Entre a motivação e um golpe na confiança. É isto que sente um jogador quando é (ou não) convocado para a Seleção

CNN Portugal , JGR
21 mai, 08:00
Treino da Seleção Nacional (JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA)

Roberto Martínez vai revelar esta terça-feira os 26 jogadores escolhidos para representar a Seleção nacional no Euro 2024. A CNN Portugal foi falar com um dos antigos craques da equipa das quinas para perceber como é que os atletas lidam com a convocatória

“É um sentimento de conquista de algo muito difícil”. As palavras são de Abel Xavier, que foi convocado pela primeira vez para a Seleção Nacional quando jogava na segunda divisão, pelo Estrela da Amadora. “Foi algo inédito”, diz, acrescentando que “estava sinalizado e Carlos Queiróz convocou-me para um Portugal-Suíça”. Seguiram-se outras 19 vezes, incluindo no Euro 2000.

O que se seguiu foi “uma sensação de alegria tremenda”. “A primeira chamada à Seleção tem muito de histórico para a carreira de um jogador”, recorda o antigo internacional. Esta terça-feira dezenas de jogadores portugueses vão conhecer um sentimento semelhante - tanto de euforia, como de tristeza - quando Roberto Martinez apresentar a sua lista de convocados para o Euro 2024. É que a lista de 26 jogadores deve ter uma ou outra surpresa e talvez até nomes que antes não se esperavam - estão a ouvir Francisco Trincão, Francisco Conceição ou Nuno Santos?

Este processo nem sempre é fácil de gerir. Abel Xavier, que também treinou a seleção moçambicana entre 2016 e 2019, admite que o momento da convocatória é o “mais difícil” que existe para um treinador - já que tem de ter em conta dezenas de critérios para justificar as escolhas. “Simplesmente não há lugar para todos”, garante, acrescentando que não se trata apenas da qualidade dos jogadores, é preciso equacionar “vastos critérios”, da ideia de jogo da equipa, até possíveis processos de reestruturação em curso.

“Do ponto de vista do treinador é difícil, mas é um processo natural. Não se pode agradar a todos”, insiste.

Embora exista sempre um grupo de jogares que, devido ao seu estatuto e rendimento nos clubes, sabe sempre que vai ser selecionado, o antigo internacional não esconde que os dias que antecedem a convocatória são dias tanto de “expectativa” como de “preocupação”. Por isso, garante, os atletas tendem a ficar “mais cautelosos” nos treinos, principalmente devido ao risco de lesões que possam colocar um fim ao sonho de representar o país.

A partir do momento em que são chamados a representar a Seleção principal, pouco muda na vida de um atleta de alta de competição. “O nível já é bastante elevado” para os atletas que chegam a este patamar, explica Abel Xavier. Por isso, limitam-se a manter as rotinas pré-estabelecidas, do treino à alimentação, a passar pelo tempo de recuperação.

Ficar de fora de uma convocatória não é fácil, mas nem sempre é uma surpresa. Alguns jogadores não aceitam bem a decisão de um selecionador de optar por ser deixado de fora, particularmente quando se aproxima “uma grande competição”. No entanto, a reação do atleta varia muito da fase da carreira em que se encontra.

“Depende do tempo de permanência no espaço de Seleção nacional. Todos os jogadores sabem que existe sempre uma reestruturação de acontece de forma natural. Muitas vezes, quem acaba a carreira na Seleção nacional, acaba por continuar a carreira no clube, o que ajuda a manter o foco”, garante.

Mas há diferenças, explica o internacional: “Para um jogador jovem, não ser chamado para representar a equipa nacional pode ser uma motivação para demonstrar trabalho em campo para uma futura convocatória”. No entanto, quando o atleta é mais velho e olha para esta chamada como uma última oportunidade para comprovar o seu valor, ser deixado de fora pode ser um forte golpe na sua confiança.

“Depois de a convocatória ser feita, existe sempre um sentimento de pesar quando se fica de fora. Quando se é jovem, sente-se que poderemos ter novas oportunidades e estar presentes noutras competições. Se for um jogador mais experiente que vê que esta uma última etapa, pesa mais psicologicamente. Para o jogador que está lesionado, é um dado adquirido, mas para quem tem expectativas de entrar na convocatória, há um sentimento de frustração momentânea, mas depois de compreensão”, explica o antigo jogador que representou clubes como o Benfica ou o Liverpool.

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