Seca na Europa é a pior dos últimos 500 anos e deixou à vista navios nazis, aldeias fantasma e outras relíquias

24 ago, 12:44

Relatório de Bruxelas dá conta de cenário desolador em território europeu devido à falta de chuva e às temperaturas elevadas. Vestígios de outros tempos têm ficado expostos porque a água começou a secar nos principais rios da Europa

Dois terços do território europeu estão sob algum aviso de seca, um cenário que é, provavelmente, o pior dos últimos 500 anos, avisa o mais recente relatório da Comissão Europeia, baseado em dados recolhidos pelo Observatório Europeu da Seca.

De acordo com o documento sobre a situação de seca, o Centro Comum de Investigação de Bruxelas indica que, em agosto, 47% do espaço comunitário está em condições de alerta, o que significa que a precipitação tem sido inferior ao normal e que a humidade do solo é insuficiente.

Este relatório, que deixa mesmo um alerta para Portugal - assinalando que “a energia hidroelétrica armazenada em reservatórios de água é inferior a metade da média dos cinco anos anteriores” - indica que as temperaturas altas e e a escassez de água criaram um nível sem precedentes de stress em toda a União Europeia: quase todos os rios que atravessam a Europa secaram em alguma parte. 

Além do impacto óbvio na navegação, a escassez de água nos rios está também a afetar o sector energético, que já está em crise por causa da guerra na Ucrânia. A produção de energia hidroelétrica diminuiu cerca de 20%, acrescenta o relatório, que aponta que a situação de seca deve piorar em muitos países, entre os quais Portugal, e deverá manter-se pelo menos até novembro. 

A descida do nível da água nos rios, por outro lado, tem exposto relíquias do passado, nomeadamente as chamadas "pedras da fome", rochas que ficam visíveis apenas quando a água seca de forma preocupante e pode indicar problemas graves para a produção de alimentos. Mas também foram revelados vestígios de navios de guerra da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, ou uma aldeia que tinha ficado submersa pelas águas de uma barragem. E até pegadas de dinossauros.

As "pedras da fome" e os navios de guerra

As "pedras da fome", colocadas na linha de água dos rios noutros anos de seca, tinham como objetivo servir de aviso às gerações futuras: se estas rochas estiverem acima da água, avizinham-se tempos difíceis. A maioria destas pedras tem aparecido nas margens do rio Elba, que atravessa a Chéquia e a Alemanha. Uma das pedras tem uma inscrição que remonta ao século XV: "Se me vires, chora", lê-se gravado na rocha.

"Pedra da Fome" fica a descoberto nas margens do rio Elba (Foto: Vit Cerny/Anadolu Agency via Getty Images)

Já no rio Danúbio, na Sérvia, a seca revelou os restos de dois navios da Segunda Guerra Mundial, ainda carregados de explosivos, indica a BBC. As embarcações foram encontradas perto da cidade de Prahovo, onde parte de uma frota nazi se afundou em 1944, pelo que se espera que mais navios continuem a aparecer se o nível da água continuar a baixar.

 

No rio Pó, em Itália, foram mesmo descobertas munições por explodir e, já em junho, cerca de 3.000 pessoas tiveram de ser retiradas da cidade italiana de Mantua para que fosse possível retirar em segurança uma bomba da Segunda Guerra Mundial, pronta a detonar, e que até ali tinha estado submersa.

Em Roma, a descida das águas do rio Tibre revelou mesmo a estrutura de uma ponte antiga que pode ter sido construída pelo imperador Nero no ano de 50 A.D.

A ponte revelada pela seca no leito do rio Tibre, em Roma (Foto: Cristiano Minichiello/AGFUniversal Images Group via Getty Images)

Em Espanha, o Dólmen de Guadalperal voltou a ficar visível: dezenas de pedras alinhadas em círculos, conhecidas como o "Stonehenge espanhol", em Cáceres, tinham ficado submersas em 1963 devido ao desenvolvimento de um projeto rural e, desde essa altura, tinham estado à mostra apenas quatro vezes.

O Dólmen de Guadalperal em Cáceres, Espanha (Foto: Pablo Blazquez Dominguez/Getty Images)

E, na Galiza, a aldeia fantasma de Aceredo, que foi inundada em 1992 para a construção de uma barragem, voltou a ficar à vista. Alguns dos seus antigos residentes foram mesmo às ruínas inspecionar os edifícios, destruídos pelas águas da barragem que agora está quase seca.

Ruínas da aldeia antes submersa de Aceredo, na Galiza (Foto: Adri Salido/Anadolu Agency via Getty Images)

Pegadas de dinossauros no Texas

Mas não é só na Europa que a seca tem vindo a revelar descobertas inesperadas: nos Estados Unidos, onde mais de 60% do estado do Texas está em situação de seca meteorológica e se têm sucedido as ondas de calor, foi encontrado um trilho de pegadas de dinossauros até ali ocultado pelas águas de um rio que secou.

No Dinosaur Valley State Park, perto de Glen Rose, no Texas, a seca deixou visíveis pegadas de há cerca de 113 milhões de anos. 

"A maioria das pegadas recentemente reveladas e descobertas em diferentes partes do rio no parque pertencem ao Acrocantossauro. Este era um dinossauro que chegava, quando adulto, aos 4,5 metros e perto das sete toneladas", disse a porta-voz do parque, Stephanie Salinas Garcia, à CNN

Trilho de pegadas de dinossauro descoberto no Texas por causa da seca (Foto: Dinosaur Valley State Park)

O rio que atravessa o parque secou em vários locais devido ao calor extremo. Em condições normais, explicou Garcia, as pegadas no fundo do rio ficariam cobertas de sedimentos, o que as tornaria menos visíveis. Mas o trilho deverá voltar a ficar coberto, já que as previsões meteorológicas apontam para o regresso da chuva na região, e este processo auxiliará na preservação das pegadas das agressões dos elementos e da erosão. 

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