CNN Entrevista || Cabeça de lista da AD nas últimas eleições Europeias e, quem sabe, um dia presidente do PSD? Sebastião Bugalho falou sobre a crise política, mas também sobre a guerra na Ucrânia e as suas próprias ambições políticas
Começamos pela crise política. São vários os temas que temos para a nossa conversa, mas começamos pela situação política nacional. Acredita que o PSD neste momento queimou todas as pontes políticas possíveis com o Partido Socialista, independentemente do que acontecer depois das antecipadas?
As pontes políticas de diálogo com o Partido Socialista... da parte do PSD, não. Nós nunca colocaríamos o interesse nacional subjugado a estados de alma. Não me parece que isso aconteceria, não é a nossa forma de estar. Nunca o fizemos quando estivemos na oposição e tivemos muito tempo na oposição, como se recorda. Nunca o fizemos quando regressámos ao governo. Não o vamos fazer na campanha, nem depois da campanha. Eu acho que, infelizmente, o autor do incêndio das pontes, para usar a metáfora do André, é o doutor Pedro Nuno Santos, até mais do que o Partido Socialista. Parece-me que é óbvio e qualquer ser humano, qualquer cidadão português, compreende que um líder partidário que coloca em causa a estabilidade não só do governo, mas a estabilidade da democracia portuguesa para salvar a sua própria sobrevivência política é alguém que não é de confiança. E parece-me que um líder partidário, e até um homem, que acusa outra pessoa, sem fundamento, sem prova, sem nada concreto que o justifique, de cometer crimes, ilegalidades e ilícitos, é alguém que não quer manter essas pontes de pé.
O doutor Pedro Nuno Santos diz, e já disse repetidamente em entrevistas aqui nesta televisão também, que o Luís Montenegro recebeu dinheiro de empresários, que é uma acusação gravíssima, como acho que qualquer pessoa entende. Luís Montenegro não recebeu dinheiro de empresários. O doutor Pedro Nuno Santos insinua que a empresa da família de Luís Montenegro, que foi fundada pelo primeiro-ministro, é factual, que não prestou os serviços para os quais foi contratada. Não tem qualquer prova disto, portanto é outra mentira, outra insinuação. Portanto, este clima de difamação e calúnia, obviamente que não mantém as pontes de pé, é muito difícil.
Mas não há ainda também pontas soltas que dificultam a perceção dos portugueses em relação a este caso, nomeadamente se houve ou não vantagem patrimonial para Luís Montenegro em virtude desta empresa familiar.
Vamos pôr as coisas por partes. Eu quero deixar uma nota. Como se sabe, eu ainda não falei em público sobre este caso. E agradeço o convite da CNN Portugal para me dar essa oportunidade. Eu compreendo as pessoas que não compreendem. Eu acho que os políticos não devem incorrer num gesto de arrogância em que responsabilizam ou culpabilizam os cidadãos por não compreenderem determinado assunto, inclusivamente um assunto desta gravidade e uma crise política desta envergadura. Eu compreendo quem não compreende. O que eu não posso é alimentar e tolerar quem quer prolongar essa incompreensão, o estado de incompreensão, para fomentar instabilidade política e tentar ter ganhos eleitorais com isso.
O próprio Governo não admite que faltam explicações, ou seja, quando no final de toda esta discussão, inclusive no debate da moção de confiança, é o próprio governo que admite a possibilidade de se avançar para uma comissão parlamentar de inquérito. Significa que concordará de alguma forma que existem questões por clarificar.
Acho que a comissão parlamentar de inquérito, ainda por cima quando o direito legislativo é avançado, é um instrumento que está previsto na liberdade de cada partido que está representado na Assembleia da República. Se o André me perguntar se eu seria a favor dessa comissão parlamentar de inquérito, tenho de ser muito franco, é a minha opinião pessoal, não. Por uma razão muito simples. Primeiro porque vamos a eleições. E como qualquer pessoa que já cobriu uma eleição ou que já participou numa eleição, não há momento de maior escrutínio do que uma eleição. Um candidato dá entrevistas, vai a debates, fala à imprensa todos os dias. Quer dizer, não há momento de maior escrutínio e até de maior nobreza de escrutínio do que um momento eleitoral. Mas a comissão parlamentar de inquérito tem um regime específico e competências específicas que uma campanha não tem.
