Para as mais de três mil pessoas que dormem nas ruas de Lisboa, os voluntários da Comunidade Vida e Paz são uma presença indispensável todos os dias do ano. No próximo fim de semana, realiza-se mais uma Festa de Natal para as pessoas em situação de sem abrigo
“Vida e Paz!” Carla anuncia a sua presença enquanto mergulha na escuridão por debaixo do viaduto da Segunda Circular, junto ao Campo Grande. “Comunidade Vida e Paz!”, repete. Ninguém responde. Aponta a lanterna do telemóvel e descobre, lá ao fundo, dois “pontos”: camas improvisadas com cobertores, sacos de roupa, uns cartões. “Dormem aqui duas pessoas, pelo menos”, diz, enquanto deixa dois sacos de papel, cada um com duas sandes e um pacotinho de leite. O senhor que arruma carros no parque de estacionamento ao lado, confirma que já viu ali dois homens, mas não os conhece. “Mais dois.” Todas as noites, os voluntários da Comunidade Vida e Paz percorrem Lisboa nas suas carrinhas com os olhos bem abertos, atentos aos recantos para onde mais ninguém olha, fazendo marcha atrás sempre que detetam um volume, uma sombra, um possível “ponto”. Não existe um número certo - mas no final do ano passado, segundo as contas da Câmara de Lisboa, havia mais de 3.100 pessoas em situação de sem abrigo na cidade.
Renata Alves, diretora-geral da Comunidade Vida e Paz, sublinha que os números que existem são apenas aproximados. “Dá-nos a sensação que diminui o número de pessoas na rua, mas, na verdade, não. Percebemos que as pessoas estão instaladas em locais mais invisíveis, espaços devolutos, e muitas das vezes temos mais dificuldade em chegar até elas. Estão mais distribuídas e mais invisíveis, o que nos preocupa bastante.” Além disso, diz, “existem famílias que têm casa, mas estão numa situação económica bastante difícil e que acabam por recorrer a nós e a outras instituições”. Esse é o caso de muitos imigrantes, por exemplo, que até podem não estar na rua, mas vivem em habitações sem condições dignas e precisam de ajuda. Muitos dos imigrantes têm problemas de comunicação e, além disso, não conhecem a dinâmica da cidade, têm mais dificuldade em encontrar as respostas sociais que existem.
“Há uns anos a maioria das pessoas em situação de sem abrigo estavam ligadas ao consumo de substâncias psicoativas. Neste momento não. Existe, de facto, ainda um grupo de pessoas que consome, sobretudo álcool, mas tem vindo a aumentar o número de pessoas que estão empregadas, mas não têm condições para pagar uma renda ou para pagar uma habitação através de um empréstimo. E temos cada vez mais pessoas que apresentam doença mental”, diz Renata Alves.
Alberto descobriu que com uma pulseira azul podia pernoitar no hospital
Alberto (nome fictício) tem 58 anos. Sempre trabalhou, “trabalhava muito até que um dia a cabeça deu o tilt”, conta. Teve um esgotamento, perdeu o emprego, pouco tempo depois encontrou-se a dormir na rua. Primeiro, sentiu demasiada vergonha e não quis pedir ajuda. “Achamos sempre que vamos conseguir dar a volta. Enganamo-nos a nós próprios. Cheguei a estar três semanas sem tomar banho. A autoestima desapareceu completamente.” Aprendeu a sobreviver na rua. Aprendeu quais os melhores sítios para descansar, onde paravam as carrinhas que distribuíam refeições quentes, a chacoalhar os cartões para afugentar os ratos. “Um dia percebi que podia ir para o hospital. O segredo é queixarmo-nos de uma doença fraquinha, dão-nos a pulseira azul e podemos ficar ali a noite toda.”
Não o conta com orgulho, conta-o porque, entretanto, com a ajuda da Comunidade Vida e Paz, conseguiu dar outro rumo à sua vida e hoje é um dos voluntários que percorrem as ruas tentando ajudar os outros. “As pessoas que estão na rua não são elas mesmas, transformam-se. Não tens horários, não tens trabalho, as tuas preocupações mudam. Começas a beber para conseguir suportar aquilo”, diz. “Quando dormes na rua, qualquer pessoa que se aproxima é uma ameaça. Nunca sabes se te vão fazer mal.”
É por isso que os voluntários são tão importantes. “Eles perguntavam-me: como te sentes? E aos poucos fui ganhando confiança e fomos conversando.” Neste momento, Alberto já mora numa casa, mas paga uma renda e os desafios continuam. Recebe 222 euros do Rendimento Social de Inserção, desdobra-se em biscates, faz todas as formações que lhe permitam aumentar o rendimento. Desabafa: “Sou novo de mais para me reformar, mas sou velho de mais para trabalhar”.
