Quer queiramos quer não, a moda está a tornar-se o novo playground dos tecnocratas norte-americanos, que são tão suscetíveis aos encantos da Prada como qualquer outra pessoa
Chega um momento durante a semana da moda, enquanto observamos uma multidão de fotógrafos a lutar para captar fotografias de alguém muito magro a usar uma roupa muito antiquada, ou vemos Priscilla Chan — ao lado do seu marido, o fundador da Meta, Mark Zuckerberg — entrar no desfile da Prada com o casaco de pele de carneiro Prada de 11.500 euros que sonhámos ter se um dia nos tornássemos multimilionário de alguma forma fabulosamente ética, em que nos perguntamos: para quem é tudo isto?
A moda nunca foi tão omnipresente e tão inacessível. Tornou-se tão difundida como a música pop ao transmitir os seus desfiles ao vivo e a transformar a corrida para vestir celebridades num desporto. Ao adaptar a sua produção a plataformas como a TikTok e o Instagram (cuja vice-presidente de moda, Eva Chen, é de certa forma tão poderosa como Anna Wintour, da Vogue), a indústria cultivou várias gerações de observadores atentos à moda, ávidos por dar a sua opinião sobre cada movimento das marcas. O desfile da Gucci, por exemplo, considerado foleiro ou genial, gerou dias de debate.
Ao mesmo tempo, os preços dispararam: uma mala Chanel passou de 5.800 dólares (cerca de 5.070 euros) em 2019 para 10.800 dólares (pouco mais de 9.440 euros) em 2024; a coleção Primavera 2025 da Versace, que foi aclamada como uma alternativa bem-vinda ao domínio do luxo discreto, inclui vestidos com preços na casa das dezenas de milhares de euros. Os produtos que todos estes esforços de marketing digital supostamente promovem são inacessíveis para a maioria das pessoas que falam sobre eles. A ideia é que os jovens da Geração Z, que partilham opiniões polémicas sobre moda, comprem o perfume ou o rímel de um estilista. Mas a geração atual é demasiado inteligente para se contentar com produtos tão ostensivamente óbvios.
Isto gerou uma sensação de inquietação nesta temporada de desfiles: o que estamos a ver e porquê? Propostas uniformes para o 1% que talvez se importe pouco com as nuances da filosofia das passerelles, ou cultura pop para ser dissecada nas redes sociais por comunidades com pouco interesse no sucesso de mercado da marca?
Esta questão ficou bem clara no desfile da Prada, no fim de fevereiro, quando Zuckerberg e Chan chegaram ao evento, uma aparição provavelmente ligada aos rumores de que a Meta irá colaborar com a Prada numa linha de óculos inteligentes. A coleção em si foi um manifesto feminino clássico da Prada: apenas 15 modelos desfilaram quatro vezes cada, totalizando 60 looks, cada um deles uma mistura dos seus conjuntos anteriores com peças adicionadas ou retiradas. Foi uma declaração sobre a velocidade da feminilidade moderna – a forma como as mulheres se apressam tanto nas minudências dos seus dias como na amplitude da história, mudando e reinventando-se com apenas algumas ferramentas (calças bufantes e saias de missangas kitsch; botas extravagantes com penas e meias brilhantes). Numa época em que grande parte da feminilidade se concentra em aplicar maquilhagem no rosto e espetar o corpo para prolongar a juventude ou até mesmo parar o tempo, a proposta de Zuckerberg e Chan para a passerelle era uma tese traquina, mas provocadora.
Mas, para muitos, Zuckerberg e Chan representaram uma distração perturbadora: o que estão estes multimilionários a fazer no evento de moda de luxo que acontece duas vezes por ano? A verdade é que os multimilionários têm mais dinheiro do que nunca (segundo a Forbes, o património líquido de Zuckerberg saltou de 72 mil milhões de dólares (perto de 63 mil milhões de euros) para 177 mil milhões de dólares (quase 155 mil milhões de euros) no mesmo tempo que o preço da carteira Chanel quase duplicou. A certa altura, é preciso procurar outras coisas em que gastar dinheiro, como nos mostraram Jeff Bezos e Lauren Sanchez Bezos, figuras constantes na primeira fila dos desfiles de alta-costura, no início deste ano. Quer queiramos quer não, a moda está a tornar-se o novo playground dos tecnocratas norte-americanos, que são tão suscetíveis aos encantos da Prada como qualquer outra pessoa.
Miuccia Prada, ela própria multimilionária, não se ilude quanto ao facto de a passerelle ser um espaço de discursos políticos de grande impacto. "Tento fazer tudo o que seja político, exceto o óbvio, porque seria criticada – uma estilista rica não pode fazer política porque não é apropriado", declarou nos bastidores. "Estamos a criar para pessoas ricas. Estamos a falar de roupas caras, de vestir pessoas ricas. É preciso ter consciência disso."
