De "sorvedouro de dinheiro" a "mau exemplo para o ambiente". A "imponência" do edifício para onde vai o Governo

6 jun, 21:46

Apesar da enorme central solar no telhado, associação ambientalista diz que edifício para onde vai o Governo é um mau exemplo para o ambiente.

Concluído no início da década de 1990, o Edifício Sede da Caixa Geral de Depósitos sempre foi algo polémico. Rui Martins, fundador do grupo "Vizinhos do Areeiro" e estudioso da arquitetura desta freguesia de Lisboa, admite que o edifício é curioso pois há quem o deteste e quem o adore: "Eu faço parte daqueles que adoram a sua monumentalidade, a sua imponência, o seu aspecto neoclássico ou mesmo clássico", confessa.  

Com 200 mil metros quadrados de construção nos seus 15 pisos (9 acima do solo e 6 abaixo), o enorme edifício da CGD vai ser a casa da maioria do Governo. Algures a partir deste ano, ainda sem data marcada, chegarão os primeiros ministérios com responsabilidades pela execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), mas fonte oficial adianta à CNN Portugal que o objetivo é transferir, nos próximos anos, mais de uma dezena de ministérios. 

No final apenas ficarão noutras zonas da cidade de Lisboa os ministérios da Justiça, Administração Interna, Defesa e Negócios Estrangeiros.

CGD perdeu metade dos funcionários

À espera do Governo estará um edifício que nos últimos anos foi perdendo funcionários. A administração da CGD não revela quantas pessoas trabalham atualmente na sede (nem autorizou uma reportagem lá dentro), mas a Comissão de Trabalhadores confirma que três dos nove pisos acima do solo estão vazios e o relatório anual adianta que a Caixa perdeu metade dos 23 mil funcionários que tinha há 10 anos.  

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas do Grupo Caixa Geral de Depósitos admite que o edifício é atualmente demasiado grande para tão poucos funcionários e explica que a administração até afirma que a sede se tornou num "sorvedouro de dinheiro", nomeadamente pela manutenção que exige. Pedro Messias detalha que mesmo quem trabalha no edifício há muito tempo tem tendência a perder-se quando sai do percurso habitual para o seu posto de trabalho.

"Um esforço energético demasiado pesado"

Num edifício tão grande não admira que para movimentar documentos se tenham instalado 4,5 quilómetros de carril e que existam 245 instalações sanitárias ou 58 elevadores, além de 2.250 quilómetros de cabos eléctricos e 52 mil candeeiros, bem como 3,7 quilómetros de tubos de aspiração centralizada.
Em 2008 a CGD inaugurou mesmo uma central solar térmica com 158 painéis solares no telhado (a maior do país na altura) que mesmo assim só cobre uma pequena parte das necessidades energéticas.

A informação divulgada pela empresa revela que a central solar tem uma produção anual de 1 GWh de energia, mas o edifício tem um consumo mensal de 2 GWh de eletricidade. Na classificação de eficiência energética o Edifício Sede da CGD tem um resultado bom (A), mas Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, diz que essa nota se deve em grande medida aos painéis solares no telhado que dão um bónus neste tipo de avaliações, mesmo que o edifício seja - como é o caso - um grande consumidor de energia.  

Pelas contas de Francisco Ferreira, os 2 GWh de consumo mensal de eletricidade são semelhantes ao consumo das casas de 18 mil portugueses, o equivalente à população de mais de uma centena de municípios portugueses como, por exemplo, Vila Real de Santo António, apesar do edifício só ter capacidade para 4.500 funcionários.

O representante da Zero diz que o consumo de energia da sede da CGD está muito associado aos espaços amplos e grandes que existem no interior e que exigem "um esforço energético demasiado pesado". Se fosse hoje o edifício já não seria construído da mesma forma. 

"Quando olhamos para a eficiência, o edifício pode ser considerado um edifício eficiente por unidade de área... O problema é que a área aqui em jogo é de tal forma grande que corresponde a ter aqui quase 20 mil habitantes", refere Francisco Ferreira.  Razões que levam a Zero a admitir que o edifício para onde se vai mudar o Governo é, ambientalmente, um mau exemplo, apesar da classificação energética boa e de um prémio ambiental atribuído, em 2008, pela EDP.

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