E depois, deixe-me dizer-lhe que tem algumas reservas em relação ao facto de usarmos uma comissão parlamentar de inquérito, neste caso o Partido Socialista usar, visando diretamente um primeiro-ministro e a sua atividade profissional privada antes de se tornar primeiro-ministro e antes até de se tornar líder do PSD, porque, como se sabe, Luís Montenegro deixou de ser sócio-gerente dessa empresa quando se tornou presidente do PSD e líder da oposição em 2022. Portanto, repare uma coisa. Eu acho que temos de ser todos a favor da transparência, todos a favor dos esclarecimentos e que não podemos incompatibilizar nos cursos portugueses por eles nos colocarem questões. Mas não é esse o ponto. O ponto aqui é que alguém quis criar uma comissão de inquérito para desgastar e prolongar o governo ao mesmo tempo que fazia insinuações sem provas sobre esse governo e sobre esse primeiro-ministro. Vou fazer aqui um exercício que ainda não foi feito ao André Carvalho Ramos, mas acho que explica bem. porque o inusitado que seria termos a CPI, ouvirmos a ter até a CPI.
A doutora Alexandra Leitão foi Ministra e Secretária de Estado, é casada com um advogado que é fundador e sócio de um escritório de advogados, nunca passou pela cabeça de ninguém, e ainda bem, fazer uma comissão de inquérito para ver a atividade desse escritório, o modo como os clientes desse escritório foram angariados, a relação que esse escritório teve com o Estado. O doutor Pedro Siza Vieira, que é uma pessoa que eu respeito, foi ministro da Economia e era sócio-gerente de uma sociedade imobiliária, de tal modo que perdeu o seu mandato e teve de ser exonerado e nomeado a seguir com outra função.
Mas a atuação do ministro Siza Vieira também foi diferente, ou seja, houve logo uma declaração de escusa que até agora não existiu por parte do primeiro-ministro, a não ser uma declaração de intenção.
Não, mas não era preciso, porque o doutor Pedro Siza Vieira era sócio-gerente e o Luís Montenegro já não é. Já nem era sócio, aliás. Porque já não é sócio neste momento, aliás, como se sabe.
Mas não foi Luís Montenegro também que acabou por ter alguma responsabilidade neste processo, colocando Pedro Nuno Santos numa situação politicamente difícil?
Eu acho que a situação não é fácil para ninguém, não é fácil para o regime, não é fácil para nenhum partido, não é fácil para o Governo. Não vale a pena usar eufemismos para relativizar a situação política. Nós temos de a enfrentar e temos que lidar com ela com seriedade e tentarmos ao máximo que o esclarecimento, que será o protagonista desta eleição, também envolva o futuro dos portugueses. Que sejam debatidas e defendidas, prioridades para o país, defender o nosso lugar na Europa, defender soluções que protejam os portugueses do ponto de vista da habitação, que é fundamental neste momento. Somos um país com profundas dificuldades, com o pior rácio entre a renda e o salário na União Europeia. Temos 50 por 100 mais dificuldades do que toda a Zona Euro para pagar a nossa renda em Portugal. Portanto, eu espero que esses temas também sejam temas na campanha. Agora, aquilo que me parece é que foi dado um passo perigoso para a democracia. Foi dado um passo perigoso para a democracia transformando o debate político, não num debate sobre políticas e sobre os políticos, mas num debate de insinuações e mentiras. É muito perigoso isto. Nós, a partir do momento em que tratamos a difamação como uma informação e tratamos uma dúvida como um facto, nenhum de nós estará capaz de exercer funções públicas.
Isso significa o quê? Que se fechou um ciclo na política portuguesa?
Eu espero que não, mas tenho esse receio, confesso. Aliás, tenho pensado muito nessa questão que o André agora me coloca. Eu julgo que nós apesar de termos adversários na política, essa é a grande vantagem da democracia, é que discordamos uns dos outros, temos a liberdade de o fazer e alternamos entre partidos, faz parte da liberdade característica das democracias, nós tínhamos pontos, canais de comunicação, muitas vezes podíamos criar consensos para resolver problemas e divergir profundamente noutras matérias. A partir do momento em que temos um político, não digo o Partido Socialista, digo este político, este Pedro Nuno Santos, que sacrifica todo esse património democrático, toda essa cultura de diálogo, em nome da sua sobrevivência política, caluniando o primeiro-ministro com insinuações para as quais não tem prova, não tem sustentáculo. Porque repara uma coisa, é muito diferente nós fazermos um julgamento ou uma avaliação política com base em alguma coisa que alguém fez. Isso parece-me ser normal, faz parte da democracia avaliarmos os políticos com base nos erros que eles cometem, sejam de direita ou de esquerda, para mim não é essa a questão. Agora, se nós vamos avaliar as pessoas com base naquilo que elas poderiam ter feito, então vamos ser todos condenados a priori sem termos cometido qualquer coisa a alvo de condenação. É muito perigoso esse ambiente.