Talvez a tensão entre as grandes ideias da moda e os seus consumidores, por vezes alheios, seja o que a torna tão fascinante – não um problema a ser resolvido, mas uma contradição a ser abraçada.
O designer Glenn Martens percebe isto melhor do que ninguém. “A moda globalizou-se muito mais, especialmente com as redes sociais. Hoje em dia toda a gente pode tornar-se crítica. Toda a gente tem algo a dizer. Portanto, a moda democratizou-se bastante, no bom sentido”, afirmou o diretor criativo da Diesel e da Maison Margiela, minutos antes de um desfile da Diesel repleto de peças extravagantes e de malhas renovadas. Isto tem o seu lado negativo: “Sei muito bem que, na moda, talvez as pessoas que não têm a formação, o conhecimento e os anos de estudo de Yamamoto ou algo do género, não se importem muito, porque só querem o sucesso instantâneo.”
Isto não o deixa propriamente sem dormir: “No caso da Diesel, é algo que assumo, porque é uma marca de estilo de vida na sua essência. É uma marca para as pessoas”, descreve. “Parte do nosso trabalho é sempre integrá-las na nossa marca.”
Alguns estilistas encontram sucesso ignorando completamente as redes sociais. O desfile de estreia de Maria Grazia Chiuri, designer da Fendi, olhou os clientes diretamente nos olhos e disse: “Preparem as carteiras”. Os seus nove anos como diretora de moda feminina da Dior nunca foram um sucesso entre os críticos e tornou-se alvo de críticas nas redes sociais. A sua coleção de ideias ligeiramente remisturadas dos seus anos na Dior – fatos razoáveis, vestidos de renda preta bonitos, mas sem graça – mostrou que sabe exatamente o que tem de dizer com um desfile de moda: as malas da Fendi, especialmente a famosa Baguette, nunca pareceram tão incrivelmente atraentes.
Organizar um desfile espetacular com o único propósito de vender acessórios é uma ideia antiquada, e nem todos os designers se conformam com isso. Para marcas de média dimensão como a Jil Sander ou a Marni, a roupa é o foco, e os designers de ambas as marcas – Simone Bellotti e Meryll Rogge, respetivamente – estão interessados em vestir um cliente real, com pouca preocupação com o impacto nas redes sociais ou com a venda de acessórios que acabam por se popularizar. Nos bastidores, após o desfile, Bellotti refletiu sobre se as ideias para as suas roupas seriam claras para quem as encontrasse online, mas, subitamente, isso não interessa verdadeiramente. “Pode algo supérfluo tornar-se essencial?", questionou Bellotti, que está a criar peças, como um casaco de corte impecável com uma delicada aba de tecido ao longo da coluna, um vestido azul às manchas da Yves Klein com uma racha alta que se fecha duas vezes na perna, e fatos justos, mas não demasiado justos, que encontramos fisicamente, compramos e passamos os dez anos seguintes a sentirmo-nos entusiasmadas por usá-los.
Rogge, na sua estreia na Marni, a marca italiana conhecida pela sua excentricidade feminina, teve uma abordagem semelhante: roupas criativas para mulheres e homens que querem parecer adultos. "Nós inspirámo-nos no final dos anos 90 e início dos anos 2000", explicou Rogge, "mas não no sentido do Y2k”. “Tipo Winona Ryder”, exemplificou.
A julgar pelas cadeiras da Bottega Veneta de Louise Trotter, esta é uma marca que sabe exatamente com quem está a falar. Desenhadas pelo excêntrico designer de mobiliário Max Lamb, estas cadeiras monasticamente estreitas e profundamente desconfortáveis são o tipo de peça que enche coberturas e palácios em todo o mundo. Complementam bem as roupas: casacos e alfaiataria gigantescos, repletos de detalhes em intrecciato e pele plissada, culminando num desfile de peças que faziam lembrar tapetes de banho com chapéus a condizer. Havia, de facto, algo de encantador nestes looks extravagantes à la Muppets, mas será que a mulher que pode comprar Bottega Veneta desfila realmente pela Art Basel, jantares e reuniões de negócios com roupas tão enormes? Ela sabe que aquela cadeira chique e desconfortável é só para decorar – quando está em casa, relaxa no sofá.
A semana terminou com a Armani, agora sem o seu falecido fundador e sob a direção da sobrinha de Giorgio Armani, Silvana Armani. O conservadorismo burguês da marca é mais evidente do que era sob o comando do designer, mas isso não importa, porque são roupas neutras e fáceis de usar, com toques deslumbrantes como um casaco felpudo às riscas bordeaux e cinzento sobre calças acolchoadas cor de vinho e um casaco bordado, que fazem com que todos, desde o inseguro multimilionário ao estudante universitário que compra calças Armani no TheRealReal por 110 dólares, se sintam como se fossem proprietários de um jato privado.