Número de portugueses com seguro de saúde disparou em 10 anos. Porquê?

23 set, 07:00
Hospital CUF Porto (CUF)

Falta de médicos de família, maior oferta dos hospitais privados e a procura por consultas e cirurgias mais rápidas. Fomos tentar perceber o que justifica que, mesmo num país em que tanto se confia no SNS, os portugueses se previnam cada vez mais com um seguro

No início do ano, mais de metade dos portugueses dizia confiar no Serviço Nacional de Saúde (SNS), de acordo com dados recolhidos pela Aximage para a CNN Portugal. Uma confiança que se mantém no positivo, mas que não impediu a continuação de uma tendência que se verifica há vários anos: cada vez mais portugueses têm seguro de saúde, precavendo-se assim da eventual necessidade de recorrer aos serviços de saúde privados.

Nos últimos dez anos, o número de pessoas com seguro de saúde (seja a título individual, seja através da entidade empregadora) em Portugal passou de 2.195.762 em 2012 para 3.155.252 em 2021, de acordo com os dados fornecidos à CNN Portugal pela Associação Portuguesa de Seguradores, que traduzem uma subida de 43%.

Subida essa que também se nota na faturação dos hospitais privados à custa dos seguros de saúde, que cresceu 87% de 2012 para 2021, totalizando, segundo os dados estimados, um valor já superior a mil milhões de euros. Isto apesar de uma quebra assinalada pelo setor durante o período da pandemia de covid-19, que ainda assim não impediu o crescimento.

Em 2014, e segundo os dados facultados à CNN Portugal, só a faturação do grupo CUF atingia os 302 milhões de euros, subindo para 433 milhões de euros em 2018, e fixando-se nos 580 milhões de euros em 2021. Para 2022, o grupo adianta que "a tendência de crescimento se mantém". Os seguros de saúde apresentam uma evolução estável no peso que têm na faturação, representando pouco mais de 50% do total de receitas do grupo CUF. As restantes receitas dividem-se entre pagamentos feitos sem seguro de saúde, ADSE ou outras parcerias.

A CNN Portugal questionou os grupos Lusíadas e Luz sobre os seus valores de faturação e a relação com os seguros de saúde, mas não obteve resposta.

O número de pessoas seguras a título individual só diminuiu de 2014 para 2015, mas, graças a outras oscilações do número de seguros de empresas, o número total também desceu entre 2017 e 2018. No entanto, a tendência é clara: aumento, aumento, aumento.

A falta de médicos de família

Cecília Sales e Óscar Gaspar representam dois lados diferentes: ela é do Movimento de Utentes de Serviços Públicos, ele é presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada. Ainda assim, em conversa com a CNN Portugal, ambos conseguem encontrar vários pontos em comum para um aumento dos seguros de saúde em Portugal. O principal, dizem, é a escassez de médicos de família.

Segundo o Portal da Transparência, estão inscritos em Unidades de Saúde Familiar 10.365.123 cidadãos que residem em Portugal. Destes, 1.274.731 estão sem médico de família, a maioria deles porque ainda não lhes foi atribuído um clínico dessa especialidade. Na prática, 12,2% dos portugueses não têm médico de família, ficando assim com o acesso a consultas e outros serviços dificultado.

Cecília Sales nota que isto faz com que estas pessoas, desde que possam pagar, migrem para um serviço de saúde privado, sendo o mais preocupante as centenas de milhares de pessoas que, mesmo sem médico de família, também não têm recursos para seguro de saúde: “Este é o resultado de anos e anos de desorçamentação e de faltas de verbas necessárias para o SNS”.

A representante do Movimento de Utentes dos Serviços Públicos nota há vários anos uma degradação do serviço, lamentando que a pandemia de covid-19 não tenha servido para corrigir falhas. “Deveria ter sido uma aprendizagem em relação aos cuidados primários, nomeadamente no levantamento de unidades sem médico de família”, aponta, sublinhando que “o número de médicos de família tem que muito a ver com as más condições de atendimento”, o que acaba por também causar uma maior pressão nos serviços de urgência, para onde acabam por ir muitas pessoas que queriam apenas uma consulta, mas que não a conseguem atempadamente.

