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"É difícil treinar outro clube em Portugal que não o FC Porto" mas "não posso dizer nunca": entrevista a Sérgio Conceição

8 jun, 21:20
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Dois anos depois de anunciada a saída do FC Porto, Sérgio Conceição dá uma entrevista exclusiva à TVI/CNN Portugal

Sérgio Conceição, bem-vindo. Hoje passam precisamente dois anos desde que foi anunciada a sua saída como treinador do FC Porto. O que é que o leva a quebrar o silêncio agora?

Vários motivos, ou seja, a minha saída do FC Porto não foi uma saída fácil, a todos os níveis: uma ligação de sete anos como treinador, o fim de um ciclo de alguém que me marcou muitíssimo na minha carreira desportiva, que foi o ex-presidente Jorge Nuno Pinto da Costa, e acho que é esta a altura que tinha de ser. 

Sérgio, então vamos já olhar precisamente para o momento presente. Acaba de sair do Al-Ittihad, que era o clube que era campeão, que supostamente tinha muito boas condições. Acabou por não correr tão bem esta experiência na Arábia, o que é que aconteceu? 

Eu cheguei depois de um ano positivo do clube, e aquilo que me foi transmitido em termos de resultados… ganharam o campeonato, ganharam a King Cup, mas sabia-se de alguns problemas, principalmente na estrutura, e isso foi visível com a saída do Laurent Blanc, logo no início, enfraqueceu, de certa forma, a nossa competitividade, porque saíram jogadores muito importantes, nomeadamente o Benzema ou o Kanté… 

Desinvestimento? 

Eu penso que sim, e veio-se a verificar mais tarde com a saída do nosso diretor desportivo, muitos problemas estruturais, entrámos ali numa dinâmica não muito boa.

Mas sai do Al-Ittihad zangado, frustrado ou desiludido? 

Não, eu saio do Al-Ittihad com uma experiência diferente, muito diferente, estamos a falar...

Explique-me um bocadinho melhor o que é essa diferença, porque a imagem que a Arábia Saudita procura neste momento mostrar ao mundo é de um futebol de luxo, em que se contratam os melhores, não é por acaso que está ao lado de Cristiano Ronaldo, que pagam aquilo que nenhum clube europeu consegue pagar, e que corre tudo às mil maravilhas. Mas os relatos recentes que têm vindo é de um país incumpridor, pouco trabalhador, que se serve da religião para dar pretextos para os jogadores não estarem prontos para os jogos. Sentiu isto, ou isto é o diz-que-disse? 

Não, foi uma experiência bastante diferente daquelas que eu tinha tido no futebol profissional. Eu devo agradecer à Arábia, que me permitiu, nomeadamente ao Al-Ittihad e aos seus dirigentes, me permitiu viver esta realidade, ou essa realidade, onde a cultura de trabalho é diferente, a exigência, o tal rigor que nós queremos e que eu quero no nosso dia a dia, enquanto clube e enquanto equipa, era difícil de passar e ser respeitado. Para incutir algo diferente, chegamos a um ponto em que nós é que temos que nos ajustar a uma realidade completamente diferente. 

Voltaria a treinar algum clube da Arábia Saudita? 

Sim, sim. Por aquilo que me dizem, por aquilo que eu pude perceber, é um país que está a evoluir e quer muito evoluir. Eu acho que depois o querer é uma coisa, o fazer já é diferente. Eles não estão habituados, por diversas razões, a treinar durante o dia…

Têm de rezar….

[Risos] …Se nós tivéssemos mais do que um treino por dia, são bidiários, era difícil para eles respeitarem os horários, aparecerem por vezes no treino também era difícil, por isso é uma realidade completamente diferente. 

Antes da Arábia, a Itália, um dos países onde teve mais sucesso até como jogador, no Milan, um gigante que não anda propriamente em tempos fáceis, como é que foi a experiência no Milan? Ganhou a Supertaça, é bom, mas depois o final não correu tão bem…

Não, eu diria que foi, e com o que se tem passado, ou seja, neste passado recente, veio demonstrar que se calhar, que se calhar não, tenho a certeza, que os seis meses que eu estive no Milan foram bastante interessantes. 

Está pior? 