Mas este caso não pode acabar por contaminar o espaço político da direita? O caso de Luís Montenegro.
Mas repare, a partir do momento em que se aceitarmos que a política seja feita com base em insinuações e em calúnias, claro que acabaremos todos contaminados, mas deixa-me dizer que isso não ficará circunscrito à direita, será mesmo um problema para toda a democracia e para todos aqueles que exercem funções públicas. Eu vou-lhe dar outro exemplo aqui, e mais uma vez é uma pessoa que eu respeito. O embaixador João Gomes Cravinho, que é embaixador neste momento da União Europeia no Sahel. Uma pessoa que eu respeito, não concordo com nada do que ele diz, mas respeito-o muito. Ele foi ministro da Defesa Nacional. Enquanto foi ministro da Defesa Nacional, foi sócio de uma empresa imobiliária. Sendo que, quando se é ministro da Defesa, se tem a prerrogativa de leiloar imóveis do Estado, neste caso das Forças Armadas, inclusivamente ao setor privado. Portanto, havia aqui um conflito de interesses evidente.
Como é óbvio, João Gomes Cravinho nunca fez leilões com imóveis do Estado das Forças Armadas ao setor privado, porque seria um conflito de interesses, porque ele era sócio de uma empresa imobiliária, enquanto esteve em funções. Não passou pela cabeça de ninguém fazer uma comissão de inquérito e colocar em causa a honorabilidade destes ministros que lhe falei, Alexandre Leitão, Pedro Siza Vieira ou João Gomes Cravinho, por causa disso. Do mesmo modo, não passou pela cabeça de ninguém. e é uma pessoa que já não está entre nós e porque eu ainda tenho uma profunda gratidão cívica, insinuar que o Presidente Jorge Sampaio, que foi Presidente da República com um escritório de advogados a trabalhar com o seu nome, com uma sociedade de advogados com o seu nome, não passou pela cabeça de ninguém ir perguntar a Jorge Sampaio, que foi líder da oposição, secretário-geral do PS, presidente de Câmara e Presidente da República, como é que angariou os seus clientes e se eles tinham continuado a requerer os serviços dos seus secretários de advogados enquanto eles estivem em funções públicas.
O André consegue imaginar o que é que seria, o que é que aconteceria se nós fizéssemos isso a todos os políticos dos últimos 50 anos? Irmos perguntar a pessoas que foram deputados da Assembleia Constituinte e líderes partidários, até da minha área política, que toda a vida foram professores universitários e que fizeram parecer jurídicos ao setor privado - muitos deles com um volume de negócio ou com uma representatividade financeira bem maior do que os valores que estamos a falar aqui - e nós insinuarmos que essas pessoas estavam comprometidas nas suas funções públicas porque tiveram a sua atividade privada? É preciso termos noção do que é que aconteceria à democracia se fizéssemos isso com toda a gente. Só estamos a fazê-lo com Luís Montenegro por uma razão simples. Em primeiro lugar, porque ele é primeiro-ministro. E em segundo lugar, porque Pedro Nuno Santos percebeu que esta era a última oportunidade que tinha para se salvar.
Mas este caminho não é perigoso? Uma espécie de mata-mata, no fundo, duas lideranças, PS e PSD, que vão ficar inevitavelmente em causa mediante o resultado das antecipadas?
Mas claro que seria perigoso se o PSD tivesse o mesmo comportamento tóxico e destrutivo do PS. É exatamente isso que eu lhe estou a tentar dizer.
Mas não fez isso no Parlamento, por exemplo, quando tentou negociar a CPI?
Não, isso não é comparável, porque nós não dissemos “ou o meu amigo larga a CPI ou o primeiro-ministro, nós fazemos uma CPI a toda a gente que também teve atividade privada e empresarial teve cotas em empresas durante as suas funções”.
Mas essas insinuações e estados de alma que também referiu, não existem também do lado do PSD, quando vemos o presidente da Assembleia da República ainda em funções a dizer que Pedro Nuno Santos fez pior à democracia nos últimos seis dias do que ventura nos últimos seis anos.
