Como o "Escobar brasileiro" envolveu Portugal na sua rede de tráfico: ascensão, queda, detenção

21 jun, 20:33

Várias identidades, várias nacionalidades, muitos esquemas, uma morte falsificada, uma fuga para a Ucrânia. Foi detido esta terça-feira, a PJ ajudou a apanhá-lo. E um ex-inspetor ajuda a CNN Portugal a perceber todo este processo

Paul Wouter (nascido no Suriname), Igor Kuzmenko Vanovich (nascido na Rússia) ou Sérgio Roberto de Carvalho (nascido no Brasil). São pelo menos três os nomes conhecidos do homem que já foi apelidado “Escobar brasileiro” e que esta terça-feira foi detido na Hungria, numa operação que contou com a participação da Polícia Judiciária portuguesa.

É um antigo major da Polícia Federal brasileira e tem negócios conhecidos em várias partes do mundo: Brasil, Espanha, Turquia, Ucrânia ou até Portugal foram apenas alguns pontos de passagem de um homem que chegou a ser dado como morto para depois aproveitar a pandemia de covid-19 para continuar a lucrar com o narcotráfico.

Foi através de Portugal que este barão da droga, também conhecido por major Carvalho, continuou a operação que tinha montado na Europa. Estabeleceu-se em Cascais por volta de 2018, mais precisamente em Tires, onde fazia uma vida discreta ao mesmo tempo que prosseguia uma complexa rede de tráfico que lhe rendia milhões de euros todos os anos.

Será por isso, explica à CNN Portugal António André Inácio, antigo inspetor da Polícia Judiciária, que as autoridades portuguesas se envolveram na captura efetuada: "Portugal poderia ter informação relevante sobre o local onde ele pudesse estar. Podia ter alguma escuta, por exemplo".

Na prática, do lado português têm de existir "provas consistentes, elementos de prova objetivos", para que depois se possa ajudar na detenção e na justificação dos motivos que levam à extradição: "Isso pode prender-se com a atividade desenvolvida em Portugal, com os contactos desenvolvidos, com eventuais detenções que tenham ocorrido de indivíduos relacionados com ele", sublinha António André Inácio.

O antigo inspetor refere que teria de haver sempre coordenação da Interpol, até porque a operação envolveu um país fora da Europa, o Brasil: "Estas operações exigem conjugação. São sempre tratadas através da Interpol, que tem equipas próprias que acompanham as polícias locais no planeamento e operacionalização nestes casos mais complicados".

Na prática, uma operação deste género com o envolvimento da Polícia Judiciária portuguesa teria de ter um dos cenários: uma parte da operação em Portugal, a possível alocação de bens de proveniência ilícita ou ter documentos falsos portugueses. Depois, afirma António André Inácio, é crucial agilizar a extradição: "É determinante que se tenha o máximo de informação possível, até para se agilizar o momento da extradição".

"Há sempre a expectativa de que, enquanto se está fora, se consegue escapar à alçada da Justiça", refere o especialista, que aponta o caso de João Rendeiro, português condenado que também fugiu para outro país.

O major Carvalho captou as atenções das autoridades portuguesas em grande parte por causa do avião que foi detetado com 578 quilos de cocaína a bordo, quando se preparava para fazer uma ligação entre o Brasil e Tires. Era o avião onde devia ter seguido o ex-presidente do Boavista João Loureiro.

O momento da apreensão de droga no avião em que devia seguir João Loureiro (Polícia Federal)

Além de ser dono da empresa Airjetsul, que operava a partir de Tires, o traficante também estava envolvido na tentativa de compra da OMNI, empresa de aviação portuguesa que também faz ligações privadas de e para o Brasil.

Durante cerca de dois anos, escondido de toda a gente, Sérgio Roberto de Carvalho viveu escondido em Lisboa. Uma apreensão no valor de 12 milhões de euros, encontrados numa carrinha, espoletaram a fuga -  ocorrida dois dias antes de uma operação da polícia portuguesa. Tratou-se de uma complexa operação, ocorrida em novembro, que envolveu buscas das autoridades brasileiras em Portugal, Espanha mas também na Colômbia e nos Emirados Árabes Unidos.