Está pior, entretanto a estrutura, nomeadamente os dirigentes saíram, o treinador que é um treinador experiente, um treinador cheio de currículo, campeão já em Itália…

O Allegri… 

…O Allegri foi despedido também, conseguiu fazer menos pontos do que nós. Eu desde que cheguei ao Milan, a minha equipa técnica, eu e a minha equipa técnica, não falo de mim, falo da equipa técnica, muito capaz e muito dedicada também, conseguimos, ao ter a pontuação no campeonato para ir à Europa, chegar a uma final da Taça de Itália, passando uma Roma, ou ultrapassando uma Roma que foi talvez a segunda melhor volta da história da Roma com o Ranieri, muito interessante, com uma equipa fortíssima, e passámos o finalista da Liga dos Campeões, o Inter, onde fizemos um jogo brilhante, ganhámos 3-0 e fomos à final com o Bolonha, uma final em Roma, perdemos por 1-0 com o Bolonha. Enfim, uma final é uma final, alguns dizem que é preciso chegar, eu digo que é preciso ganhar. Não ganhámos, ganhámos a Supertaça, entretanto, quando eu cheguei à Arábia, em Riade.

Era um sinal?

[risos] Talvez, talvez. 

Vamos aqui olhar um pouco, porque é importante para perceber quem é o Sérgio Conceição, para aquilo que foi a sua infância, e deixar muito claro que nasceu numa família humilde, tem oito irmãos, viveu entre a pobreza e várias perdas, perdas muito importantes. Uma delas, e a primeira aos 16 anos, foi a do seu pai. Se bem me lembro, demorou muito a convencê-lo a deixá-lo assinar contrato com o FC Porto, aos 16 anos, e dois dias depois, o seu pai morreu.

Sim. 

Quando olha para trás, e chega aqui, a um patamar difícil para tanta gente, impossível, eventualmente, para si, naquela altura, se tivesse cinco minutos para estar com o seu pai, olhos nos olhos, o que é que lhe diria? 

Ui, isso é... A Sandra está-me a fazer uma pergunta difícil. Eu acho que... Obviamente, que abraçava, e agradecia. Porque os sacrifícios foram muitos ao longo da nossa vida, e eu tive a oportunidade de estar 16 anos com ele, com a minha mãe 18. E foram ensinamentos fantásticos.

Qual foi o melhor ensinamento do seu pai? 

Acho que mesmo nos silêncios dele, ele ensinava. Mesmo nos momentos em que era difícil dizer alguma coisa, depois de um dia difícil de trabalho, ele ensinava. Ensinava esse compromisso, esse amor à família. E esses valores…. 

Chegou a trabalhar com ele nas obras? 

Sim, sim. Nas férias da escola.

Incute algumas dessas aprendizagens aos seus filhos? 

Claro. É exatamente aquilo que ia dizer, porque os conselhos que nós demos, acho eu, eu tenho cinco filhos, e graças a Deus todos bem formados. O pequenino ainda tem 11 anos, mas vai pelo mesmo caminho. Respeito, gratidão, humildade, enfim, são valores intrínsecos e que no fundo fazem parte de mim, do meu crescimento, daquilo que eu fui vivendo com a minha família, nomeadamente com os meus pais e com os meus irmãos.

Foi um trajeto difícil, muito difícil, muito difícil. Porque eu lembro-me que ele não ligava ao futebol. Hoje é completamente o oposto, os pais quase obrigam os filhos a ir para o futebol. O meu era o contrário, queria que eu acabasse os estudos para ir trabalhar com ele. O futebol, ele não via, apesar de me acompanhar, nos anos de infantil, iniciado e juvenil, da Académica, aos jogos. 

Elogiava-o?

Não, não.

Talvez daí a sua carapaça… 

Eu não me lembro também do meu pai dizer gosto muito de ti. Mas ele demonstrava de outras formas. 

Estaria orgulhoso, o seu pai, de ver onde chegou? 

Eu acho que sim, acho que sim.

E a sua mãe? 

Também. 

Eu estive a pesquisar muito e não encontrei ninguém com o percurso do Sérgio Conceição. Dentro nem fora de Portugal, alguém que tivesse vindo das origens humildes que veio, com as perdas que teve tão cedo. Ficou órfão de pai e mãe aos 18 anos. Já não tinha pai nem mãe e depois ainda perde um irmão. E nós sabemos o que é ter 16 anos e ter 18 anos. E por isso lhe pergunto, onde é que foi buscar essa força para continuar sempre, resiliente, a acreditar na vitória, como falou agora? 

Foi exatamente isso. Eu cheguei ao FC Porto e fiquei no lar, na Rua Costa Cabral, com alguns jogadores africanos, enfim, de outros países, de outras cidades também de Portugal. E num momento muito difícil para mim, a minha mãe já estava doente na altura, eu ia a Coimbra sempre que podia, para levar algum dinheiro para ajudar, porque já ganhava algum dinheiro no FC Porto, nos juniores.

Mas não foi fácil esse percurso, porque eu lembro-me que o meu pai veio comigo, viemos assinar o contrato, dois dias depois ele faleceu, a minha mãe estava numa situação muito difícil. Enfim, eu via o futebol e olhei para o futebol como não só algo que me podia dar uma satisfação enorme, e também…

A sua salvação?

