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"Estamos a dizer tudo errado aos médicos", diz Isabel Vaz, ao pagar "balúrdios a alguns e muito pouco a outros que até são os que aguentam o sistema"

6 mai, 15:50

CEO do Grupo Luz Saúde alerta que os atuais incentivos são pouco atrativos nas áreas de que Portugal mais vai precisar

A CEO do Grupo Luz Saúde, Isabel Vaz, deixa um alerta sobre o futuro das carreiras médicas em Portugal: o país está a incentivar os jovens médicos a escolher áreas que não correspondem às reais necessidades do sistema de saúde.

Na CNN Portugal Summit Inovação na Saúde, Isabel Vaz diz que Portugal enfrenta uma pressão crescente provocada pelo envelhecimento da população, pelo aumento da doença crónica e pela multimorbilidade em idades cada vez mais jovens. Tendo em conta este cenário, considera que o país vai precisar cada vez mais de médicos de medicina interna e de cuidados de saúde primários.

"O nosso país é um dos países mais envelhecidos da Europa, está com uma carga de doença crónica absolutamente brutal, e não é só nos velhos", indica.

Para a CEO do Grupo Luz Saúde, "isto implica uma alteração completa na forma como vamos prestar cuidados de saúde e dos modelos de prestação". Mas os incentivos dados aos médicos acabam por estar desalinhados com a realidade.

"Qual é que é o incentivo neste momento que o Estado, nas carreiras médicas, está a dar? É dizer assim: bora ser todos cirurgiões e tirar sinalinhos", critica Isabel Vaz.

A responsável aponta que especialidades como dermatologia, oftalmologia e cirurgia plástica são mais atrativas para os jovens médicos, porque implicam "produção adicional, fora de horas".

"Basta olhar para o que é que os médicos escolhem na altura da especialidade para se perceber quais são os incentivos. É escolher dermatologia, oftalmologia e plástica. Portanto, produçãozinha adicional, fora de horas e a partir das 14:00 está tudo no bem bom. Isto prejudica a cirurgia diferenciada", sublinha.

Já a medicina interna, que "é a especialidade que mais vamos precisar nos próximos anos", não se torna atrativa, por causa dos incentivos, "que são completamente errados".

SNS paga "balúrdios a alguns e muito pouco a outros"

"Estamos a dizer tudo errado aos médicos", insiste, apontando o dedo ao Estado: "Quem regula o que é que se paga aos médicos e quais são os médicos que queremos ter no futuro, por acaso é o SNS. E o que é que o SNS está a fazer? A pagar balúrdios a alguns e muito pouco a outros que até são os que aguentam o sistema."

Por estes motivos, Isabel Vaz acredita que Portugal corre o risco de voltar a ter vagas por preencher em medicina interna, uma vez que se recusa a tratar a raiz do problema: os incentivos que tornam algumas especialidades mais atrativas que outras.

A CEO do Grupo Luz Saúde criticou ainda a falta de articulação entre o setor público e privado, o que leva a que Portugal viva num "sistema de dupla cobertura que já abrange mais de metade da população portuguesa".

"O setor privado e o setor público não estão a trabalhar em conjunto", lamenta.

Segundo Isabel Vaz, muitos portugueses pagam simultaneamente impostos para financiar o SNS e seguros de saúde ou ADSE para terem acesso a cuidados no privado, o que leva a redundâncias e um modelo de saúde pouco eficaz.

A responsável acredita ainda que o problema no setor da saúde está no modelo de financiamento e na ausência clara de regulação, que nos privados acaba por ser exercida pelas seguradoras. Por isso, Isabel Vaz defende a existência de mecanismos de fiscalização e auditoria semelhantes aos que existiam nas parcerias público-privadas. 

"O Estado sabe fazer isto porque o fez magistralmente com as PPP", recorda.

A CEO aponta que os privados funcionam sob regras impostas pelas seguradoras, que controlam as autorizações, procedimentos e pagamentos, enquanto no setor público não existem mecanismos de "controlo de utilização".

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