A desigualdade socioeconómica de Seul foi retratada no filme "Parasitas", de Bong Joon-Ho, que deu a conhecer ao mundo as experiências paralelas da população sul-coreana: enquanto a família Park residia numa luxuosa moradia e considerava as chuvas torrenciais uma "bênção", uma noite de inundações ditou que a família Kim perdesse os bens de uma vida e ficasse desalojada. 

"[Pessoas como a família Kim] querem acreditar que vivem à superfície porque têm um momento em que a luz solar entra nas suas casas", disse o realizador, em conferência de imprensa na edição de 2019 do Festival de Cannes. "Mas, ao mesmo tempo, têm medo de cair numa situação completamente subterrânea se as coisas piorarem". 

Trabalhadores limpam uma "banjiha" que ficou inundada no distrito de Gwanak, em Seul, esta quinta-feira. (Anthony Wallace/AFP)

As cenas do filme ecoam a realidade desta semana. Uma família de três pessoas - uma adolescente de 13 anos, a mãe e a tia - foi a mais recente vítima mortal das condições precárias destes apartamentos. Viviam na "banjiha" há sete anos e, segundo o The New York Times, sabiam que a casa era suscetível a danos provocados por inundações - mas também sabiam que era a opção mais barata e a mais próxima de um centro de assistência social onde a tia, com Síndrome de Down, poderia ser acompanhada. No incidente de segunda-feira, a menina e as duas mulheres tentaram pedir ajuda aos vizinhos, mas as torrentes de água impediam que a porta de saída se movesse. A janela, sem vidros mas com grades de aço anti-roubo, também não permitia a passagem. Quando uma equipa de resgate acorreu ao local, na manhã de terça-feira, já era demasiado tarde. Foram recuperados apenas alguns objetos pertencentes à família, que ainda permanecem no exterior do edifício. Entre estes, um urso de peluche branco. 

Governo de Yoon Suk-Yeol promete mudanças

A revolta face às condições de vida degradantes nas "banjihas" atingiu proporções globais após o lançamento do filme "Parasitas", vencedor do Óscar de Melhor Filme no ano de 2020. Na altura, o governo da cidade de Seul comprometeu-se a apoiar financeiramente 1.500 agregados familiares a viver neste contexto. Após os incidentes desta semana, as autoridades reforçaram o compromisso e asseguraram que a capital vai deixar de conceder licenças para a construção deste tipo de habitações, sendo as já existentes convertidas em espaços não-residenciais. Mas será uma mudança gradual. De acordo com a proposta do governo, os senhorios terão entre 10 a 20 anos para implementar estas medidas.

O presidente da Coreia do Sul, Yoon Suk-Yeol, visitou o apartamento onde viviam as três vítimas e prometeu ajudar na recuperação dos danos causados pelo desastre natural. Mas, para alguns grupos cívicos e residentes das áreas mais afetadas de Seul, o governo não pode isentar-se das responsabilidades com promessas.

"Não tenho dinheiro, não tenho nada", lamenta Ha In-Sik em declarações à Reuters, que teve de recorrer a uma tigela de plástico para recolher a água que inundou a sua "banjiha". "Vim viver para esta cave porque era a única forma de viver com a minha filha, mas estou sem esperança agora. Tudo desapareceu, não há ajuda e nem sequer tenho uma colher com que comer". As palavras ecoam nos milhares de residentes das cerca de 200 mil habitações do mesmo género só na cidade de Seul. "Não pudemos salvar quase nada", diz uma idosa de 77 anos. "Não haveria forma de eu e a minha mulher sobrevivermos se tivessemos ficado presos lá dentro", explica outro residente, que não se encontrava em casa no momento da inundação e foi surpreendido ao regressar.

"É preciso o governo embarcar numa mudança estrutural da sua abordagem aos residentes das semi-caves", escreve em comunicado o grupo Coligações de Cidadãos para a Justiça Económica. Até lá, acredita, voltarão a acontecer desastres naturais como o desta semana - e serão os mais vulneráveis a sofrer as consequências. 

Foram deixadas flores entre as grades da janela, em homenagem às três vítimas das inundações de segunda-feira. (Anthony Wallace/AFP)

 

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