“A ceia é só uma desculpa para entabular uma conversa”
“Há muita gente a dormir em tendas e em cantinhos, que tem trabalho, não tem é dinheiro para pagar a renda. Pessoas que tinham vidas boas, tinham famílias, e que perderam tudo. Nestes anos como voluntária, aprendi que ninguém chega à rua por acaso, atrás de cada um há sempre uma história de perdas, medos, fragilidades”, conta Carla Marques, 57 anos contabilista. Chegou à Comunidade Vida e Paz em 2008 e começou por integrar a equipa de preparação das sandes. Há mais ou menos 15 anos, passou para as equipas de rua e hoje é a coordenadora de uma equipa que ao sábado, de 15 em 15 dias, faz a volta que sai de Benfica, passa pela avenida de Ceuta e pelo bairro da Quinta do Loureiro, vai das Docas ao Cais do Sodré, sobe até ao Príncipe Real e à Basílica da Estrela. Começa pelas 19:15 e só regressa à 1:00 da manhã. Quando as conversas se prolongam, a volta demora mais tempo, mas isso é um bom sinal.
Quem começa a fazer voluntariado nesta área tem muita vontade de mudar o mundo, de mudar a cidade, de mudar os outros. Mas Carla recorda que a primeira mudança aconteceu nela própria. “Passei a ver coisas que nunca tinha visto. Em sítios onde eu passava todos os dias, havia pessoas em situação de sem abrigo e eu nunca tinha reparado nelas”, conta. “Quando comecei pensei que iria oferecer ajuda, hoje sei que não é assim. Ser voluntário é um compromisso de presença, de escuta e de humanidade.”
“Há outras instituições que dão refeições, nós vamos dar uma ceia, que para a maior parte serve para o pequeno-almoço. Mas na verdade a ceia é uma desculpa para entabular uma conversa”, diz Carla Marques. “Vemos pessoas com fome, pessoas que devoram as suas sandes no momento em que as recebem e que pedem mais. Mas sobretudo vemos pessoas muito vulneráveis, muito sozinhas. Que ficam gratas pela nossa atenção.” E acrescenta: “Tento aproximar-me com respeito e delicadeza, muitas vezes basta um sorriso. A única coisa a fazer é tratar os outros como gostaríamos de ser tratados.”
“Para muitos, nós somos as únicas pessoas com quem podem contar”
“Nós damos abraços, damos as mãos, o que eles quiserem, estamos aqui para eles”, avisa José Falé, quando entramos na carrinha num sábado à noite. “Para muitos, nós somos as únicas pessoas com quem podem contar. Sabem a que horas nós vamos e estão à nossa espera. E nós vimos todos os dias, até na noite de Natal e na passagem de ano."
As carrinhas saem da sede, perto da avenida de Roma, entre as 19:00 e as 20:00, com quatro itinerários definidos, para abranger toda a cidade, parando geralmente nos mesmos lugares, onde sabem que vão encontrar pessoas que vivem na rua. Sempre que descobrem novos “pontos” os percursos são alterados. “Essa é uma das diferenças entre a nossa e as outras organizações. A maioria, também porque leva comida e a logística é mais difícil, para num local e espera que as pessoas vão ter com eles. Nós vamos ter com as pessoas onde elas estiverem”, explica José, que é carteiro e é também o voluntário coordenador desta volta.
Isso significa bater à porta de algumas pessoas que, mesmo tendo casa, vivem com dificuldades e dependem destas ajudas. Significa estacionar a carrinha e percorrer a pé o Parque das Nações, espreitando pelas escadas, entre os arbustos, por baixo de arcadas. Parar em parques de estacionamento onde há carros que servem de casas (e são muitos e em locais insuspeitos). Ou atravessar a linha do comboio a pé, na Picheleira ou em Xabregas, entrar pelo mato, percorrer baldios, procurar as barracas de madeira construídas junto aos muros, entrar em casas que parecem abandonadas, parar junto aos viadutos de Santa Apolónia. São quase 3 da manhã e ainda há jovens a estacionar para ir dançar ao Lux sem reparar que, ali ao lado, em tendas de campismo, há pessoas a dormir.
Na plataforma digital da associação, José vai anotando as informações relevantes: quem são as pessoas que encontram, onde pernoitam, a sua situação, se precisam de alguma coisa. Os voluntários - além do José, vão na carrinha a Graça, a Carla, a Filomena e o Luís, que é o condutor, todos identificados com coletes e crachás - sabem os nomes de quase todas as pessoas que encontram na sua volta. Sabem mais do que os nomes. Sabem as histórias daqueles que querem contá-las, de onde vêm, o que faziam, se têm família. Perguntam-lhes pelas doenças, conversam sobre o que for, uns falam de futebol, outros de política. Percebem quando estão de mau humor, quando estão alterados. Sabem o tamanho da roupa e dos sapatos de que precisam e, na carrinha, para além das ceias, trazem sempre roupa e mantas. Alguns pedem-lhes coisas específicas: um aquecedor, um casaco para as noites frias, meias mais grossas. Se as pessoas estão a dormir, os voluntários não as acordam, deixam o saco de papel ao seu lado, um sinal de que passaram por ali.