É aí que Óscar Gaspar encontra uma diferença no serviço. Hoje, diz, “muitas pessoas têm todas as suas questões de saúde resolvidas no privado”, incluindo aquelas que podiam ser facilmente resolvidas com acesso a um médico de família.

“Aquilo que há 10 anos fazia as pessoas terem seguro de saúde não é o mesmo de hoje em dia. As pessoas habituaram-se a ter o hospital privado e a fazer lá tudo. Isto explica o acréscimo do número de pessoas com seguros de saúde e das pessoas que vão aos hospitais privados”, acrescenta.

De resto, o economista de profissão, que até foi secretário de Estado da Saúde entre 2009 e 2011, no segundo governo de José Sócrates, conjuga essa falta de médicos de família com aquilo que diz ter identificado como a primeira razão para o acesso à saúde privada: atendimento a tempo e horas.

"As pessoas querem consultas e cirurgias dentro do tempo esperado, e temem que sem seguro de saúde não tenham esse acesso", nota, destacando ainda a possibilidade de no privado se poder escolher o médico que mais lhes agrada.

O presidente da Associação Portuguesa de Seguradores, José Galamba de Oliveira, destaca à CNN Portugal que esta evolução é um "sinal de liberdade, celeridade e comodidade", falando numa "evolução que orgulha o setor".

Embora reconheça que a função essencial do SNS "não deve ser minimizada nem dispensada", entende que o desinvestimento no setor leva a uma valorização da saúde privada.

Oferta ou procura?

A última década também trouxe um boom de hospitais privados em Portugal. Hoje estão em quase toda a parte (no total, são 129), incluindo nos distritos do interior. 

Se Cecília Sales não acredita que tenha havido um aumento da procura assim tão significativo, até porque, como diz, “não temos subido no poder de compra”, Óscar Gaspar encontra um meio termo entre uma maior procura pelo serviço privado e a diversificação da oferta. Desde logo porque essa mesma diversificação torna o setor mais competitivo e, por isso, forçosamente mais barato e acessível.

“Houve uma evolução muito significativa dos privados. Há 15 anos eram pequenas clínicas especializadas. Hoje, em Lisboa, Porto ou até Coimbra fazem tudo de A a Z, com a exceção de transplantes”, refere o responsável do setor.

E Cecília Sales bem o pode dizer, mas não por boas razões. Funcionária da TAP durante vários anos, sempre descontou para um seguro de saúde pago pela empresa, mas decidiu nunca o utilizar. Até há pouco tempo, em que começou a ver mal de um olho, sabendo que sofria de cataratas. Por indicação de uma colega acabou por ceder ao serviço privado para realizar a operação, ela que sempre tinha escolhido o público, e deu-se mal: “Paguei um balúrdio e hoje ainda não estou boa”, revela, falando num “grande negócio em que aqueles que podem controlam a situação”.

"Quando há reformas baixas não é possível fazer esta transição para o privado. Os mais pobres ficam prejudicados, porque o SNS continua a degradar-se e não dá resposta a quem não tem alternativa", acrescenta, relembrando que a saúde pública tendencialmente universal e gratuita é um direito constitucional.

Se quisesse fazer essa mesma operação, e caso não morasse em Lisboa, já podia fazê-la em sítios onde outrora seria impensável: Viseu, Vila Real, Funchal ou até São Miguel, onde foi inaugurado o primeiro hospital privado em 2021, já têm serviços de saúde privados: "Na área metropolitana de Lisboa, os privados já têm mais camas do que os públicos. Este fenómeno começou nos grandes centros urbanos, mas hoje em dia estão em muitos sítios", vinca Óscar Gaspar.

