A mágoa da saída do FC Porto e um possível regresso como presidente: segunda parte da entrevista a Sérgio Conceição

9 jun, 21:11
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Todo o processo das eleições e os dias que se seguiram, nomeadamente com a saída do clube do coração, onde admite um dia voltar, mas já noutra condição

O Porto acaba de ser campeão. Como é que seguiu o título do Porto? Ficou contente de ver o Porto campeão? Como é que viu esta recuperação?

Mas porquê é que está a fazer a pergunta se fica contente?

Pela ligação que tem ao Porto? Já disse publicamente muitas vezes que o Porto é o seu clube de coração.

Sim, obviamente que sim. Às vezes criam-se narrativas completamente erradas, falsas. O título do Porto foi um título merecido da estrutura e do seu treinador. Na minha ótica dos jogadores, eu tive a particularidade de dar os parabéns, de parabenizar os jogadores todos que ainda tive a oportunidade de os treinar no FC Porto. Pessoas que fazem parte, ainda hoje, dos diferentes departamentos do FC Porto. E fiquei contente, sim, pela época que o FC Porto fez, de ganhar um título que foi merecido, perante aquilo que fez nesta época passada.

Mas passaram dois anos, Sérgio Conceição, desde que saiu do Porto…

Deixe-me só voltar atrás, posso?

Claro.

O Rui perguntou-me isso, pelo tal não dar os parabéns nas redes sociais ou algo assim.

Não. Só pela ligação pessoal.

A minha ligação aos adeptos é umbilical, ou seja, é tão forte às pessoas do FC Porto. Mas vamos lá ver uma coisa. Eu tenho a minha forma de... Depois de o FC Porto ganhar o título e de, no fundo, parabenizar as pessoas que eu já frisei, achei que pela quantidade de festas os adeptos não iam ligar àquilo que eu ia dizer, porque houve muita festa depois do título. E eu sabia que ia dar esta entrevista e aproveitava esta entrevista para dar os parabéns ao FC Porto, sem dúvida absolutamente nenhuma, pelo título fantástico que conseguiu.

Mas voltemos então aqui ao tema mais polémico, quebra o silêncio, dois anos depois de ter saído do FC Porto de uma forma que foi alvo de muitas notícias e sobre um assunto sobre o qual nunca falou. O que lhe pergunto hoje é: na sua opinião, saiu de uma forma merecida, ou foi alvo de ter sido sempre muito ligado e próximo a Pinto da Costa?

A forma que eu gostaria de ter saído do FC Porto, certamente, era outra. Eu tenho de expressar o meu sentimento. Mas não era fácil também. Houve o quebrado de um ciclo muitíssimo importante na história do FC Porto, que foi do nosso presidente, durante 42 anos, o presidente mais titulado do mundo. O meu, durante sete anos, sou o treinador mais titulado do FC Porto.

E do país…

E não era fácil. Eu hoje compreendo e aceito. E se calhar era necessário haver essa tal transição.

Mas na altura não aceitou…

Eu aceito e na altura aceitei também. Eu não sei se se lembram, no dia 26 de maio, há dois anos, na final da Taça de Portugal, estava o presidente de Pinto da Costa, o senhor presidente de Pinto da Costa, estava ao Pepe ao meu lado e estava o atual presidente do FC Porto, mais atrás, que eu puxei para levantar a Taça em conjunto. Eu naquele momento não sabia se ia ficar ou não. Eu tinha assinado um contrato de quatro anos - e já lá vamos - a dois dias das eleições, que foi muito criticado também por toda a gente. Eu, entretanto, dia 27, equipa técnica toda a gente folga. Dia 28 fomos trabalhar, a equipa técnica, ao Olival. No plano de férias que temos normalmente aos jogadores, no relatório também que fazemos sempre no final da época. No dia 29 tinha combinado com o André Villas-Boas, com o presidente do FC Porto, em sua casa, para falarmos um pouco daquilo que era a minha situação e daquilo que era o futuro próximo, no fundo, do FC Porto, e foi assim que foi feito.

Conte-nos melhor o que é que aconteceu durante essa conversa.

