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Aquilo que não nos interessa devia interessar-vos

7 jun 2023, 19:46

Entre as contradições, as omissões e as não-confirmações, é mais do que provável que Carlos César tenha razão e que os portugueses estejam "fartos" do caso do SIS, de João Galamba e do portátil do ex-adjunto. O presidente do Partido Socialista não deve andar longe da verdade – haja alguém – quando suspira que já não se consegue ouvir falar do assunto. Nem eleitores, nem comentadores, nem opositores conseguem perceber, nem o Governo está disponível para torná-lo perceptível. 

Da conveniente confusão nasce o compreensível desinteresse e é para aí que, audição a audição, declaração a declaração, a gestão de danos do Governo nos encaminha. Uma embrulhada tão inusitada, tão aleatória, tão paranormal, que já ninguém está realmente empenhado em desembrulhá-la. 

Galamba admitiu que Mendonça Mendes lhe sugeriu que contactasse as secretas, sim. Mas do ministro ao secretário de Estado-adjunto, passando pela chefe de gabinete, ninguém assume diretamente – e absolutamente – que o SIS agiu devido a essa conversa. Mendonça Mendes nega-o, não confirmando a sugestão, nem escondendo a conversa.

A pergunta, a partir daí, é instintiva: se o secretário de Estado-adjunto não fez ou provocou nada de errado, porque não esclarece, ponto por ponto, o que sugeriu? Isto é: se a recomendação de António Mendonça Mendes foi inconsequente – já que foi Eugénia a solitária catalisadora do protocolo –, o que impede António Mendonça Mendes de falar da sua própria inconsequência? E já agora: se a chefe de gabinete agiu de forma exemplar e como lhe competia, qual era o problema de Mendonça Mendes ter aconselhado Galamba a fazer exatamente o mesmo? Nenhum.

Não se percebe. E percebe-se que não se perceba. Depois da legalidade sem lei que a justique, temos um inocente mudo sobre a sua própria inocência. Com sinceridade, não creio que nenhuma Comissão de Inquérito ou participação ao Ministério Público possua o condão de traduzir tamanhos misticismos. Estamos no ramo do espiritismo político. E foram os maus espíritos que se encontraram.

O que me preocupa, com a mesma sinceridade, não é tanto isso. É antes a leviandade com que se tenta seguir em frente a qualquer preço – custe o que custar, independentemente do perigo dos precedentes inaugurados – com um ministro que pode não ter mentido mas cujo Governo se recusa confirmar que disse a verdade. Os portugueses podem não querer saber, como diz César e qualquer alma que saia à rua. Mas o Governo de Portugal deveria querer saber.

A Democracia não é, afinal, mais do que isso. Delegar em quem escolhemos que nos represente as responsabilidades que nos ultrapassam, que nos transcendem ou, simplesmente, que não nos importam. Circular na estrada sem pensar no controlo dos semáforos ou na manutenção da faixa. Pagar impostos sem ser perito em fiscalidade ou conhecedor dos corredores da Autoridade Tributária. Ir ao médico sem saber de cor o orçamento do SNS. Ter secretas sem suspeitar das suas ações. Votar sem temer a contagem. Viver sem recear estar vivo. 

Isso também é a Democracia. Saber que se pode não querer saber. 

Alguém ainda acredita que isso é possível com este Governo?

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