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Serviço Militar Obrigatório ou “Gaming Militar” Obrigatório? O plano para treinar uma nação sem sair de casa

14 jan, 07:30

A robotização da guerra leva-nos a um paradoxo brutal: se as guerras se fazem remotamente e se não houver soldados alvo nas linhas da frente, a guerra ganha-se pelos danos que se inflige aos civis e não aos militares

Jogos de Guerra – (WarGames, 1983) 

É um clássico do cinema que aborda dois temas tão atuais que merece ser revisto. David, um adolescente preguiçoso para tudo menos para o seu computador, procurando um jogo para se divertir, acaba a entrar num sistema real de simulação e comando das armas nucleares. A situação ao longo do filme transforma-se em caótica, e David tem de lidar com a Inteligência Artificial do sistema a fim de o desativar antes de se iniciar a terceira guerra mundial. David tem de ensinar o computador — ou a IA — a ganhar, sem perder. E para isso só mesmo convencendo a IA a ganhar, por não jogar!

O filme tem mais de 40 anos, mas nunca esteve tão atual. A guerra dos dias de hoje faz-se, em grande parte, atrás de um computador.

Força militar europeia 

O comissário europeu para a Defesa, Andrius Kubilius, quer criar uma força militar permanente de 100 mil soldados na Europa. O certo passou a incerto e a paz deixou de ser tão garantida como pensávamos. A Europa está à mercê dos caprichos da guerra e, inevitavelmente, terá que preparar o seu modelo de dissuasão sem menosprezar a necessidade de proteção.

Portugal aboliu o serviço militar obrigatório, mas a discussão sobre a sua reintrodução é ainda um tabu, ou está a ser discutida à porta fechada, ou ambas. Mais cedo ou mais tarde, individualmente ou em consonância, o tema virá para cima da mesa como tem vindo noutros países e vai, com certeza, dar celeuma.

Serviço militar obrigatório na Europa

  • Áustria: 6 a 9 meses 
  • Dinamarca: 4 a 12 meses 
  • Finlândia: 6 a 12 meses 
  • Grécia: 9 meses 
  • Lituânia: 9 meses 
  • Suécia: 9 a 12 meses 
  • Chipre: 14 meses 
  • Estónia: 8 a 11 meses 
  • Restantes países: serviço militar voluntário

Qual o objetivo do serviço militar?

Consultei o Decreto‑Lei n.º 174/99 e encontrei dois pontos que me parecem os mais fundamentais sobre o objectivo do serviço militar. O primeiro é a defesa da pátria como dever fundamental de todos os portugueses, o segundo, a valorização cívica, cultural, profissional e física dos cidadãos.

A defesa da Pátria é direito e dever fundamental de todos os portugueses. (...) Constitui ainda objectivo do serviço militar a valorização cívica, cultural, profissional e física dos cidadãos" Lei do Serviço Militar (excerto)

 

Visto assim, não se entende muito bem porque acabou o serviço militar obrigatório, a não ser por uma manifestação política que pretendeu enfatizar e promover a paz, dando estrondosos sinais de que o país não procura, não quer e não considera que a guerra possa voltar ao território. Bom no princípio mas mau no contexto atual.

Segundo a definição de serviço militar, parece mais bom do que mau para os cidadãos haver essa preparação militar, mas... existe um “mas”. Existe sempre um “mas”.

Não só as ferramentas de guerra mudaram drasticamente ao longo dos anos - e ainda mais nos últimos dois anos com os acontecimentos na Ucrânia - como as ferramentas disponíveis e até as necessidades dessa formação de militares mudaram bastante. O serviço militar pode ter que regressar e deve mesmo regressar, mas tal pode não significar que tenhamos todos que acorrer aos quartéis.

Tal como o Japão prepara a sua população para os grandes sismos, que são a sua principal ameaça, seria positivo que a população portuguesa estivesse também preparada para vários tipos de contratempos, incluindo guerra.

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A nova guerra

A guerra deixou de ser um confronto de músculos e passou a ser um confronto de algoritmos.

Nunca iremos substituir os tropas no terreno - "boots on the ground" - mas certo é que há uma transição clara entre soldados que se movem no campo de batalha para soldados que estão parados atrás de comandos e joysticks a fazer mover as peças brutas à distância.