Não, eles poderem olhar para mim e verem que tudo aquilo que foi o sacrifício deles para com a família, porque nós somos uma família grande, valeu a pena. E eu lutei sempre com esse intuito, com esse foco.

Pensa nisso muitas vezes? 

Todos os dias, todos os dias, todos os dias, todos os dias. Cada título, os meus pais estão presentes… 

Era isso que lhe ia perguntar, a cada título, a cada vitória, nos momentos mais decisivos da sua vida… 

Falei sempre neles, sempre.

E quando chora, que acredito que chore, em quem é que pensa? 

Penso neles, penso no meu irmão também, penso nas pessoas que me ajudaram também e que estão vivas e estão presentes neste trajeto. 

Ou seja, quando o dinheiro deixou de ser um problema, uma preocupação, como é que sentiu depois dessas dificuldades todas? Ou seja, com o bom salário e com o nível de vida que conseguiu atingir, o que é que sentiu? Alívio? Tranquilidade? 

O dinheiro deu importância, a importância permite que nós tenhamos uma vida mais facilitada e ajuda a ter alguns dos prazeres da vida mundana, mas não é algo que eu valorize muitíssimo. É importante e nós trabalhamos para isso, trabalhamos para termos uma boa vida a nível financeiro, sem dúvida nenhuma, mas a mim é o prazer de ganhar, de ganhar títulos, de ter sucesso na minha vida profissional….

Sim, mas o dinheiro para si... Porque eu não me lembro de ver o melhor carro do parque de estacionamento ser do Sérgio Conceição, ou o mais caro. Houve algum cuidado nessa gestão? 

Houve cuidado nessa gestão, claramente que sim, mas não é algo a que eu dê prioridade, sinceramente. É por isso que as coisas acontecem de uma forma natural e, graças a Deus, neste momento, estou completamente tranquilo a esse nível, sabendo que o que mais me preocupa em termos de trajeto, de percurso, é o próximo projeto e não o dinheiro. 

Falou-se há tempos da possibilidade de treinar ao Benfica. Isso seria possível? 

[risos] Muito difícil. Perante aquilo que é o meu passado aqui em Portugal, era difícil. Não posso dizer, como disse há pouco, não posso dizer nunca, porque sou um profissional de futebol, mas neste momento sinto que é difícil treinar outro clube em Portugal que não o FC Porto. 

Mas Luís Filipe Vieira chegou ou não a contactá-lo na altura em que se candidatou a presidente do Benfica? 

Acho que não fica bem estar aqui a envolver outras pessoas…

Mas foi ele que o disse…

…E numa situação que para mim não se concretizou, não deu em nada. Não vou desmentir que havia o interesse do ex-presidente do Benfica em que se fosse eleito falar comigo numa possibilidade de eu treinar ao Benfica, mas nunca se avançou para além de uma simples conversa, informal, muito sinceramente, para mais nada, porque eu meto barreiras. 

Seleção Nacional, essa é uma pele fácil de vestir?

Eu tive a possibilidade de treinar, há bem pouco tempo antes do Al-Ittihad, uma seleção que vai estar no Mundial e não aceitei. Não sei se me fica muito bem dizer o nome da seleção, mas tive um convite quando saiu o [Domenico] Tedesco da seleção da Bélgica e fui convidado. Tive dois clubes franceses também há bem pouco tempo. Enfim, eu acho que o meu percurso, a continuidade da minha carreira passará mais por fora de Portugal que em Portugal neste momento. 

Não se imagina ou não está a ver nesta altura a possibilidade de ser selecionador nacional de Portugal? 

Eu volto a dizer, eu acho que eticamente não é correto estar a dizer se estou preparado. Obviamente que eu sou profissional de futebol, estou preparado para tudo.

Neste momento tem algum convite? Sabe o que é que vai fazer no dia de amanhã? 

No dia de amanhã vou voltar ao Algarve com a família. [risos]

Mas no dia de amanhã em termos de futuro profissional? 

Não, ainda não. Vou pensar naquilo que poderá aparecer, ou seja, poderá ser pensar num projeto que seja um bocadinho diferente destes dois últimos que apanhei. Foram dois projetos difíceis, muito difíceis. 

É oficialmente um treinador sem clube? E sem convite nesta fase? 

Neste momento, sim.

E deixar o futebol? Alguma vez lhe passou pela cabeça? Algum momento de decepção? Já chega, não quero mais isto. Ou a paixão pelo futebol falou sempre mais alto? 

Já tive momentos de fraqueza desses. 

Algum particular? 

Um passado bem recente, com esta experiência na Arábia. Foi muito difícil. Foi verdadeiramente impactante na relação que eu tenho normalmente com os jogadores, com a estrutura. 

Portanto, ainda este ano? 

Sim, sim, sim.
 

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