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PSD: o tabu sobre o tabu

20 abr, 11:56

Nem no governo, nem no parlamento, nem para coligações, nem para acordos. Luís Montenegro deu um primeiro passo no caminho para uma demarcação do Chega, mesmo que não de forma definitiva. Não referiu o nome do partido que rivaliza com o seu, e muito menos o do seu líder, mas a entrevista que concedeu à CNN Portugal foi indiscutivelmente o mais próximo que o líder do PSD teve de dizer “nunca” a André Ventura. Não desenhou uma linha vermelha ou uma fronteira propriamente dita, mas rabiscou um rascunho, ensaiou limites, aproximou-se de um distanciamento.

Foi explícito o suficiente para ser entendido e ambíguo que chegue para manter margem de manobra. Antes, havia um tabu. Hoje, há um tabu sobre o tabu.

“Não vamos ter no governo nem políticos, nem políticas racistas, xenófobos ou populistas. Nem no governo, nem apoio político”, garantiu Luís Montenegro aos portugueses, faz amanhã uma semana. Ora, tal é uma escalada da promessa com que inaugurou a sua liderança (“Nunca nos associaremos a políticas racistas ou xenófobas”), acrescentando que “nem políticas nem políticos”, não abdicando do seu próprio timing.

“Não me peça para revelar a minha estratégia eleitoral a três anos de eleições”, suspirou, na conversa com Maria João Avillez. Dito de outro modo: não me peça para dizer tudo de uma vez. E tudo de uma vez seria jurar explicitamente que jamais encetará negociações com o partido Chega.

Montenegro não o faz, Montenegro não o faz propositadamente e Montenegro não esconde que essa opção integra “uma estratégia”. Qual? Apesar de não o revelar, é fácil intuir o que inspira a ambiguidade. Certificar aos moderados que não se associará a extremismos, por um lado. Não hostilizar os eleitores que já votaram Chega e que poderão vir a votar PSD, por outro. Pelo caminho, seduzir eleitorado ao centro que confiou uma maioria absoluta a António Costa mas que se desiludiu com a instabilidade do seu último ano.

“Não quero imaturidade e irresponsabilidade no meu governo” é uma bala de canhão com dois alvos. André Ventura, que organiza manifestações contra visitas de Estado e reage a tragédias com insinuações de terrorismo. Mas também Pedro Nuno Santos, cujo Ministério decidiu uma indemnização por WhatsApp e cuja gestão política da TAP terminou em desgraça.

Montenegro atira a ambos para atirar a todos e atira a todos para se valorizar a si. Para um líder da oposição que aspira chegar a primeiro-ministro, é o normal.

Um rioísmo à paisana ou uma demarcação sincera?

Na reação à entrevista, como notou a comentadora da CNN Portugal Mafalda Anjos, alguns elementos da direção do PSD fizeram chegar ao jornal Observador que tomar as palavras de Montenegro como uma demarcação inequívoca do Chega era “abusivo”, havendo ainda tempo para “Ventura mudar” antes de “ficar de fora” de uma solução futura (exatamente o que defendia Rui Rio, suplantado por Costa e Ventura em 2022).

Esta semana, procurando acentuar a demarcação, Montenegro criticou indiretamente André Ventura por confundir as opiniões de Lula com as relações diplomáticas de Portugal com o Brasil. “Quem o faz não está à altura de assumir cargos de responsabilidade na democracia portuguesa”, disparou, como quem diz “comigo ministro não vais ser”, mas mais uma vez sem referir Ventura pessoalmente.

Só o tempo dirá se o líder do PSD está mais próximo da demarcação ou da dissimulação, da linha vermelha ou de um “rioísmo à paisana” que arrisca repetir o erro do seu antecessor, cuja não-posição culminou numa maioria absoluta do PS à esquerda e numa explosão eleitoral do Chega à direita.

A minha ambiguidade não é maior do que a tua ‒ mas é pior…

Até lá, Montenegro insta o PS a esclarecer o seu próprio posicionamento com uma argúcia que visa mais evitar a pergunta (na sua direção) do que conseguir respostas (da parte de António Costa).

Na entrevista à CNN e na reação institucional que o Partido Socialista lhe ofereceu, tal foi mais do que evidente. Montenegro adiantou que só formará governo se for o mais votado (ao contrário de Costa em 2015 e até de Rio, que chegou a admitir fazer o mesmo), mas a hipótese dificilmente merecerá retorno da parte do atual primeiro-ministro, que em 2022 deixou claro que se iria embora se fosse preterido pelo seu concorrente direto.

Com habilidade, Montenegro ensaiou ainda outro tabu para reverter o seu. Que faz o PS se o PSD for o partido mais votado mas não conseguir a maioria absoluta? Deixa-o governar como executivo minoritário, como Guterres e Sócrates chegaram a fazer? Ou obriga-o a negociar com o Chega?, deixou no ar, como se a batata quente queimasse as mãos de ambos.

“O que fará António Costa se um dos dois maiores partidos ‒ o PS ou o PSD ‒ não tiver maioria absoluta?” é a questão que, ironicamente, os dois homens respondem da mesma maneira para não se comprometerem até lá: iam-se embora. Foi o que Luís Montenegro assegurou na entrevista. E precisamente o mesmo que António Costa disse na última campanha eleitoral: se ficar em segundo, demito-me. Logo ele.

O seu número 2 no partido, João Torres, evitou a pergunta a todo o custo quando interpelado por Ana Sofia Cardoso no Prime Time, aqui na CNN Portugal, e não é difícil entender porquê. Numa primeira instância, porque um partido no poder não antevê publicamente cenários de derrota. Numa segunda, porque essa é uma ambiguidade que não interessa a ninguém clarificar. Nem o PSD, na oposição, se pré-disponibilizará para viabilizar um governo minoritário do PS, que afaste os socialistas de regressarem à ‘geringonça’. Nem o PS, com uma maioria absoluta, se comprometerá a viabilizar um governo minoritário do PSD, que o livre do Chega.

A diferença, e é ela que resume o plano inclinado em que o PSD continua a escorregar, é que a ‘geringonça’ já aconteceu, já existiu e já gozou, por sinal, de uma surpreendente popularidade. Uma aliança da direita democrática com André Ventura é que nem por isso, o que torna o duelo de ambiguidades impossível de vencer para Luís Montenegro. Talvez por isso, afinal, prefira não falar sobre ele.

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