Restos de mamutes antigos e um navio naufragado da era nazi: os rios da Europa, cada vez mais secos, revelam relíquias do passado

CNN , Laura Paddison
15 ago, 15:00
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Devido à seca na Europa, rios outrora caudalosos ficaram reduzidos a um fio de água e a crise está a afetar tudo, desde o transporte marítimo e o turismo até à disponibilidade de água e à produção de energia

O verão europeu, marcado por um calor e uma seca extraordinários, fez com que alguns rios atingissem níveis mínimos históricos, revelando relíquias há muito submersas, desde ossos antigos a naufrágios com mais de um século.

Os restos mortais do que se acredita ser um mamute antigo foram descobertos no recentemente exposto leito do rio Danúbio, no norte da Bulgária, depois de o rio ter atingido níveis historicamente baixos.

O diretor do Museu Regional de História da cidade vizinha de Ruse afirmou que a descoberta consiste numa mandíbula inferior, duas presas e, possivelmente, uma costela, segundo a Reuters, citando relatos da imprensa local. Os ossos serão agora analisados para confirmar a descoberta.

Restos mortais do que os historiadores acreditam ser um mamute ancestral perto da aldeia de Ryahovo, na Bulgária (Foto: Lyuboslav Yordanov/Município de Slivo pole/Reuters via CNN Newsource)

O Danúbio também atravessa a Croácia, onde a descida do nível das águas revelou o esqueleto de um navio de carga chamado Fulton, que transportava carvão rio abaixo quando naufragou em 1937.

E na Sérvia, o rio, agora com o nível mais baixo, expôs os restos de um navio de guerra nazi naufragado.

Navio cargueiro húngaro Fulton,  naufragado em 1937, no rio Danúbio, perto de Opatovac, na Croácia (Foto: Antonio Bronic/Reuters via CNN Newsource)

Este verão, a Europa tem sido assolada por uma sucessão de ondas de calor extremas e com temperaturas recordes, que, segundo os cientistas, foram claramente intensificadas pela crise climática provocada pelo homem. O tempo quente e seco não só preparou o terreno para os incêndios florestais destrutivos que têm assolado o continente, como também está a exercer uma pressão imensa sobre as suas fontes de água.

Rios outrora caudalosos ficaram reduzidos a um fio de água, vastas extensões de leito fluvial ressequido encontram-se agora expostas e a crise está a afetar tudo, desde o transporte marítimo e o turismo até à disponibilidade de água e à produção de energia.

Algumas secções do Danúbio, o segundo maior rio da Europa, que atravessa 10 países, atingiram níveis baixos sem precedentes.

Em Budapeste, a capital da Hungria, a autoridade nacional responsável pela água registou um nível de água no Danúbio de 23 centímetros, batendo o anterior recorde de 33 centímetros estabelecido em 2013, de acordo com a Associated Press. Não se vislumbra grande alívio no horizonte, não havendo previsão de chuvas significativas para a região.

Isto está a ter um impacto grave no setor energético. A Hungria encerrou uma central nuclear que produz quase metade da eletricidade do país. “Pela primeira vez em 44 anos, toda a Central Nuclear de Paks será completamente encerrada devido ao nível de água historicamente baixo do Danúbio”, afirmou o primeiro-ministro Peter Magyar, numa publicação no X, alertando para uma potencial “situação de crise energética”. A água do Danúbio costuma ser utilizada para arrefecer as instalações.

Um navio de carga passa por um enorme banco de areia exposto no rio Reno, perto de Oberwesel, na Alemanha, durante um período de seca, a 30 de julho (Foto: Thomas Lohnes/Getty Images via CNN Newsource)
O rio San em Stalowa Wola, na Polónia, a 30 de julho (Foto: Kuba Stezycki/Reuters via CNN Newsource)

O tráfego marítimo está a ser afetado, com os navios de carga a terem de reduzir significativamente as suas cargas para evitar ficarem encalhados, o que torna o transporte marítimo muito mais lento e mais caro.

A redução do caudal dos rios está também a afetar o turismo, obrigando alguns cruzeiros fluviais a cancelar ou alterar os seus serviços. Um navio de cruzeiro encalhou num banco de areia no Danúbio, na Bulgária.

Outros rios estão a sofrer em todo o continente. O Lago Brenets, na fronteira entre a Suíça e a França, que é uma grande atração turística, ficou praticamente seco devido à descida do nível das águas do rio Doubs, que o alimenta. Os barcos encontram-se agora encalhados no leito do lago, agora exposto.

O leito ressequido do Lago Brenets, parte do Rio Doubs, em Les Brenets, na Suíça, a 28 de julho (Foto: Fabrice Coffrini/AFP/Getty Images via CNN Newsource)

Os cientistas alertam que a Europa pode esperar que o calor e a seca se tornem cada vez mais intensos, a menos que o mundo reduza rapidamente a quantidade de petróleo, carvão e gás que queima.

“O calor seca o solo, esvazia os rios e aumenta a procura de água, tudo ao mesmo tempo. Essa é a marca distintiva de um clima em mudança”, explica Hannah Cloke, professora de meteorologia e ciências climáticas na Universidade de Reading, no Reino Unido.

“Verões como este estão a tornar-se parte da normalidade e vão continuar a piorar enquanto continuarmos a queimar combustíveis fósseis”, acrescenta. “É simplesmente uma questão de física.”

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