Marrocos tem a solução para a seca: o oceano. Será que o resto do mundo vai seguir o exemplo?

CNN , Daniel Olivares Gallego
28 jun, 16:00
Marrocos (Getty)
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O país declarou, em janeiro, o fim de uma seca que durou sete anos, após um inverno de chuvas intensas ter enchido novamente os reservatórios, cujos níveis tinham descido para mínimos históricos. Mas esse alívio não alterou a estratégia de longo prazo

À medida que o mundo entra numa era de “falência hídrica” e grande parte do planeta é obrigada a adaptar-se a um futuro mais quente e seco, tanto as cidades como as explorações agrícolas poderão vir a depender cada vez mais da dessalinização - a transformação da água do mar em água potável.

Em 2024, havia mais de 22.000 estações de dessalinização em funcionamento em todo o mundo, principalmente no Médio Oriente e no Norte de África - as regiões com maior escassez de água do mundo. Um número crescente de países africanos está a apostar nesta tecnologia e, até 2030, Marrocos pretende obter 60% da sua água potável a partir do oceano.

O país declarou, em janeiro, o fim de uma seca que durou sete anos, após um inverno de chuvas intensas ter enchido novamente os reservatórios, cujos níveis tinham descido para mínimos históricos. Mas esse alívio não alterou a estratégia de longo prazo de Marrocos.

“Depender exclusivamente da precipitação e dos afluxos às barragens já não é suficiente”, afirma Nizar Baraka, ministro do Equipamento e da Água de Marrocos, à CNN. A seca, acrescenta, já não é “um fenómeno excecional ou temporário”. “O que estamos a assistir é a uma transformação estrutural do ciclo climático.”

O plano de Marrocos consiste em transformar a água do Atlântico em água potável para consumo e irrigação das culturas nas cidades costeiras, enquanto a água das barragens e a água da chuva serão canalizadas para o interior, para as explorações agrícolas e os oásis mais vulneráveis à seca. Mas o processo é dispendioso - tanto do ponto de vista financeiro como ambiental.

Uma nação dedicada à dessalinização

A estratégia de Marrocos é liderada por um projeto de 650 milhões de dólares, atualmente em construção a cerca de 40 km a sul de Casablanca. Será a maior central de dessalinização de África e, segundo os seus promotores, a maior do mundo a funcionar inteiramente com energias renováveis - obtendo a sua energia de um parque eólico de 360 megawatts situado no território disputado do Saara Ocidental.

Prevê -se que a Fase I entre em funcionamento em fevereiro de 2027, com a conclusão da Fase 2 em agosto de 2028. Quando estiver a funcionar a plena capacidade, irá bombear 79 mil milhões de galões de água potável por ano para 7,5 milhões de pessoas na região de Casablanca e irrigar 20 000 acres de terras agrícolas.

Construção da central de dessalinização de Casablanca, que se prevê que venha a ser a maior de África e a maior do mundo a funcionar inteiramente com energias renováveis. Ministério do Equipamento e da Água de Marrocos

O país já opera 17 centrais de dessalinização, produzindo cerca de 108 mil milhões de galões de água por ano (cerca de 409 mil milhões de litros) - nove vezes mais do que em 2021 -, com mais 11 centrais planeadas ou em construção, explica Baraka.

Para financiar e construir esses megaprojetos, Marrocos adotou as parcerias público -privadas (PPP). No caso de Casablanca, o financiamento foi concluído em maio de 2025, tendo a Acciona espanhola - um conglomerado multinacional especializado em energias renováveis e gestão da água - como promotora principal, em conjunto com parceiros marroquinos, sendo que o governo espanhol cobriu mais de metade dos custos.

A iniciativa de dessalinização faz parte de um plano nacional de água mais abrangente, no valor aproximado de 14 mil milhões de dólares, que também financia a construção de barragens, a reutilização de águas residuais e uma rede de “autoestradas de água” - condutas que transportam o excedente de precipitação das bacias hidrográficas do norte para as regiões mais secas a sul.