Mas repare, o presidente da Assembleia da República tem uma função institucional, é a segunda figura do Estado. Mas o presidente da Assembleia da República foi eleito deputado pelo PSD e não perde direitos de sua expressão política ou partidária por estar nas suas funções.
Mas não ajuda no diálogo, certo?
Mas o doutor José Pedro Aguiar-Branco não está no Governo, proferiu essas declarações numa reunião à porta fechada, num fórum partidário, portanto no único sítio que era indicado para dizer a sua opinião enquanto militante do PSD era ali, no Conselho Nacional do partido, à porta fechada. Não o disse em público, não o disse numa entrevista. E deixa-me dizer-lhe uma coisa. O doutor Eduardo Ferro Rodrigues, por quem eu também confesso que tenho estima, também nunca abdicou de fazer campanha eleitoral pelo PS enquanto era presidente da Assembleia da República. Portanto, convém mais uma vez não termos dois pesos e duas medidas. isso não vai prejudicar de facto o diálogo que já aqui falámos.
Por exemplo, na semana passada entrevistei o ministro Paulo Rangel, porque estamos numa fase de grandes decisões na Europa em matéria de defesa, por exemplo, e o ministro Paulo Rangel dizia que, independentemente do que acontecer, já sabemos hoje, serão eleições antecipadas, terá de haver diálogo com o Partido Socialista em matéria de defesa, porque o investimento que vai ser necessário vai obrigar o país a refazer contas. Isso, neste momento, é completamente impossível.
É completamente impossível, com o Pedro Nuno Santos, por causa de Pedro Nuno Santos. E, aliás, a referência que o André Carvalho Ramos acaba de fazer em relação àquilo que o professor Paulo Rangel disse, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, só prova aquilo que eu também lhe estou a tentar dizer, que é, não somos nós que estamos a quebrar os pontos. Não somos nós que estamos indisponíveis para o diálogo em matérias de interesse nacional. Não somos nós que estamos a arrastar a democracia para o charco para nos salvarmos. É fácil perceber, e os portugueses conseguem compreender isto, que esta era a última oportunidade que o PS tinha para ir a votos antes de o Presidente da República deixar de poder dissolver a Assembleia da República. Como se sabe, a Constituição impede o Presidente da República dissolver o Parlamento nos últimos seis meses do seu mandato. Portanto, a partir do verão deste ano, a Assembleia deixa de poder ser dissolvida.
E Pedro Nuno Santos olhou para si próprio, olhou para este calendário e pensou “ou eu vou a votos agora, com o Governo com 11 meses de vida, e fabrico esta crise política com base em insinuações, mentiras e calúnias, ou só vou a votos em 2027, quando o novo Presidente da República previsivelmente dissolver o Parlamento, a seguir às negociações do Orçamento de Estado”, que era aquilo que era relativamente previsível, não é? E como qualquer português consegue compreender, seria muito diferente para o Partido Socialista enfrentar o PSD com 11 meses de Governo, apesar de algumas promessas cumpridas, do que enfrentar o PSD depois de três anos no Governo. Portanto, o Pedro Nuno Santos pensou “eu agora ainda posso ganhar, daqui a três anos com certeza que provavelmente irei perder”.
Essa é a posição do Eurodeputado da AD. O comentador faria essa análise também?
O comentador provavelmente confessa que até seria mais desabrido na forma como criticaria Pedro Nuno Santos. E provavelmente até bastante mais crítico. Porque se ainda estivesse no meu papel jornalístico, de análise política, que me deu um particular gozo, fui muito feliz nessa função, aqui nesta casa também, e trabalhei muito consigo também, é verdade, eu não teria as responsabilidades que tenho agora. Eu não teria as responsabilidades institucionais, enquanto membro do Parlamento Europeu e enquanto membro do PSD, de manter as pontes possíveis com o maior partido da oposição, de não sacrificar, em nome daquilo que é o meu interesse, o interesse nacional, que é aquilo que Pedro Nuno Santos está a fazer. Repare uma coisa, nós no PSD também poderíamos agora vir dizer “ah, então, muito bem, o senhor quer fazer uma CPI a uma empresa da qual o primeiro-ministro não é sócio-gerente há três anos, e é uma empresa que tem sido escrutinada como nenhuma outra empresa foi ligada a um titular de um cargo público”.
