Como a seca e as vagas de calor na China podem afetar a produção global de carros e telemóveis

28 ago, 08:00
Seca na China. Foto: Wan Xiang/Xinhua via AP

As fábricas de duas das principais províncias industriais da China estão fechadas por falta de energia. Não há água nas barragens, e o consumo de eletricidade disparou devido às temperaturas altas. Está em causa a produção de componentes para automóveis, computadores e telemóveis

Com a China a ser atingida pela pior seca em décadas e por uma vaga de calor que tem registado temperaturas recorde, não é apenas o dia a dia de milhões de chineses que é afetado, nem tão pouco a colheita de outono que está em risco. Os fenómenos climáticos extremos que estão a atingir a China este verão (que incluem também chuvadas que provocaram cheias repentinas) podem ter consequências sérias nas cadeias de abastecimento globais, que já estavam sob grande pressão por causa da pandemia e das consequências da invasão russa da Ucrânia. No limite, pode estar em causa o fornecimento de peças e componentes para a indústria global de automóveis, de telemóveis e de computadores, entre outros.

Diversas províncias chinesas com importantes hub industriais - como Zhejiang, Jiangsu, Guangdong, Sichuan e Chongqing - têm sido forçadas a impor restrições de energia, que atingem serviços públicos e utilizadores domésticos, mas também com impacto em milhares de fábricas. Com o agravar da situação, Sichuan e Chongqing, no Sul da China, ordenaram mesmo a suspensão de toda a atividade industrial, afetando fábricas ligadas à cadeia de produção de automóveis da Tesla, da Honda ou da Toyota, mas também dos telemóveis e tablets da Apple.

O Sul da China é das regiões que têm sido mais afetadas por fenómenos climatéricos extremos, registando este ano o seu período mais longo de temperaturas elevadas e de chuvas escassas desde que começaram os registos modernos, há mais de 60 anos, segundo o Ministério da Agricultura num comunicado.

Ora, é no Sul da China que ficam alguns dos principais centros de produção industrial do país, nomeadamente nas províncias de Sichuan e Chongqing, de cujas fábricas saem componentes essenciais para a produção de inúmeros fabricantes noutros países, dos Estados Unidos ao Japão e à Europa. 

Em ambas as províncias, a coincidência de uma seca prolongada e de uma vaga de calor que se prolonga desde meados de agosto teve um enorme impacto na rede elétrica: por um lado, o consumo de eletricidade disparou, com as famílias, as fábricas, os escritórios e demais estabelecimentos a ligar o ar condicionado para tornar suportável a vida com temperaturas acima de 40º; por outro lado, este aumento da procura chocou de frente com uma infraestrutura hidroelétrica incapaz de aumentar os níveis de produção - na verdade, devido à seca, que está a deixar as albufeiras em níveis historicamente baixos, as barragens não conseguem sequer manter o nível de produção que seria habitual.

Com a rede elétrica sobrecarregada, e sem capacidade de aumentar a oferta, a resposta das autoridades foi garantir o abastecimento doméstico, e cortar a procura do lado da indústria, ordenando o encerramento de fábricas. Uma decisão que está a afetar a produção de marcas como a Tesla, a Toyota ou a Foxconn, o grupo tecnológico taiwanês que tem na China as suas principais fábricas e é o principal fornecedor da gigante Apple.

Sem eletricidade, milhares de fábricas paradas

Nos últimos anos, a China fez um enorme esforço de descarbonização da sua indústria, investindo fortemente em energias não poluentes, com vista a reduzir o consumo de combustíveis fósseis como o carvão ou o petróleo (de que o país é o maior importador do mundo). Sichuan é o melhor exemplo desse esforço ordenado por Pequim, que queria juntar ao crescimento económico das últimas décadas o cartão de visita de ter feito uma transição energética exemplar. A província tornou-se a capital chinesa da energia renovável, graças à construção de grandes barragens - a energia hidroelétrica representa quase 80% da capacidade de produção energética de Sichuan. 

Porém, num ano em que a chuva caiu para metade do seu nível normal, e num verão em que as temperaturas têm atingido os 40º C em muitos dias consecutivos (chegando aos 46ºC), a produção hidroelétrica caiu de forma dramática. O Rio Yangtze, um dos orgulhos nacionais da China, e um dos pilares das hidroelétricas de Sichuan, tornou-se uma das imagens desoladoras da seca deste ano. Com a diminuição da bacia hidrográfica do Yangtze, as reservas hidroelétricas da província caíram para metade dos seus níveis normais desde o início de agosto, cortando a capacidade de produção em mais de 50%. Isto obrigou a cortes de electricidade nas empresas e nas residências na província, que tem 84 milhões de habitantes - mas as consequências vão bastante para além das fronteiras provinciais.

A província de Chongqing, logo ao lado, é igualmente atravessada pelo Yangtze, mas não depende tanto de energias renováveis - de facto, as centrais de combustível fóssil representam cerca de 70% da energia produzida nesta província. Mas cerca de 15% da eletricidade utilizada em Chongqing vem das barragens de Sichuan, e esse abastecimento quase desapareceu. Por outro lado, o aumento da taxa de utilização das centrais energéticas de Chongqing parece difícil, tanto pelo impacto na rentabilidade - sobretudo com o atual aumento do custo internacional dos combustíveis fósseis -, como pelos limites impostos à emissão de gases poluentes.

O governo começou por ordenar às fábricas que interrompessem a produção durante a semana até 20 de agosto, e tem sucessivamente prolongado essa ordem. Neste momento, há a indicação de que as fábricas de Sichuan devem manter-se inoperacionais até este domingo, mas a ordem relativa a Chongqing não tem data limite. 