Impacto ambiental

A maioria das modernas instalações de dessalinização utiliza um processo denominado osmose inversa de água do mar (SWRO): bombas de alta pressão forçam a água do mar a passar através de membranas finas que retêm o sal. A tecnologia é fiável, mas consome muita energia; por isso, a maioria das centrais em todo o mundo funciona com combustíveis fósseis - emitindo carbono que aquece o planeta para resolver um problema causado pelas alterações climáticas.

A estação de dessalinização de Chtouka Aït Baha - inaugurada em 2022 a sul de Agadir - é um dos projetos emblemáticos de Marrocos. Os tubos na imagem contêm a chave para a dessalinização: membranas através das quais bombas de alta pressão forçam a passagem da água do mar para filtrar os sais. Abdel Majid Bziouat/AFP/Getty Images

O plano de Marrocos consiste em associar novas centrais de dessalinização ao desenvolvimento de parques eólicos e solares, tirando partido do vasto potencial de energias renováveis do país. ”O objetivo é duplo”, explica Baraka. “Em primeiro lugar, reduzir os custos operacionais a longo prazo e, em segundo lugar, minimizar a pegada de carbono da produção de água.” Em 2024, as energias renováveis geravam pouco mais de um quarto da eletricidade do país.

Mas a dessalinização tem outro impacto no ambiente. Cada galão (3,8 litros) de água doce produzido deixa para trás 1 a 1,5 galões (5,7 litros) de salmoura - água com resíduos químicos e com o dobro da concentração de sal do mar - que é normalmente devolvida ao oceano.

Uma má gestão da salmoura pode prejudicar os ecossistemas marinhos, criando “zonas mortas” com escassez de oxigénio que destroem os leitos de ervas marinhas e as populações de plâncton. A nova fábrica de Casablanca dispõe de um tubo de descarga com cerca de 2,4 km, concebido para diluir a salmoura antes de esta chegar ao fundo do mar. Embora os investigadores considerem a diluição uma abordagem ideal, salientam que Marrocos carece de regulamentação nacional que estabeleça a quantidade necessária, e que, em muitas fábricas, os limites são definidos pelos financiadores, e não por lei.

Impulsionando a agricultura

O setor agrícola consome 87% da água de Marrocos e emprega quase um terço da sua força de trabalho. Mas a seca que durou sete anos reduziu para metade a produção de cereais e provocou um aumento do desemprego nas zonas rurais.

A dessalinização é apresentada como uma solução para irrigar campos onde não chove - para quem tem meios para o fazer.

Em Souss Massa - a região responsável por 85% das exportações de frutas e legumes de Marrocos -, a estação de dessalinização de Chtouka Aït Baha abastece 1 500 agricultores que cultivam tomates e frutas, principalmente para supermercados europeus.

Mohamed Boumarg, que outrora cultivava 12 hectares de tomate cereja, conseguiu passar a cultivar 50, dos quais 60% se destinavam à exportação. “A dessalinização salvou a agricultura em Chtouka”, disse à AFP em julho de 2025. O gerente de uma exploração agrícola referiu à AFP que tiveram de aceitar o preço mais elevado da água dessalinizada, “ou teríamos de fechar as portas”.

Nesta exploração agrícola na região de Chtouka Aït Baha, o coração do setor de exportação de produtos de estufa de Marrocos, as culturas dependem de água dessalinizada para manter o volume e a qualidade exigidos pelos mercados internacionais. Abdel Majid Bziouat/AFP/Getty Images

Youssef Brouziyne, representante regional para o Médio Oriente e Norte de África (MENA) no Instituto Internacional de Gestão da Água (IWMI), explica à CNN que a dessalinização da água do mar “continua a ser 1,5 a 4 vezes mais cara do que muitas fontes tradicionais de água doce”.

