"Não recomendem aos vossos filhos, sobrinhos, netos e amigos que sejam médicos": é preciso ler o João LD ou a Vera ou a F.

9 jul, 09:00
Saúde, hospitais, covid-19, pandemia, cuidados intensivos,  Hospital de São João Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP via Getty Images

Sentindo-se desrespeitados pelo Governo, vários médicos do Serviço Nacional de Saúde optaram por expressar a sua opinião nas redes sociais - e recusam ficar com a culpa pelo que corre mal. Mais: apresentam soluções

"Amigos, colegas, conhecidos e desconhecidos, peço desde já desculpa pelo desabafo tão longo, mas a hostilidade que atualmente se vive no SNS não pode ficar sem resposta" - assim começa o desabafo que o médico João Lopes Dias publicou há dias na sua página de Facebook. "A crise que se vive atualmente no SNS não é conjuntural nem é passageira", diz em declarações à CNN Portugal. "Esta 'conjuntura' tem pelo menos uma década de agravamento vertiginoso. É que nem tem sido insidioso. Tem mesmo galopado, mas os sintomas têm-se esbatido à custa do grande paracetamol do SNS, mais conhecido por horas extraordinárias", escreve o médico radiologista, de 36 anos, que começou a trabalhar no SNS em 2009 e quatro anos depois iniciou a sua colaboração com instituições privadas de saúde. 

O texto que escreveu é tanto de crítica como de defesa do Serviço Nacional de Saúde: "Todos aqueles que estão a falar e a protestar é porque acreditam na importância do SNS e querem que melhore. São médicos que poderiam, na sua maioria, sair e fazer a sua carreira no privado mas defendem o SNS e lutam pela sua sobrevivência", explica à CNN Portugal João Lopes Dias, justificando assim a necessidade que sentiu de fazer ouvir a sua voz no espaço público. "O nosso desespero e a nossa indignação é porque temos muita pena do que está a acontecer com o SNS."

Foi por isso que decidiu publicar este desabafo nas redes sociais. E não é o único. Criada há apenas uma semana, a página de Instagram "Médicos pelo SNS 2022" tem apenas meia dúzia de publicações mas já angariou mais de 1200 seguidores. As publicações são sobretudo imagens com  slogans que falam da importância de haver um SNS competente, do caos que se vive atualmente na saúde e da precariedade do trabalho dos médicos, sempre com a hashtag "juntospelosns2022". Os responsáveis pela página preferem manter o anonimato, mas não é difícil encontrar médicos que partilhem das opiniões ali divulgadas.

 

"Parece-nos que a maioria das pessoas não percebe que, na verdade, os médicos são os que estão a dar o seu máximo, a trabalhar horas extraordinárias e nas piores condições, para prestar a melhor assistência possível aos doentes", desabafa F., médica psiquiatra, na casa dos 30 anos. "Aquilo que me preocupa, antes de mais, são precisamente as condições em que os doentes são tratados. Nenhum médico quer ter doentes internados em macas no serviço urgência durante vários dias ou doentes que esperam anos por uma cirurgia porque não é considerada urgente", denuncia. "As condições degradaram-se muito nos últimos anos. Nunca pensámos que a situação chegasse a este ponto."

C., outra médica, especialista em medicina interna, não tem dúvidas de que a situação do SNS atingiu um "ponto de não retorno": "Saíram muitos médicos, completamente desgastados, e já não vão voltar". Mas em vez de se criticar a saída dos médicos deveria tentar-se perceber porque é que tomaram essa decisão, diz. Este é o momento para os médicos se unirem e se mobilizarem: "Os médicos têm um enorme espírito de missão. Sempre estivemos disponíveis para fazer tudo, sobretudo por causa dos doentes mas também por respeito pelos colegas. Mas aquilo que me parece que está a acontecer nesta altura é que querem acabar com o SNS e culpar os médicos. E nós temos de mostrar que os médicos estão cá e querem continuar no SNS. Mas querem ter condições de trabalho e querem ter direitos a férias como todas as pessoas e querem ter vida. Os médicos não são escravos nem sacerdotes. A solução não pode ser pagar mais horas extraordinárias. A tutela diz-nos que temos de ter mais resiliência, mas não se trata de resiliência, trata-se de falta de condições mínimas de trabalho. As pessoas estão a sair do SNS porque estão a ser desrespeitadas".

A recente notícia de que o Governo vai premiar os administradores hospitalares em vez de premiar os médicos e outros profissionais de saúde foi apenas mais uma prova dessa falta de respeito, dizem.