Como a CNN Portugal já noticiou, nunca em Portugal se fizeram tantos partos no privado como agora, e a tendência é para subir. “O número de partos no privado em Lisboa, que foi de 10 mil em 2021, há 10 anos era impensável”, nota Óscar Gaspar, que fala numa “evolução grande da realidade”.

Uma questão que “depende da densidade populacional”, continua o responsável, que prefere destacar a capacidade de investimento que os grupos privados tiveram, não apenas na construção de infraestruturas, mas também no recrutamento e na aquisição de equipamentos. Uma realidade que contrasta com a do SNS, onde “notámos que houve dificuldade em investir”.

O presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada diz que, em certos casos, a procura é tal que já leva ao atraso de alguns exames: "A procura tem crescido muito, mesmo com mais hospitais". "A procura cresce mais do que a oferta. Nós, no privado, estamos a lutar contra este efeito, precisamos de mais capacidade, por isso é que uma das minhas lutas é o licenciamento dos equipamentos pesados", afirma, fazendo referência a equipamentos como máquinas de ressonância magnética.

Por isso, defende que existe mais espaço para os privados, até porque "temos das populações mais envelhecidas do mundo", o que coloca uma "grande necessidade de cuidados de saúde". No fundo, diz, a pressão só vai aumentar, um desafio que garante ser de público e privado, e que leva a outra questão: a falta de médicos.

No mesmo sentido vai José Galamba de Oliveira, que tem "a expectativa" de que "os seguros de saúde têm ainda uma boa margem de progressão em Portugal", mencionando que representam cerca de 4% da despesa global em saúde.

E médicos? Todos de acordo com Costa

Faltam obstetras, faltam ginecologistas, faltam anestesistas, faltam dermatologistas... quem o disse foi António Costa, que, em entrevista à CNN Portugal, admitiu uma grande carência de profissionais em várias especialidades de Medicina.

Cecília Sales e Óscar Gaspar voltam a encontrar-se neste ponto: a representante do Movimento de Utentes dos Serviços Públicos estranha que muitos médicos tenham de esperar pelo licenciamento, enquanto o presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada destaca que a falta de médicos também já se nota no seu setor. A solução, dizem, é a proposta pelo primeiro-ministro: mais cursos de Medicina, algo que tem sido difícil, desde logo atendendo à polémica com a criação do primeiro curso privado, na Universidade Católica.

"Temos centenas de médicos inscritos à espera de certificação da Ordem dos Médicos. São coisas que não fazem muito sentido", afirma Cecília Sales, que aponta ainda uma grande demora na conclusão do curso, bem como as poucas vagas que acabam por abrir para os que existem. "Tem de haver investimento, saber fixar os profissionais que são formados no SNS e depois são aliciados para os privados ou para o estrangeiro".

Óscar Gaspar confirma que os privados estão a pagar muito mais que no público. O responsável afirma que é preciso "remunerar as pessoas por aquilo que fazem, dando incentivos para fazerem mais e melhor". Ainda assim, diz, a cada vez maior escolha de médicos pelo privado não está exclusivamente ligada com a remuneração, mas também com "o envolvimento das equipas" e as condições de trabalho.

Se faltam máquinas pesadas, há muito que outros instrumentos chegam primeiro aos privados do que ao público. Óscar Gaspar dá o exemplo do robot Da Vinci, uma máquina que auxilia os médicos durante cirurgias que está "há mais de 10 anos no privado", mas que "só há pouco tempo há no Curry Cabral". Isso leva a que muitos jovens também prefiram trabalhar naquele local, uma vez que as condições são genericamente melhores.

"Já é possível fazer a carreira de especialidade no privado", acrescenta, concordando depois que são necessárias mais vagas, sob pena de perdermos talento para o estrangeiro: "Custa-nos que vão para a Alemanha ou República Checa para fazerem estes cursos, acabando por ficar lá muitas vezes".

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