Segundo o Nikkei Asia, só em Sichuan, cerca de 16 mil empresas tiveram de cumprir a suspensão da produção, em 19 das 21 cidades da província. Uma paragem que atinge as cadeias de abastecimento de uma série de setores.

Mas Sichuan fornece energia a diversas partes da China, até à distante Xangai, a maior metrópole do país. E também a população e as fábricas de Xangai estão a ser afetadas por esta seca. A produção industrial de Xangai já tinha sido fortemente afetada pelos lockdowns impostos pelo governo por causa da vaga de covid-19, quando toda a província esteve praticamente sob recolher obrigatório durante quase dois meses, na primavera. Agora, é a seca que volta a afetar a indústria e a vida na maior cidade chinesa. 

A necessidade de reduzir o consumo de energia refletiu-se, de forma simbólica, no famoso skyline de Xangai: esta semana, os icónicos arranha-céus da zona à beira-rio, conhecida como Bund, foram obrigados a desligar a sua iluminação por duas noites consecutivas. 

“Ligar” a fábrica da Tesla ou os elevadores?

A Tesla, que tem a sua maior fábrica em Xangai e tem importantes fornecedores em Sichuan, já tinha interrompido a sua produção por causa da covid-19. Agora, foi uma vez mais obrigada a parar. Não está em causa apenas a produção na fábrica de veículos elétricos de Elon Musk, mas também a produção de peças e componentes em mais dezenas de outras fábricas, que entram na cadeia de produção da Tesla. O fabricante de veículos elétricos depende fortemente do hub de Sichuan.

Perante as pressões da Tesla (e da SAIC Motor, que também tem um enorme peso no tecido industrial da região), o governo de Xangai decidiu abrir uma excepção para estes dois fabricantes. Na terça-feira, pediu às autoridades provinciais de Sichuan autorização para que os dois fabricantes pudessem retomar as suas operações, alegando a importância estratégica de manter a indústria automóvel da região a funcionar.

O pedido de Xangai acabou por provocar a indignação dos cidadãos, que por ordem governamental estão proibidos de usar os elevadores dos seus prédios para chegar a casa - muitas vezes, em edifícios com dezenas de andares. Segundo a imprensa chinesa, a reação negativa foi tal que as autoridades de Xangai recuaram e retiraram o seu pedido apenas um dia depois. Tanto quanto se sabe, ambas as fábricas continuam paradas.

Fontes ligadas à marca de Elon Musk avisaram, segundo o Nikkei Asia, que se a aquisição de peças produzidas em Sichuan se tornar tão difícil que interfira com o funcionamento da fábrica de Xangai, o construtor de veículos elétricos poderá repensar a sua estratégia global. 

Para além do impacto no negócio global, as limitações energéticas em Sichuan e Chongqing também causam outros tipos de constrangimento à Tesla a nível local: as estações de carregamento da Tesla nas duas províncias estão desligadas, e os utilizadores queixam-se.

Carros japoneses, telemóveis americanos…

"Muitos dos principais fornecedores de automóveis, incluindo fabricantes japoneses, adquirem peças a empresas que têm fábricas na província de Sichuan", explica um fabricante de automóveis citado na imprensa nipónica, para ilustrar o impacto além fronteiras do racionamento energético no sul da China. 

O mesmo se passa em Chongqing, onde estão instaladas grandes fábricas das marcas japonesas Honda e Isuzu, e uma importante operação da norte-americana Ford, para além de dezenas de fabricantes de peças para a indústria automóvel global. Mas não apenas. A província também alberga muitas unidades de montagem de computadores, nomeadamente das principais marcas de Taiwan.

A Foxconn, o gigante taiwanês de componentes tecnológicos que é essencial na cadeia de produção dos telemóveis e tablets da Apple, também tem sido atingida pelos cortes impostos pela necessidade de poupar energia. Na cidade de Chengdu, em Sichuan, as unidades de produção da Foxconn começaram por parar durante seis dias, entre 15 e 20 de agosto. Mas, como aconteceu com muitas outras fábricas, o apagão acabou por se prolongar. Segundo a imprensa chinesa, o complexo industrial da Foxconn ficou a funcionar com apenas 20% da eletricidade que costuma consumir - valor que serve apenas para garantir a segurança das instalações. 

A companhia desvalorizou o impacto destas suspensões, frisando que as suas outras fábricas na China estão a funcionar normalmente. “O impacto é limitado até ao momento", disse um representante da empresa, quando a paragem estava prevista apenas até ao dia 20.

Alguns fabricantes de componentes têm procurado meios próprios de produção de energia, e os pedidos de informação sobre esses sistemas têm crescido, mas não será a solução para retomar a normalidade. 

Em Chongqing, o outro grande hub industrial e tecnológico do Sul da China, não há fim à vista para o apagão imposto às fábricas. "As previsões meteorológicas estão frequentemente erradas", disse um responsável governamental de Chongqing, explicando a decisão de não estabelecer uma data para o retomar da produção industrial naquela província. "Não foi estabelecido qualquer prazo para não dar às empresas falsas expectativas.”

Entretanto, também o transporte de carga no rio Yangtze tem sido perturbado, pois a falta de chuva diminuiu o nível da água e alguns navios estão com dificuldades de navegabilidade. Algumas empresas de logística impuseram um limite de peso de carga, o que está a causar atrasos na distribuição de e para as províncias de Chongqing e Sichuan. Não só há cortes na produção, como há dificuldades em fazer chegar matérias-primas às fábricas e escoar a produção. Um cocktail perfeito para perturbar ainda mais as cadeias de produção globais que passam pela China.

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