Colunista da revista Visão, Vera Rodrigues Bernardino tem dedicados vários dos textos ao atual estado do SNS e partilha esta preocupação. "Os médicos são constantemente alvo de críticas e acusações, muito fruto de casos isolados, empolados e generalizados injustamente. Em alturas de crise no SNS chovem na comunicação social casos de negligência e má prática, alguns até decorridos há anos. Na opinião pública somos todos ricos, arrogantes e pertencemos a uma classe intocável, altamente privilegiada", escreveu numa das suas crónicas. "Não somos nós que estamos a destruir o SNS. Não queremos aumentos nas horas extraordinárias. Queremos salários condignos e condições de trabalho. É preciso falar com quem está no terreno, integrar os profissionais nos planos de reestruturação dos serviços, permitir modelos de gestão e responsabilidade integrada que sejam funcionais e autónomos. Só assim se conseguem manter profissionais motivados, experientes, atualizados cientificamente e capazes de exercer as suas funções o melhor que sabem. Queremos ser parte da solução."

"Não recomendo a ninguém que seja médico em Portugal"

"O principal problema é o desinvestimento que tem vindo a ser feito no SNS", diz à CNN Portugal o médico João Lopes Dias. "As remunerações são mais baixas e a progressão na carreira praticamente deixou de existir. Ainda assim, e durante muito tempo, aquilo que mantinha os médicos no SNS era a riqueza dos estados clínicos, o desafio dos diagnósticos, porque de facto era aqui que encontrávamos os casos mais complicados. Mas essa diferença é cada vez menor. A não ser em casos muito específicos, como trauma ou transplante, em que de facto o SNS continua a dar mais resposta, a verdade é que com a cada vez maior cobertura dos seguros há cada vez mais pessoas a recorrerem aos privados e os privados estão cada vez mais aptos a responder a todas as situações."

Junta-se a isto a falta de condições de trabalho - a constante falta de material e de investimento nos hospitais e nas tecnologias, as dificuldades constantes - seja com aparelhos essenciais para os diagnósticos e tratamentos ou com meros computadores necessários para passar uma receita.

"É isto tudo junto que leva os médicos a sair", explica João Lopes Dias. "As equipas estão cada vez mais desfalcadas. Aqueles que ficam têm de trabalhar mais, com um cansaço extremo e sem pagamento condizente." Os que resistem fazem-no, na sua maioria, por um sentido de missão, um "prazer de humanismo", de se saber que se está a ajudar as pessoas.

A solução para esta situação de crise profunda que hoje se vive na saúde tem de passar por uma reforma total na organização e por um maior investimento em todas as áreas mas João Lopes Dias propõe uma medida concreta, que poderia ajudar no imediato: a facilitação dos acordos com os médicos para que possam fazer parte do seu horário no SNS e parte no privado.

"Não há comparação possível entre as condições de remuneração entre o SNS e os privados em várias especialidades e será certamente impossível equilibrar a balança a médio prazo", escreveu no Facebook. "Não se percebe, então, sem ser à luz da cegueira ideológica, que não se permitam horários reduzidos proporcionalmente pagos e racionalmente aprovados a profissionais que também trabalhem em instituições privadas. Não colhe, neste contexto, a ideia do medo da sobreposição de horários e corrupção, uma vez que, sendo crimes, devem ser identificados e punidos. Ninguém quer profissionais corruptos, nomeadamente os próprios pares! Não se entende porque não se oferece exclusividade adequadamente paga a quem quiser dedicar-se apenas ao SNS. Não se compreende como se deixa instalar o caos e só então negociar serviços com o sistema privado. Requisições de meios complementares de diagnóstico em pilha, a acumular, meses a fio, até alguém decidir que é melhor pedir ajuda a uma instituição privada ('Mas que chatice agora ter de pagar a esses capitalistas!'). Os prejudicados, na ausência destes acordos, não são os privados: são os doentes!"

À CNN Portugal, João Lopes Dias explicita: "A discrepância de remuneração é muito grande. O SNS tem de assumir que não tem capacidade para competir com os ordenados do privado mas não se pode dar ao luxo de perder estes profissionais. Portanto, talvez seja melhor tê-los por 28 ou 30 horas e permitir-lhes que complementem o seu ordenado no privado do que perdê-los de vez. Além disso, o trabalho nessas 28 horas seria muito mais profícuo do que ter uma pessoa por 50 horas cansada e insatisfeita".

O que estes desabafos - que os médicos trocam em grupos privados no Facebook ou em posts públicos nas várias redes sociais - mostram é que muitos dos profissionais de saúde estão exaustos e desiludidos. "Não estou desiludida com a profissão, gosto muito de ser médica, mas estou triste com a situação a que chegámos", explica F.

"Hoje, é angustiante e desesperante trabalhar no SNS. Reina sobretudo desmotivação. Em alguns, também a revolta", escreve João Lopes Dias. "O sistema não está só doente, está a entrar em fase terminal. Podem mostrar todos os números que quiserem, todos os pensos rápidos que inventaram, todas as transfusões de última hora, mas quem lá trabalha sabe que a casa está a cair e que, mais dia menos dia, a resiliência soçobra. Hoje não recomendo a ninguém que seja médico em Portugal. Não há amor à medicina que compense este ambiente de hostilidade. Hoje não recomendem aos vossos filhos, sobrinhos, netos e amigos que sejam médicos. É uma ilusão neste país. Hoje não teria escolhido ser médico. Embora continue a gostar do que faço."

 

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