Eu já referi aqui várias outras empresas de pessoas que estiveram em funções e que não tiveram qualquer tipo de escrutínio deste tipo, acho que isso é relativamente consensual. Portanto, agora também vamos defender uma CPI para ir ver os negócios das empresas das quais Pedro Nuno Santos era sócio enquanto era ministro e que receberam cerca de 2,8 milhões de euros de fundos europeus. Também poderíamos fazer isso, mas isso não nos passa pela cabeça. Sabe porquê? Porque essa é que é a grande diferença entre o modo de estar do PSD, da Aliança Democrática, e o modo de estar de Pedro Nuno Santos, em que vale tudo.
Deixe-me aprofundar ainda mais o papel dos partidos políticos e dos políticos da nossa sociedade. Quando foram constituídas as listas para as europeias podemos ver que a AD escolheu, neste momento é militante do PSD, mas na altura não era, o número dois pensado por Luís Montenegro seria Rui Moreira, que acabou por não acontecer, mas estamos a falar de duas pessoas que não estão nas fileiras, ou não estavam na altura, nas fileiras dos partidos. O que é que isto revela sobre os quadros dos partidos?
Eu acho que, quer dizer, toda a história da nossa democracia, ao contrário destas nuvens negras que agora pairam sobre ela, é uma história de grande articulação e inclusão da sociedade civil. Quer dizer, os partidos fazem parte da democracia e não há democracia sem partidos. Mas sempre houve independentes em governos. Não deixa de ser curioso. O Álvaro Laborinho Lúcio foi ministro da Justiça da grande maior parte dos governos de Aníbal Cavaco Silva. O António Costa Silva foi ministro da Economia de António Costa e também era independente.
Mas não deixa de ser curioso vermos aqui dois independentes como um objetivo de colocar como número um e número dois de uma lista.
Certo, eu percebo isso…
Mas há ou não há falta de talento na política? E até que ponto é que estes casos que andamos a discutir hoje em dia não contribuem precisamente para afastar esses movimentos da sociedade civil para se interessar em estar na política?
Eu posso falar por mim. E eu vou lhe dizer uma coisa muito francamente. Eu não estou nada arrependido de ter representado a Aliança Democrática na candidatura ao Parlamento Europeu. Não estou nada arrependido de ter aderido ao Partido Social Democrata. Pelo contrário. E muito menos por esta circunstância. Portanto, pergunta-me se as pessoas ganham confiança com a política com crises como aquela que estamos a viver. Não, temos de ser francos, não ganham. Mas há um responsável por esta crise política e pelo modo como ela escalou, pelo sítio para onde ela nos está a levar, para o grau de desonra e para que o secretário-geral do PS nos quer conduzir, que é um grau que, no meu entender, é perigoso para a democracia. Perguntamos se o cenário é positivo? Não é. Mas poderia ser possível resolver este problema e fazer o escrutínio indicado sem insinuações, sem mentiras, sem calúnias. Estamos a falar de um homem que acusou o primeiro-ministro de se esconder atrás dos seus filhos. Com respeito, não é ao PSD que deve ser feita a pergunta “estão ou não a destruir as pontes com o PS?” É o Pedro Nuno Santos que tem que ser feito à pergunta “estás ou não a destruir as pontes que devem salvaguardar a democracia num momento de profunda crise de segurança europeia como aquela que estamos a viver?”
Vamos precisamente já aí, a guerra na Ucrânia, as reformulações que a Europa está a fazer em virtude também de um recuo internacional da posição norte-americana. Recentemente esteve na Ucrânia O que é que colheu como situação política, sobretudo neste momento que o país vive?
Estive, de facto, em Kiev, na ocasião do terceiro aniversário da invasão injustificada da Federação Russa à Ucrânia. Aquilo que lhe posso dizer é que foi bastante surpreendente, o que me surpreendeu mais foi o otimismo do povo ucraniano, tive contactos com a sociedade civil e dos próprios agentes políticos. Estive com partidos da oposição, estive com partidos que apoiam o governo e há um otimismo e uma perseverança brutais. Isso, de facto, é bastante comovente e bastante surpreendente num país que está em guerra há três anos e que tem 20% do seu território ocupado. Esse otimismo foi extraordinário. Devo dizer-lhe que a perseverança do povo ucraniano, para mim, é algo que há poucas palavras para descrever. Depois também foi surpreendente, e acho que é uma boa lição para nós europeus, o facto do presidente ucraniano, com quem tive a ocasião de reunir, fui recebido por ele com muita honra, pelo facto do presidente Zelensky, que como sabe já foi várias vezes hostilizado pela nova administração norte-americana, até com ataques pessoais, ser o primeiro a dizer-nos não desistam da relação com os Estados Unidos da América.