Por estes dias, os voluntários distribuem também os convites para a Festa de Natal que se vai realizar nos próximos dias 19, 20 e 21. Como habitualmente, durante três dias, a cantina da Cidade Universitária vai transformar-se num local de festa e de apoio, onde as pessoas em situação de sem abrigo podem ir para comer, fazer a higiene, ir ao cabeleireiro e ao barbeiro, tratar do cartão do cidadão, consultar um médico ou, simplesmente, conviver, jogar matraquilhos, ver televisão, dançar e passar umas horas num local quente e acolhedor. "É uma festa de Natal. Se todas as pessoas festejam o Natal, também queremos proporcionar essa possibilidade àqueles que vivem na rua", explica Renata Alves. Serão cerca de 1.200 os voluntários a trabalhar na festa. No ano passado, foram quase 1.800 os convidados desta festa que se faz exclusivamente com as ofertas dos benfeitores.
Comunidade Vida e Paz: há 36 anos a tentar mudar vidas
No Natal as pessoas estão mais sensíveis a este problema, mas as pessoas vivem na rua durante todo o ano. “Estamos a ir ao encontro de perto de 500 pessoas todos os dias. Ainda não conseguimos voltar aos números que tínhamos antes da pandemia”, diz Renata Alves, sublinhando, no entanto que, apesar de essa ser a vertente mais visível, a atuação da Comunidade não se reduz a isto. “O primeiro eixo é o contacto direto com as pessoas em situação de sem abrigo. É uma situação de vulnerabilidade social extrema. O segundo eixo é o tratamento e a reabilitação. E o último é a reinserção social.”
Além dos voluntários que fazem as voltas na cidade, existe uma equipa técnica de rua que está protocolada com o município de Lisboa, que atua na zona central, em cinco freguesias. Há depois o espaço aberto ao diálogo, que acolhe pessoas na sua maioria sinalizadas pelas equipas, mas que também podem ir por iniciativa própria. “Têm ali atividades várias e também são prestados serviços na área da alimentação e da higiene, cada pessoa tem um técnico de referência que percebe quais são as problemáticas e ajuda a traçar um projeto de vida.”
Existe ainda uma unidade de alojamento nas Olaias, protocolada com a Câmara de Lisboa: pode receber 40 pessoas - de todos os géneros, sozinhas ou em casal, incluindo os seus animais de estimação - até um ano ou mais, “mediante o caso e a sua evolução”. E, ainda dentro da resposta de primeira linha, a Comunidade tem sete apartamentos partilhados nos concelhos da Amadora, Loures e Odivelas, integrados na Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas e Pessoas em Abrigo, do Ministério da Segurança Social. Para estas respostas, os utentes têm de ser referenciados e têm acompanhamento psicossocial. “Os técnicos tentam motivá-los para que integrem programas de reabilitação, se for o caso, ou ajudando-os na articulação com outros parceiros para que iniciem um novo projeto de vida.”
Já no eixo da reabilitação, existem duas comunidades terapêuticas para toxicodependentes e alcoólicos, com doença mental associada ou não. Uma em Fátima com 70 utentes, outra na Venda do Pinheiro com 65 utentes, só para homens, ambas fruto de um acordo com o Ministério da Saúde.
Finalmente, no terceiro eixo, existem duas comunidades de inserção, estas protocoladas com a Segurança Social: 17 utentes estão na Venda do Pinheiro e 67 no Sobral de Monte Agraço. “São destinadas às pessoas que percorreram o programa de reabilitação, mas que não conseguiram desenvolver todas as competências e ainda necessitam de um maior acompanhamento. Muitas destas pessoas, mesmo que não apresentem problemáticas aditivas, desenvolveram doenças mentais”, explica Renata Alves. “São situações muito complicadas, pessoas que ainda estão em idade ativa, mas não têm condições para se autonomizar”, diz a diretora-geral.
Existem ainda dois apartamentos de reinserção social, na Venda do Pinheiro e em Odivelas, que são ocupados por pessoas que “já estão inseridas no mercado de trabalho e podem residir durante um período nesta estrutura para poderem fazer uma reinserção social gradual e protegida”.
Este trabalho, embora menos conhecido, “é onde acontece a verdadeira transformação”, diz Renata Alves. “O nosso trabalho é não desistirmos e motivarmos as pessoas para a mudança. Mas sabemos que a mudança é assustadora e é, de facto, muito complicada.” Para além da dificuldade de encontrar um trabalho e uma casa, “estamos a trabalhar com pessoas que estão muito fragilizadas e muito doentes, sobretudo ao nível mental, é um processo muito complexo.”
“O que queremos é reconstruir vidas, queremos que eles nos peçam ajuda e, para isso, temos que estar lá todos os dias, temos de os ouvir, temos que ser de confiança”, explica a voluntária Carla Marques. “Em 15 anos consegui que isso acontecesse uma vez.” Outras pessoas poderão achar que é pouco, mas quem está no terreno sabe que não. “Somos cerca de 600 voluntários, se todos conseguissem um já seria incrível.”