Brouziyne refere que a dessalinização pode, de forma realista, apoiar zonas como Chtouka: “uma produção costeira, de elevado valor, orientada para a exportação e baseada em estufas, onde a produtividade hídrica e as margens justificam o custo.”

“A água dessalinizada”, acrescenta, “apesar do avanço notável na redução de custos alcançado por Marrocos e outros países da região MENA, continua a ser demasiado cara para a agricultura de regadio em grande escala”, deixando culturas básicas como o trigo dependentes das chuvas sazonais.

Um homem e algumas crianças aproximam -se de um reservatório de água na aldeia marroquina de Sidi Bouchta, em agosto de 2024, abastecido por uma unidade móvel de dessalinização - uma estação compacta transportada por camião até às comunidades sem abastecimento de água fiável. AFP/Getty Images

Para os pequenos agricultores, observa Youssef Brouziyne, o acesso dependerá de subsídios direcionados, da mistura de água dessalinizada com fontes mais baratas, como águas residuais tratadas, de sistemas solares de menor dimensão e do cultivo de produtos que rendam o suficiente para justificar o custo.

Cooperação é a chave

Marrocos acolheu o Congresso Mundial da Água em Marraquexe, em dezembro passado, onde Baraka apresentou a experiência do país como prova de que a segurança hídrica, energética e alimentar podem ser abordadas em conjunto.

“O nosso objetivo”, afirma, “não é apresentar um modelo único a ser copiado, mas sim partilhar experiências, conhecimentos e soluções práticas que possam ser adaptadas às necessidades específicas de cada país.”

Em toda a África, a dessalinização está a ganhar terreno. A Argélia já gere um dos maiores programas de dessalinização do Mediterrâneo, o Egito está a expandir rapidamente a sua capacidade e o Senegal assinou um acordo no valor de 800 milhões de dólares com a empresa saudita ACWA Power para a construção de uma central alimentada por energias renováveis perto de Dacar. Embora a maior parte da capacidade continue concentrada no Norte de África, a Namíbia e a África do Sul vêm a dessalinizar água do mar há mais de uma década e estão também a desenvolver centrais de menor dimensão alimentadas a energia solar.

O que está em jogo para a agricultura é de dimensão continental. Uma vez que 95% das terras agrícolas de África dependem da chuva, a irrigação poderia duplicar os rendimentos nas zonas com escassez de água. À medida que os custos da dessalinização continuam a diminuir graças aos avanços tecnológicos e à combinação com energias renováveis mais baratas, esta tecnologia poderá vir a abastecer cada vez mais as explorações agrícolas africanas.

Na região de Chtouka Aït Baha, em Marrocos, um agricultor irriga um campo com água dessalinizada. Após anos de seca, muitos agricultores consideram que esta é a única solução viável. Abdel Majid Bziouat/AFP/Getty Images

Em vez de desenvolverem infraestruturas em paralelo, argumenta Brouziyne, os países africanos precisam de partilhar conhecimentos, financiamento e tecnologia - um trabalho que organismos como o Conselho Africano de Ministros da Água e o quadro “Africa Water Vision 2063” estão a coordenar, em conjunto com instituições de investigação como o IWMI.

O modelo de Marrocos não se resume apenas aos megaprojetos de dessalinização, acrescentou ele, mas sim ao conjunto de medidas que os rodeia, desde a preparação jurídica do país até ao planeamento a longo prazo. Fundamentalmente, refere, “nenhuma grande parceria público -privada no setor da água funciona sem um apoio público significativo, e os agricultores podem tornar -se o elo mais vulnerável se a acessibilidade financeira não for integrada na conceção do projeto”.

“A segurança hídrica a longo prazo não se resume apenas a produzir mais metros cúbicos”, culmina Brouziyne, “trata -se de gerar mais resiliência, mais valor e mais equidade por metro cúbico.”

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