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A maior ameaça num voo? Não é estar a 12 mil metros de altitude

CNN , Alexandra Skores
12 abr 2025, 16:00
Avião
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Viajar a mais de 12 mil metros de altitude, com apenas ar rarefeito entre si e o solo, pode parecer o momento mais perigoso de um voo. Mas, na verdade, quando se trata de segurança na aviação comercial, esse não é o ponto mais crítico.

Nos últimos tempos, a segurança aérea voltou a estar sob os holofotes, após uma série de incidentes graves que deixaram muitos passageiros a pensar duas vezes antes de comprar um bilhete de avião. Apesar de ser frequentemente apontado como um dos meios de transporte mais seguros do mundo, os recentes acontecimentos - alguns com vítimas mortais - lembram que continuam a existir riscos.

Segundo pilotos e especialistas em aviação, os momentos de maior risco não acontecem "lá em cima", mas sim perto do chão: na descolagem e na aterragem. E há até quem defenda que uma destas fases é consideravelmente mais perigosa do que a outra.

Os minutos críticos do voo

É precisamente durante estas duas manobras - descolagem e aterragem - que ocorreram alguns dos incidentes que mais marcaram os últimos meses, e que estão a ser investigados nos Estados Unidos da América pelo Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB) e pela Administração Federal de Aviação (FAA).

A atenção mediática intensificou-se após a colisão, a 29 de janeiro, entre um avião regional da American Airlines e um helicóptero Black Hawk em missão de treino, no Aeroporto Nacional Ronald Reagan, em Washington, DC. O avião estava a segundos de aterrar quando foi atingido.

Dias depois, um voo da United Airlines, que ligava Houston a Nova Iorque, teve de ser evacuado ainda na pista, após ser detetado um incêndio num dos motores. Os 104 passageiros e cinco tripulantes evacuaram o avião através de escorregas de emergência e escadas.

Menos de duas semanas depois, um jato Learjet 35A, propriedade do vocalista dos Mötley Crüe, Vince Neil (que não se encontrava a bordo), derrapou durante a aterragem no aeroporto de Scottsdale, no Arizona, e embateu contra um jato executivo Gulfstream. O piloto acabou por morrer.

Estes casos despertaram receios e trouxeram consequências económicas para as companhias aéreas.

“Estamos com medo neste momento”

A colisão a 29 de janeiro de 2025 entre um voo da American Airlines e um helicóptero militar Black Hawk, nas proximidades do aeroporto Ronald Reagan, em Washington, é apenas um dos vários incidentes registados nos últimos tempos (Jabin Botsford/The Washington Post/Getty Images)

“Durante anos disseram-nos que voar era a forma mais segura de viajar. Mas, honestamente, estamos assustados neste momento,” afirmou a congressista Bonnie Watson Coleman, durante uma audiência recente do Congresso norte-americano sobre segurança aérea.

Ainda assim, os especialistas continuam a garantir que os céus são seguros e sublinham que cada incidente é uma oportunidade de reforçar os sistemas de segurança e aperfeiçoar procedimentos críticos.

De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), dos 1468 acidentes registados em 2024, 770 ocorreram na fase de aterragem e 124 durante a descolagem.

Para a analista de transportes da CNN, Mary Schiavo, estes números refletem a complexidade e os riscos associados às manobras em solo ou perto dele.

“Os aeroportos são ambientes de alta pressão para pilotos, controladores de tráfego aéreo e para os próprios aviões”, explica.

Na opinião da especialista, as aterragens são mais perigosas do que as descolagens.

"É uma fase extremamente crítica, especialmente no que toca a colisões em voo e outros incidentes”, explicou. “Durante a descolagem, pelo menos, tem-se a pista à frente, visível. Ainda assim, por vezes, há aeronaves que entram no circuito de tráfego sem autorização e tentam aterrar por cima de outra. Mas é na descida e na aterragem que o risco atinge o seu pico”, explica.

Quando o silêncio é obrigatório

Descolagens e aterragens não são encaradas de ânimo leve. Os pilotos são treinados - e voltam a ser treinados - para saber exatamente como reagir caso algo corra mal nestes momentos cruciais do voo.

É por isso que existe uma regra essencial: a “cockpit estéril”. Criada pela FAA em 1981, proíbe conversas ou atividades desnecessárias abaixo dos 10 mil pés (cerca de 3 mil metros), exatamente durante as fases de descolagem e aterragem.

“É vital que toda a atenção esteja focada numa única coisa: pilotar o avião. Durante a descolagem, o avião está mais pesado e precisa de acelerar desde o zero até atingir a velocidade necessária para levantar voo”, explica Dennis Tajer, porta-voz da Allied Pilots Association, que representa pilotos da American Airlines.

Os pilotos seguem listas de verificação rigorosas e há múltiplos sistemas de redundância para evitar falhas humanas.

Recentemente, um exemplo claro: o voo 3278 da Southwest Airlines quase descolava de uma taxiway em vez da pista certa, no Aeroporto Internacional de Orlando. No entanto, o controlador de tráfego aéreo rapidamente cancelou a autorização: "Pare Southwest 3278, pare! Cancelada a autorização de descolagem. Está na pista H”.

“Confirmo: Parámos”, respondeu o piloto.

Risco partilhado, segurança reforçada

Para Jason Ambrosi, presidente da Air Line Pilots Association, momentos como estes são fundamentais para identificar falhas e reforçar os protocolos de segurança.

“A segurança é uma responsabilidade partilhada. Relembra-nos porque é que treinamos exaustivamente, porque é que mantemos padrões elevados e porque é que voar continua a ser o meio de transporte mais seguro do mundo”, afirma.

Os pilotos seguem listas de verificação rigorosas para garantir que tanto as descolagens como as aterragens são realizadas em segurança (Timothy A. Clary/AFP/Getty Images)

Embora os acidentes mais mediáticos envolvam a aviação comercial, é na aviação geral, que inclui aeronaves privadas e de lazer, que ocorrem mais acidentes. No entanto, são menos graves.

“Em 2023 tivemos 195 vítimas mortais na aviação geral, mas isso representa o número mais baixo em 32 anos”, sublinha Mike Ginter, vice-presidente do Instituto de Segurança Aérea da Aircraft Owners and Pilots Association. “Estamos numa trajetória descendente há décadas e queremos manter esse caminho”.

Apesar de, nos últimos tempo, terem-se registado alguns incidentes, a aviação geral tem vindo a reforçar os seus níveis de segurança, garante Ginter.

Segundo o especialista, nos EUA existem cerca de 205 mil aeronaves de aviação geral e a prioridade de todos os pilotos continua a ser a segurança. 

"A formação é totalmente orientada para isso: garantir que cada voo decorre da forma mais segura possível”, sublinhou.

O que se segue?

As investigações oficiais em curso aos últimos incidentes podem demorar mais de um ano a ser concluídas. No entanto, o NTSB pode emitir alterações urgentes enquanto decorrem os inquéritos. Foi o que aconteceu com os helicópteros em espaço aéreo comercial, após o incidente de janeiro em Washington, DC.

Entretanto, os pilotos mantêm-se conscientes dos riscos associados às descolagens e aterragens, momentos que não são encarados com ligeireza.

“Pode não ser um foguetão, mas a quantidade de fatores que convergem nesse momento é enorme. Tudo tem de correr bem e é preciso estar preparado para o que possa correr mal. É uma fase crítica", conclui Tajer.

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