Além do dinheiro encontradas nas malas de uma carrinha, a polícia também apreendeu uma mansão em Espanha que estava avaliada em dois milhões de euros, além de 37 aeronaves.

Morreu, ressuscitou

Antes de vir para Portugal, o major Carvalho, então suposto Paul Wouter, vivia da mesma forma discreta, então em Marbella, em Espanha. Era ali que operava a rede de tráfico, exatamente da mesma forma como viria a fazer em Portugal.

O "El País" conta que o traficante vivia como um rei a partir do sul do país, onde tinha uma luxuosa mansão, deslocando-se por todo o lado sempre num jato privado.

Em 2018 o seu nome apareceu numa operação que resultou na apreensão de 1.700 quilos de cocaína. Acreditavam as autoridades que Paul Wouter era o financiador, tendo como sócios poderosos traficantes da Galiza.

A vida em Marbella, julgava a polícia espanhola, fazia-se através de vários negócios de importação de mariscos a partir de Marrocos e do Dubai. Isso mesmo consta de um dos autos da Polícia Federal brasileira, que ligou o major Carvalho a uma empresa de exportações registada no Dubai.

Vinte pessoas foram detidas, acabando condenadas a um total de 210 anos de prisão, além de multas no valor de 4,3 mil milhões de euros. O grande ausente: o major Carvalho. É que o tribunal de Pontevedra aceitou uma declaração de óbito que recebeu quando o brasileiro estava em liberdade a aguardar julgamento, depois de ter pago 200 mil euros de fiança. Sobre ele recaía uma acusação que pedia 14 anos de prisão e 340 milhões de euros de multa. No despacho de acusação contra o major Carvalho surgiam atividades ilegais em Espanha, mas também na Bélgica, Alemanha, nos Países Baixos e até já em Portugal. A cidade belga de Antuérpia, por exemplo, era um dos pontos principais de entrada de droga, a maioria vinda de Paranaguá.

Morto, Paul Wouter não podia ser julgado. A declaração de óbito aceite pelo juiz dava conta de que o homem tinha morrido por enfarte, tendo sido cremado no dia seguinte, algo que foi certificado por um médico de uma clínica de estética em Marbella, que Paul Wouter frequentava com assiduidade.

Só quando Espanha e Brasil trocaram documentação é que se soube de tudo: Paul Wouter, nascido no Suriname a 16 de dezembro de 1965, era afinal o major Carvalho, nascido a 18 de abril de 1958, sendo procurado pelas autoridades brasileiras desde 2009, já então por ligações a crimes de narcotráfico.

Era demasiado tarde: quando as autoridades espanholas descobriram o esquema, em maio de 2020, já o traficante estava em Portugal há cerca de dois anos, preparando-se para poucos meses depois voltar a fugir, desta vez para a Ucrânia.

Ucrânia e Istambul, antes da Hungria

Apertado pelas autoridades portuguesas, o major Carvalho fretou um jato privado em Tires, acabando na Ucrânia, onde entrou como Igor Kuzmenko Vanovich, um cidadão russo nascido a 20 de fevereiro de 1968.

Foi a partir dali que estabeleceu nova rede, dessa vez por países do leste europeu, incluindo a Turquia, mas também a Hungria. As autoridades turcas confirmaram, de resto, que o homem mantinha negócios no país.

Ao todo, as autoridades acreditam que, apenas no período entre 2017 e 2019, o major Carvalho terá sido o responsável pela movimentação de 45 toneladas de cocaína para a Europa, o que lhe terá rendido cerca de 410 milhões de euros.

No Brasil tem duas condenações pendentes, entre as quais uma proferida em 2008, quando foi condenado a 15 anos de prisão por tráfico de droga, e uma outra em 2019, depois de ter sido condenado a 15 anos e três meses de prisão por empresas de fachada que serviam para lavar dinheiro obtido do tráfico.

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