A primeira coisa que eu... Acho que não me fica bem partilhar tudo aquilo que foi conversado entre nós. Eu acho que, no geral, eu fui-lhe explicar o porquê. Porque se estivesse na situação dele, também, se calhar não gostaria muito que um treinador com sete anos de clube, ganhar aquilo que eu ganhei com a ligação tão forte aos adeptos, estivesse metido de um lado. Acho que não é... e eu estive sempre à parte, estive sempre à parte, até ao dia, até dois dias das eleições, dois, três dias das eleições. Foi quando fui convidado pelo presidente Pinta e Costa para ir ao seu gabinete, onde estava o Pepe presente, porque também, entretanto, saiu, e ele explicou-me o porquê da presença do Pepe, que tinha feito a sua renovação, se ele fosse ser eleito ou reeleito presidente do FC Porto, o Pepe continuaria com ele. E abriu um bocadinho aquilo que era o coração dele. Falou de uma forma muito emocionada da sua doença. Explicou-me a estratégia que tinha para os próximos anos no FC Porto. E eu, por amizade, por respeito, por gratidão, aceitei. E foi isso que eu fui explicar ao André Villas-Boas, dizer que, a partir daquele momento, o meu contrato ficava sem efeito, porque aceitei renovar com o FC Porto, com um presidente. Eu não estaria... Ou seja, como ele já não era presidente do FC Porto, tinha de respeitar. Eu, se estivesse no lugar do André Villas-Boas, também não tinha gostado muito. Eu estava explicar-lhe o porquê. Eu percebi, nessa conversa também com o presidente Villas-Boas, que eu não fazia parte, ou não era alguém visto para dar continuidade como treinador principal. E depois, quando veio à conversa o futuro do FC Porto…

Quem seria o sucessor…

Sim. E foi aí que eu soube, percebi, entendi, que o meu ex-adjunto seria uma solução.

Como é que reagiu?

De forma natural.

Mas o Vítor Bruno já tinha falado consigo sobre essa possibilidade?

Não, não. Tínhamos estado, na noite anterior, a jantar, um jantar de despedida que eu faço sempre no final do ano com a equipa técnica, e que disse que tinha, ou que queria seguir o caminho dele como treinador principal, e eu achei muito bem.

Mas nunca lhe disse como treinador do FC Porto?

Não, não, não.

E por isso lhe pergunto. O Vítor Bruno acompanhou-o durante muitos anos. Foi seu braço direito, esquerdo, andava sempre com ele para todo o lado. O Vítor Bruno era uma pessoa que, seguramente, era o seu grande amigo. Isso não foi uma traição?

Aquilo que eu tenho a dizer é que depois de eu saber que alguém ligado ao FC Porto tinha falado já com o Vítor Bruno, com o meu ex-adjunto, aí a atitude, alguns consideram-na deselegante, podemos adjetivar como quisermos. Pode ser traidora, pode ser...

Mas para si, o que é que sentiu?

Eu acho que isso faz parte do passado.

Mas houve lealdade?

Como sabe, o resto da história, as coisas não se passaram dessa forma, e obviamente que... Quem não se sente não é filho de boa gente, como se suma a dizer, e eu sinto muito, principalmente com as pessoas que gosto, e foi um percurso bonito durante muitos anos. E as coisas deviam ter sido feitas de outra forma.

Sérgio, e como é a sua relação com o André Villas-Boas agora? Existe uma relação?

Não.

E ainda há dias falou de si como um grande portista…

É como eu falo dele, foi um treinador ganhador, campeão na Europa, teve um percurso curto, mas fantástico, como treinador no FC Porto. Agora como presidente, no primeiro ano não correu bem, por tudo aquilo que foi uma transição muito difícil, que estamos aqui a falar dessa mesma mudança, e neste momento é um presidente que ganhou um campeonato nacional e que está de parabéns por isso.

E com Vítor Bruno, alguma vez mais falou?

Não.

Nem tenciona?

Não.

O que é que foi para si, Pinto da Costa? Foi um presidente, foi quase uma figura de família, quase uma figura paternal - porque chegou tão jovem ao Porto, já com Pinto da Costa?

Sim, o presidente foi alguém muitíssimo importante, diria das pessoas mais importantes na minha vida profissional. Eu cheguei jovem, com 16 anos, ao FC Porto, andei emprestado por três equipas, voltei FC Porto, tive dois anos maravilhosos como jogador, e depois regressei numa situação muito difícil, onde privei com o presidente de uma forma muito intensa. Vivemos momentos difíceis, outros momentos de grande euforia, por conquistas.

