Viajar a mais de 12 mil metros de altitude, com apenas ar rarefeito entre si e o solo, pode parecer o momento mais perigoso de um voo. Mas, na verdade, quando se trata de segurança na aviação comercial, esse não é o ponto mais crítico.
Nos últimos tempos, a segurança aérea voltou a estar sob os holofotes, após uma série de incidentes graves que deixaram muitos passageiros a pensar duas vezes antes de comprar um bilhete de avião. Apesar de ser frequentemente apontado como um dos meios de transporte mais seguros do mundo, os recentes acontecimentos - alguns com vítimas mortais - lembram que continuam a existir riscos.
Segundo pilotos e especialistas em aviação, os momentos de maior risco não acontecem "lá em cima", mas sim perto do chão: na descolagem e na aterragem. E há até quem defenda que uma destas fases é consideravelmente mais perigosa do que a outra.
Os minutos críticos do voo
É precisamente durante estas duas manobras - descolagem e aterragem - que ocorreram alguns dos incidentes que mais marcaram os últimos meses, e que estão a ser investigados nos Estados Unidos da América pelo Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB) e pela Administração Federal de Aviação (FAA).
A atenção mediática intensificou-se após a colisão, a 29 de janeiro, entre um avião regional da American Airlines e um helicóptero Black Hawk em missão de treino, no Aeroporto Nacional Ronald Reagan, em Washington, DC. O avião estava a segundos de aterrar quando foi atingido.
Dias depois, um voo da United Airlines, que ligava Houston a Nova Iorque, teve de ser evacuado ainda na pista, após ser detetado um incêndio num dos motores. Os 104 passageiros e cinco tripulantes evacuaram o avião através de escorregas de emergência e escadas.
Menos de duas semanas depois, um jato Learjet 35A, propriedade do vocalista dos Mötley Crüe, Vince Neil (que não se encontrava a bordo), derrapou durante a aterragem no aeroporto de Scottsdale, no Arizona, e embateu contra um jato executivo Gulfstream. O piloto acabou por morrer.
Estes casos despertaram receios e trouxeram consequências económicas para as companhias aéreas.
“Estamos com medo neste momento”
“Durante anos disseram-nos que voar era a forma mais segura de viajar. Mas, honestamente, estamos assustados neste momento,” afirmou a congressista Bonnie Watson Coleman, durante uma audiência recente do Congresso norte-americano sobre segurança aérea.
Ainda assim, os especialistas continuam a garantir que os céus são seguros e sublinham que cada incidente é uma oportunidade de reforçar os sistemas de segurança e aperfeiçoar procedimentos críticos.
De acordo com a Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), dos 1468 acidentes registados em 2024, 770 ocorreram na fase de aterragem e 124 durante a descolagem.
Para a analista de transportes da CNN, Mary Schiavo, estes números refletem a complexidade e os riscos associados às manobras em solo ou perto dele.
“Os aeroportos são ambientes de alta pressão para pilotos, controladores de tráfego aéreo e para os próprios aviões”, explica.
Na opinião da especialista, as aterragens são mais perigosas do que as descolagens.
"É uma fase extremamente crítica, especialmente no que toca a colisões em voo e outros incidentes”, explicou. “Durante a descolagem, pelo menos, tem-se a pista à frente, visível. Ainda assim, por vezes, há aeronaves que entram no circuito de tráfego sem autorização e tentam aterrar por cima de outra. Mas é na descida e na aterragem que o risco atinge o seu pico”, explica.
Quando o silêncio é obrigatório
Descolagens e aterragens não são encaradas de ânimo leve. Os pilotos são treinados - e voltam a ser treinados - para saber exatamente como reagir caso algo corra mal nestes momentos cruciais do voo.
É por isso que existe uma regra essencial: a “cockpit estéril”. Criada pela FAA em 1981, proíbe conversas ou atividades desnecessárias abaixo dos 10 mil pés (cerca de 3 mil metros), exatamente durante as fases de descolagem e aterragem.
“É vital que toda a atenção esteja focada numa única coisa: pilotar o avião. Durante a descolagem, o avião está mais pesado e precisa de acelerar desde o zero até atingir a velocidade necessária para levantar voo”, explica Dennis Tajer, porta-voz da Allied Pilots Association, que representa pilotos da American Airlines.
Os pilotos seguem listas de verificação rigorosas e há múltiplos sistemas de redundância para evitar falhas humanas.
Recentemente, um exemplo claro: o voo 3278 da Southwest Airlines quase descolava de uma taxiway em vez da pista certa, no Aeroporto Internacional de Orlando. No entanto, o controlador de tráfego aéreo rapidamente cancelou a autorização: "Pare Southwest 3278, pare! Cancelada a autorização de descolagem. Está na pista H”.
“Confirmo: Parámos”, respondeu o piloto.
Risco partilhado, segurança reforçada
Para Jason Ambrosi, presidente da Air Line Pilots Association, momentos como estes são fundamentais para identificar falhas e reforçar os protocolos de segurança.
“A segurança é uma responsabilidade partilhada. Relembra-nos porque é que treinamos exaustivamente, porque é que mantemos padrões elevados e porque é que voar continua a ser o meio de transporte mais seguro do mundo”, afirma.
Embora os acidentes mais mediáticos envolvam a aviação comercial, é na aviação geral, que inclui aeronaves privadas e de lazer, que ocorrem mais acidentes. No entanto, são menos graves.
“Em 2023 tivemos 195 vítimas mortais na aviação geral, mas isso representa o número mais baixo em 32 anos”, sublinha Mike Ginter, vice-presidente do Instituto de Segurança Aérea da Aircraft Owners and Pilots Association. “Estamos numa trajetória descendente há décadas e queremos manter esse caminho”.
Apesar de, nos últimos tempo, terem-se registado alguns incidentes, a aviação geral tem vindo a reforçar os seus níveis de segurança, garante Ginter.
Segundo o especialista, nos EUA existem cerca de 205 mil aeronaves de aviação geral e a prioridade de todos os pilotos continua a ser a segurança.
"A formação é totalmente orientada para isso: garantir que cada voo decorre da forma mais segura possível”, sublinhou.
O que se segue?
As investigações oficiais em curso aos últimos incidentes podem demorar mais de um ano a ser concluídas. No entanto, o NTSB pode emitir alterações urgentes enquanto decorrem os inquéritos. Foi o que aconteceu com os helicópteros em espaço aéreo comercial, após o incidente de janeiro em Washington, DC.
Entretanto, os pilotos mantêm-se conscientes dos riscos associados às descolagens e aterragens, momentos que não são encarados com ligeireza.
“Pode não ser um foguetão, mas a quantidade de fatores que convergem nesse momento é enorme. Tudo tem de correr bem e é preciso estar preparado para o que possa correr mal. É uma fase crítica", conclui Tajer.
