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Continuidade? Onde? O ministro que foi diretor clínico no privado e secretário de Estado nas PPP

10 set, 12:40

Numa coincidência certamente infeliz, o primeiro-ministro que admitiu que a morte de uma grávida foi a gota de água no mandato de Marta Temido foi o mesmo que avisou que as políticas do mandato de Marta Temido iriam continuar após a sua saída do ministério da Saúde. António Costa foi taxativo: “Quem quer mudar de políticas tem de derrubar o governo”. Ontem, o seu secretário-geral adjunto no partido reforçava a ideia: “Os eixos do PS para a Saúde não se vão alterar com o novo ministro”. O sucessor de Temido, que herda um estatuto do SNS mas que decidirá quem será o seu novo CEO, é Manuel Pizarro. Continuidade, então? Ou mudança?

Adalberto Campos Fernandes, médico e antecessor de Marta Temido, considerou Pizarro “um excelente nome” com capacidade “para recuperar o tempo perdido” até aqui. O recado a Temido ‒ e aos perigos de não mudar de políticas na Saúde ‒ ficou dado. O bastonário da Ordem dos Médicos saudou o conhecimento técnico de Pizarro, mas salientou que o seu sucesso ou insucesso “dependerá do primeiro-ministro”. Continuidade, então? Ou mudança, afinal?

Olhando para o percurso de Manuel Pizarro (deputado, vereador, eurodeputado, dirigente partidário, secretário de Estado e, agora, ministro) a continuidade é questionável. Pizarro, médico de profissão, foi diretor clínico num hospital privado da sua cidade – o Porto ‒ e inaugurou unidades hospitalares em Parceria-Público-Privada enquanto secretário de Estado de Ana Jorge, com José Sócrates a primeiro-ministro. Continuidade, então? Ou mudança?

Um apaziguamento da relação do governo com o setor parece provável ‒ Pizarro é amigo e foi colega de profissionais respeitadíssimos entre a classe médica. Mas a noção de que isso não é suficiente, nem de longe, para resolver os problemas do meio é dado igualmente adquirido. Continuidade é a palavra que o governo diz, elevando a ministra demissionária. Mudança é a palavra que os médicos pedem, não esquecendo o que esta deixou por fazer. Continuidade, então? Ou mudança, afinal?

Pelo percurso de Pizarro e pelas políticas públicas que ajudou a implementar enquanto governante, dir-se-ia mudança. Pela natureza do partidarismo e do atual primeiro-ministro, tantas vezes ministro de todas as pastas, como lhe chama Marcelo, é difícil que tal se venha a confirmar. O peso de um presidente de federação poderia ser algo relevante num executivo menos concentrado no seu chefe, mas o carinho das bases não serviu de nada a Pedro Nuno Santos e à brutal revogação do seu despacho aeroportuário, nem tão-pouco a Marta Temido, que há coisa de um ano era aclamada em êxtase pelos congressistas do PS. O governo é de António Costa, por António Costa, com António Costa. Do Presidente da República ao bastonário, já ninguém o nega.

Continuidade, então? Ou mudança, finalmente?

A resposta à pergunta resultará do choque entre duas dimensões da personalidade política de Manuel Pizarro: a sua dimensão de médico, que sabe perfeitamente que metade dos internistas do país não assinam uma carta contra uma ministra de ânimo leve, e a sua dimensão de dirigente partidário, que sabe perfeitamente que ninguém vai para um governo de Costa para dizer que não a Costa.

O que Pizarro tem ‒ e Temido não tinha ‒ é experiência. Política, por um lado; médica, por outro. A única mudança que isso assegura, por agora, é de tom. A continuidade que garante é a de António Costa.

E para haver continuidade tem de haver mudança.

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