Esse foi um pedido explícito que o presidente Zelensky nos deixou. Foi “por favor, não desistam da América, mesmo quando parece que a América pode estar a desistir de nós”. Porque o diagnóstico que o presidente faz, e o presidente tem informação diária sobre aquilo que acontece no teatro de operações e sobre o contexto político e de negociações diplomáticas internacionais, é que o contexto para a paz e para a segurança durante a paz é muito mais eficaz se contar com os Estados Unidos da América. Portanto, foi-nos pedido explicitamente, enquanto europeus, que não prescindíssemos da relação transatlântica. Isto já depois de Donald Trump ter, como se sabe, chamado o ditador ao presidente da Ucrânia.
Ao mesmo tempo, estão a ser negociadas matérias, como o acordo de minerais, neste momento, que é importante para os Estados Unidos, que foi alvo de argumento para a negociação e para a pressão diplomática também. A Europa consegue, mantendo uma relação com a administração Trump, ocupar este espaço ou não?
A Europa, no meu entender, tem procedido - a Europa é muitas vezes criticada por ausência, falta de força, falta de mobilização - no meu entender a Europa tem procedido neste novo contexto, que de facto é um novo contexto, com a nova administração americana, de uma forma prudente e inteligente. Repare que nós nunca provocamos, mas reagimos sempre. E procuramos sempre que a nossa reação não seja provocatória. Isto é, repare, quando foram anunciadas tarifas ao mercado europeu, a Europa respondeu no dia, com tarifas de volta aos Estados Unidos da América. Quando foi avaliada a possibilidade de os Estados Unidos da América avaliarem as sanções à Rússia, a União Europeia respondeu logo com o 16.º pacote de sanções à Rússia. Quando foi comunicado o fim do apoio militar e da partilha de alguns serviços, de algumas informações entre os Estados Unidos da América e a Ucrânia, a Europa imediatamente mobilizou-se com um novo pacote de financiamento e reindustrialização para a defesa europeia.
Nós temos sempre procurado reagir muito rapidamente e temo-lo feito como nunca tinha sido feito anteriormente. Isso parece-me positivo. Do lado da Ucrânia… eu, por acaso, tive a ocasião de reunir com a vice-primeira-ministra ucraniana que chefiou a delegação das negociações do acordo das terras raras, dos minérios, entre a Ucrânia e os Estados Unidos da América. Eu reuni com ela horas depois de o primeiro acordo. Para a primeira fase do acordo. Como sabe, o acordo está dividido em duas fases. A primeira fase é para o framework, para a moldura do acordo. A segunda fase é para a alocação e para o financiamento do acordo e para a conceção do fundo bilateral entre a Ucrânia e os Estados Unidos da América. Essa é uma segunda fase que ainda nem sequer foi negociada nem posta em prática. Neste momento era só a moldura conceptual do acordo. É preciso dizer uma coisa: a Ucrânia está interessadíssima em que o acordo aconteça. A Ucrânia sabe que é do seu interesse e do seu benefício geopolítico e económico que o acordo com os Estados Unidos da América sobre as terras raras aconteça. Está muito interessada mesmo.
E há outro dado que não foi tornado público, mas que eu posso partilhar aqui consigo, e que tem mais que ver com a segunda fase do acordo que está por acontecer, com a tal criação do fundo que vai explorar os recursos minerais em conjunto entre a Ucrânia e os Estados Unidos da América. É que a Ucrânia quer que a Europa, que países europeus e que aliados do G7 façam parte desse fundo, integrem esse fundo, participem na exploração dos minérios no território ucraniano. O acordo prevê que isso seja possível, desde que haja autorização ou acordo prévio das duas partes, portanto, da parte da Ucrânia e da parte dos Estados Unidos da América. Por isso é que é importante manter uma ponte com os Estados Unidos.
