As recentes e trágicas notícias do sismo na Venezuela servem como um doloroso lembrete da força imprevisível da natureza. Para nós, em Portugal, deveriam servir também como um alerta urgente. A pergunta que ecoa na mente de todos não é se teremos um grande sismo, mas se estamos preparados para quando ele acontecer.
Portugal é um país de risco sísmico. É um facto gravado na nossa memória pelo terramoto de 1755 e relembrado por tremores mais recentes. Contudo, entre a teoria e a prática, existe um perigoso intervalo de proteção (protection gap): a diferença entre os prejuízos económicos de uma catástrofe e o valor que está efetivamente coberto por seguros. Em Portugal, este fosso é real e deixa a esmagadora maioria das famílias e empresas expostas a um risco financeiro devastador.
Por essa razão, precisamos, urgentemente, de cultivar uma nova cultura de prevenção em Portugal. Uma cultura que vá além de reagir e que se foque em construir resiliência. Esta não é uma tarefa isolada do Estado; é uma responsabilidade coletiva que exige uma aliança entre o governo, as seguradoras e toda a sociedade civil.
Neste ponto, é de aplaudir a recente iniciativa do Governo, com o apoio da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), de criação de um Fundo de Catástrofes, que representa um passo histórico e absolutamente determinante. Este mecanismo, financiado através dos Planos de Recuperação e Resiliência (PRR), visa criar um sistema de seguro obrigatório para cobrir os danos de catástrofes naturais, como sismos ou tempestades severas. É uma solução inovadora, descrita como uma novidade a nível mundial e que aborda o problema de frente.
Este modelo de parceria público-privada é a resposta que o país precisa. Por um lado, garante que a proteção chega a todos de forma solidária e estruturada. Por outro, permite criar um sistema financeiramente sustentável para garantir a rápida reconstrução do país após um evento extremo. Para o setor segurador, este é um desafio que acolhemos com enorme sentido de responsabilidade, pois permite-nos cumprir a nossa função social na sua plenitude: proteger a economia e a vida das pessoas quando elas mais precisam.
O que aconteceu na Venezuela lembra-nos que a natureza não negoceia prazos. Portugal tem agora a oportunidade de ser um exemplo, adotando um modelo de proteção que pode vir a ser uma referência internacional. A hora de debater, planear e, acima de tudo, apoiar a rápida implementação desta estratégia nacional é agora. Construir um Portugal mais seguro e resiliente é uma missão que pertence a todos nós. A prevenção não pode esperar, porque o terramoto de amanhã combate-se com as decisões que tomamos hoje.