Se algo a situação na Ucrânia nos mostrou foi que a guerra que pensávamos conhecer mudou drasticamente pela via da inteligência artificial, robotização e comando remoto. Portugal não escapa à tendência e está inclusive a transformar veículos militares tradicionais em veículos remotos. 

Quanto mais a tecnologia avançar, menos combatentes terão que se mover a fim de se proteger do - ou atacar o - inimigo, e há cada vez mais empresas militares, e não só, a abraçar esta nova realidade da guerra que troca humanos por ferro e que descentraliza as operações na linha da frente, porque pode deixar de haver linhas da frente. A guerra será cada vez mais bastidores.

A robotização da guerra leva-nos a um paradoxo brutal: se as guerras se fazem remotamente e se não houver soldados alvo nas linhas da frente, a guerra ganha-se pelos danos que se inflige aos civis e não aos militares.

Serviço militar obrigatório

O serviço militar obrigatório que conhecemos poderá ter ficado obsoleto em apenas três anos e pode já nem fazer sentido chamá-lo de serviço militar, mas de Serviço Cívico Obrigatório.

Nas novas guerras, em que os militares não existem ou não estão concentrados na defesa de linhas, os civis poderão ser os únicos alvos que permitem ganhar - ou perder - uma guerra. Este é o risco das guerras dos drones.

É preciso, e é fundamental, treinar os civis para se protegerem a si e aos seus, ao mesmo tempo que estão preparados para entender e reagir a esta nova forma de militarização. A tecnologia avançou tanto que neste momento há pilotos de caças não tripulados que estão sentados num cockpit a milhares de quilómetros do avião que controlam. O mesmo para tanques e tantos outros equipamentos militares. É brutal a evolução que está a acontecer ao ponto de, nalguns casos, já nem haver operadores mas a própria Inteligência Artificial a escolher e perseguir alvos.

Não toda, mas grande parte da guerra faz-se num simulador e pode fazer mais sentido idealizar um modelo de serviço militar obrigatório que nos coloque dentro desses simuladores do que enviar-nos para quartéis, de espingarda na mão, a rastejar na lama para obter o certificado de Serviço Militar efectuado. O exército e a protecção civil têm que adequar a formação à formação real que precisamos.

A indústria de gaming pode-nos preparar para a guerra

A indústria de gaming, conjuntamente com o Exército, deveria criar um simulador de serviço militar obrigatório que todos pudéssemos “jogar” remotamente e que, no final, nos preparasse massivamente para uma situação de conflito. Ao mesmo tempo que poderíamos estar a treinar civis para comandar drones ou outros equipamentos militares à distância, o mesmo sistema de "jogo obrigatório" também nos poderia ajudar a perceber como reagir, do ponto de vista civil, em caso de guerra ou até de outras catástrofes.

Da forma como a indústria de jogos está avançada, não seria complicado desenvolver um “jogo” que todos fôssemos obrigados a jogar um certo tempo por dia, mês ou ano, coordenado pelo Exército, que nos desse as capacidades básicas de sobrevivência, subsistência, articulação, comunicação, etc. Até mesmo de reação aos apagões, como o que aconteceu recentemente e gerou o caos.

É certo que não nos prepararia para dar tiros, mas ficaríamos decerto bem preparados para, um dia, fazermos o que tivesse que ser para nos protegermos a nós e aos nossos, no dia em que o Exército nos chamasse.

Na Ucrânia, neste momento, atravessam os céus diariamente milhares de drones de um lado e do outro, comandados por milhares de operadores. Poderíamos criar uma das maiores forças de combate remoto se tivéssemos um jogo que todos jogássemos da mesma forma, fazendo de todos uma equipa única. Um país inteiro de 10 milhões de habitantes descentralizados, ligado ao mesmo simulador, treinado para operar drones, responder a ataques digitais e coordenar ações civis em cenários de crise. Não haveria mais força do que esta!

Este artigo é sobre estratégia, mas é também sobre oportunidades e desenvolvimento económico de plataformas de articulação civil. Também há oportunidades de negócio por detrás deste artigo.

Quarenta anos depois, o filme "WarGames" deixou de ser ficção científica e tornou-se manual de instruções.

 

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