Não só pela questão da segurança militar, mas também por esta questão da reconstrução. E o governo ucraniano, de facto, tem um argumento que me parece relativamente plausível e racional que é: metade do orçamento de Estado da Ucrânia, neste momento, depende de contribuições europeias. A Europa, como sabe, e bem, está a financiar a reconstrução e o funcionamento do Estado ucraniano para ele sobreviver a esta invasão, para ele sobreviver a esta guerra. No processo de reconstrução, durante a paz, o facto da Europa manter esse cordão umbilical orçamental com a Ucrânia faz com que a própria Europa tenha interesse em participar neste fundo para a exploração dos recursos minerais na Ucrânia ao lado dos Estados Unidos da América. Então, a Ucrânia tem sido exemplar, no meu entender, em tentar manter e garantir a sobrevivência desse triângulo entre a Europa, os Estados Unidos da América e a própria Ucrânia.
A Ucrânia é apenas um dos casos onde há uma mudança de posição dos Estados Unidos. Há uma retração no financiamento de programas internacionais, uma série de agências. Isso terá um impacto significativo na origem, onde se apoia, por exemplo, a USAID. Europa, nesse caso, conseguirá, já vemos aqui que há a tal reação europeia com o Rearm Europe, por exemplo, também, mas tendo várias matérias sensíveis, é possível a Comissão, por exemplo, responder a todas estas solicitações que pode vir a ter no curto prazo?
Eu espero que sim e deixo aqui um alerta porque, de facto, a Comissão não irá conseguir fazer tudo ao mesmo tempo, mas nós, enquanto Estados-membros e eu, enquanto eurodeputado, posso advertir para essas prioridades, nomeadamente a questão do desenvolvimento e da ajuda externa. Se o André reparar... o primeiro-ministro britânico, quando anunciou o programa de rearmamento do seu país para antecipar o cumprimento das metas da NATO, portanto os 2%, agora previsivelmente 3% para o Reino Unido, antes de 2029, Keir Starmer fez uma escolha orçamental, que é desfinanciou toda a ajuda externa, a foreign aid do Reino Unido, e passou para o orçamento da Defesa, até levou à admissão da secretária de Estado do Desenvolvimento Internacional no Reino Unido. Portanto, no fundo, a Grã-Bretanha sacrificou o seu papel enquanto agente internacional de ajuda e desenvolvimento às democracias, à saúde pública de países em desenvolvimento, sacrificou essa ajuda externa em prol do robustecimento da sua estrutura de defesa. Nos Estados Unidos da América a escolha foi menos racional, mas também há um desfinanciamento acentuado da USAID e dessa ajuda externa. Eu acho que a Europa não pode cometer esse erro.
Nós não podemos desfinanciar a nossa presença no mundo para nos fortalecermos do ponto de vista da Defesa. Não podemos olhar para essa escolha como algo binário. Isso seria um risco geopolítico, porque permitiria a interferência dos nossos rivais sistémicos, sejam eles a Rússia, sejam eles a China, em países que querem ser democracias ou que querem ser mais democráticos e seria um risco para a nossa própria diplomacia, porque teríamos menos influência no mundo. E eu até lhe posso dizer que a Comissão Europeia, neste momento, já está a mapear, por exemplo, nos Balcãs Ocidentais, projetos democráticos estratégicos que foram desfinanciados pelos Estados Unidos da América e que a Europa quer proteger, nomeadamente para proteger democracias nos Balcãs Ocidentais que querem ser Estados-membros da União Europeia, e que são muito vulneráveis à pressão e à interferência russa, e já está a tentar protegê-los para os financiar esses projetos democráticos e de participação cívica. Agora, será sempre muito difícil que essas democracias sobrevivam enquanto democracias se nós caíssemos na tentação de ceder à pressão norte-americana de desregular o espaço digital, a nossa soberania digital, o que garantiria que a Rússia poderia interferir eleitoralmente com mais facilidade porque esses países e a própria Europa estariam mais vulneráveis a interferências informáticas através da inteligência artificial, através das redes sociais. Portanto, se nós desfinanciarmos os projetos de construção democrática em países extracomunitários e comunitários e se nós baixarmos as nossas barreiras digitais, estaremos a abrir portas a que a Rússia entre nas nossas democracias e nós não podemos permitir isso.
Estamos a entrar na fase final da nossa entrevista. Gostava ainda de fazer mais algumas questões sobre o seu percurso político especificamente. Eu estava a fazer a minha pesquisa para esta entrevista e encontrei um título do jornal Eco, de abril de 2024, em que o título era uma pergunta: “De jornalista e comentador a cabeça de lista. Sebastião Bugalho dá uma machadada na credibilidade do jornalismo”. O que é que responde a isto?