Já com dificuldades financeiras?

Muitas, muitas. Nós tivemos três anos, não podemos esquecer dos meus sete anos, tivemos três anos sob alçada do fair-play financeiro, meteu-se no meio também a tal pandemia que ninguém gostou, durante dois anos, o covid. Enfim, foram, dentro dos sete anos, esses sete anos foram muito difíceis, com muitas barreiras, muitos obstáculos a ultrapassar, mas com a persistência, com toda essa determinação que o presidente tinha e que nós tínhamos, fomos ultrapassando com distinção, com mérito, com títulos.

Sabe que eu não me esqueço de uma frase que Pinto da Costa me disse em relação a si. Ele disse-me “eu candidato-me ao Porto, e candidatei-me, e achava que ia perder, mas porque acreditava que o Sérgio Conceição era o único que podia fazer o Porto ganhar, e eu vivo para que o Porto ganhe, e o Sérgio de Conceição é muito boa pessoa, ao contrário do que todos pensam”. Como é que interpreta isto?

Consegui enganar o presidente (risos). Havia uma ligação muito forte entre nós.

Mas sente esta discrepância entre a sua imagem pública e a pessoa que você sente ser?

No meio do futebol há muita gente que me conhece para lá daquilo que são, ou daquilo que é o campo de futebol, exatamente, e que tem essa opinião, mas eu não ando a bater à porta das pessoas para dizer que eu não sou assim, eu visto o fato, ou meto a pele do clube que estou a representar, foi uma expressão engraçada que tiveram há pouco tempo em relação a mim, que eu vesti, não só vesti o fato do FC Porto, vesti a pele do FC Porto, mas eu visto a pele de todos os clubes onde passei.

Não pensa em ser presidente do FC Porto?

A Sandra tem aí umas perguntas, uns trunfos na manga.

É uma pergunta que seguramente muita gente se faz. Eu, em particular, tenho razões e sei porque é que lhe faço.

Mas eu, sinceramente, não penso, quer dizer, não tenho um pensamento a longo prazo.

Mas é uma ideia que nunca lhe passou pela cabeça?

Não, não me passou pela cabeça, sinceramente.

Também não diz nunca?

Não, mas eu ouço e vamos ouvindo, porque hoje é fácil de ouvir opiniões, porque com a dimensão que ganharam as redes sociais, enfim, ouço determinadas situações, mas não, não pensei, não penso num futuro próximo, não.

E num futuro mais alargado?

Não sei, sinceramente, não sei.

Não seria a cereja no topo de bolo?

Eu vivo de tal forma intensa e apaixonado, quer dizer, o meu dia a dia, a relação com a minha profissão é tão intensa, não é? Tão forte, com a minha família, com aquilo que é também o meu grupo de amigos, que pensar a médio prazo já me custa, imagine a longo prazo.

O que é que Portugal pode realisticamente fazer neste Mundial? Falar-se de ser candidato é realista? Onde é que vê, com essa paixão, Portugal?

Eu acho que candidatos são todos os que entram ali para disputar o Mundial, são candidatos a ganhar. Alguém dizia isto, e é verdade, mas favoritos já é diferente. Mesmo assim, Portugal poderá estar entre os favoritos, por aquilo que mostrou neste passado recente, por esta geração fantástica de jogadores de grandíssimo nível, que estamos a falar de jogadores que fazem a diferença nas diferentes equipas e nos campeonatos mais importantes do mundo. Eu acho que temos de olhar para a Seleção dessa forma, e que obviamente tem um jogador que é capaz de transportar, através do seu carisma, tudo aquilo que conseguiu e pode conseguir ainda - esperemos que sim -, à Seleção, pode ser um Mundial - e eu espero que assim seja -, um Mundial que esta geração efetivamente traga para Portugal algo absolutamente fantástico.

Quando terminar a carreira, qual é a memória que quer que fique? Quer ser recordado como?

Eu acho que a palavra que me veio à cabeça, e o Rui quando me fez a pergunta, o que me veio à cabeça foi lutador. Eu lutei. Continuo a lutar muito. Muito. Na minha vida, na minha profissão, continuo a lutar muito.

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