Eu acho que qualquer pessoa que tenha lido os meus artigos, os meus ensaios e que tenha assistido aos meus comentários, reconhece, concordando ou discordando das minhas posições, uma profunda liberdade, independência. Isto pode parecer um pouco inusitado recordar neste momento, mas eu três dias antes de Luís Montenegro me convidar para cabeça de lista assinei um artigo no Expresso intitulado “Esqueça isso”, e era um artigo crítico de algumas posições, ainda que moderadamente crítico, de Luís Montenegro. Portanto, eu nunca perdi a minha independência. Eu acho que, na verdade, a maior parte dos adversários ou até inimigos que ganhei no espaço público tinha que ver com isso, é que eu sempre a critiquei à esquerda e à direita.
Cruzou limites entre o jornalismo e aquilo que hoje sabemos ser o seu futuro político ou não?
Portanto, aquilo que eu gostava de dizer… o que eu lhe posso responder a isso? É que qualquer pessoa que tenha observado comentários, análises ou lido textos meus, sabe que eu não estava exatamente preso por amarras. Nem contra a minha área política, que eu nunca escondi, que não era socialista, era o que faltava, como em relação aos meus próprios adversários políticos do momento. Portanto, eu sempre fui uma pessoa bastante livre. Compreendo que os meus adversários políticos queiram criar essa narrativa de que isso não acontecia, mas eu acho que os espectadores, que os leitores, que as pessoas me conhecem, sabem que seria impossível que tivesse sido de outra forma. E também tenho de lhe dizer que essa é uma das coisas que eu mais aprecio no Luís Montenegro, é que ele também é uma pessoa independente, também é uma pessoa livre. André, repare como estamos a falar de um homem que foi líder da oposição contra António Costa, tornou-se primeiro-ministro, apoiou ativamente o mesmo António Costa para presidente do Conselho Europeu e meses depois nomeou Maria Luísa Albuquerque para comissária europeia, sendo que Maria Luísa Albuquerque, como se sabe, foi fortemente criticada por António Costa quando foi ministra das Finanças. Portanto, a alguém que consegue apoiar um adversário político para um cargo de liderança europeia, como Luís Montenegro fez, coisa que não era nada unânime no PPE, devo dizer-lhe. De seguida, com o total desprendimento, indicar Maria Luísa Albuquerque para Comissária Europeia, que está nos antípodas de António Costa, e convidar para cabeça de lista as europeias alguém que era crítico da sua liderança, que era o meu caso, que escrevi vários artigos críticos de Luís Montenegro, são públicos, não há forma de eu o esconder, nem tenho interesse nenhum em fazê-lo, é alguém profundamente livre e talvez seja essa liberdade que eu tenho e que sei que o primeiro-ministro de Portugal também tem, que faz com que tenhamos adversários tão ativos. Mas nós não temos razões para ter medo dos nossos adversários, nem nas urnas, nem no espaço público.
Hoje, ser militante do PSD é mais um passo numa ambição que já confessou, ou que não descarta, pelo menos, de um dia ser primeiro-ministro?
Não, eu nunca confessei essa ambição.
Não excluiu…
Não, porque repare, a minha missão é cumprir o meu mandato e entregar o programa eleitoral porque acho que as pessoas têm direito a verem cumpridas as promessas que lhes são feitas. É uma questão de seriedade e de compromisso público. Eu entrevistei cinco primeiros-ministros - André começou esta parte mais biográfica por falar do meu percurso jornalístico - eu entrevistei cinco primeiros-ministros. Comecei a trabalhar com 19 anos. Ganhei o ordenado mínimo. Fartei-me de trabalhar, fartei-me de trabalhar. E como entrevistei cinco primeiros-ministros, sei bem o que é que um primeiro-ministro tem de ter e o que é que um primeiro-ministro não pode ter. Sei as características que são necessárias para lidar com o país. Confesso que, com 29 anos não me julgo na posse, nem tenho a arrogância de me julgar na posse de ter essas características ou essas qualidades. Sei quem as tem e sei quem eu vou apoiar para esse cargo. Portanto, é isso que lhe posso dizer sobre a minha ambição.
Uma última questão apenas. Sente que a idade é um problema na política em Portugal, pergunto isto porque, por exemplo, Jordan Bardella, líder da extrema-direita em França, tem exatamente a sua idade. Para si, durante este percurso, sente que alguma vez foi desconsiderado por ser um jovem político?
Há mais de 1,2 milhões de portugueses que não concordam com essa leitura. Foram aqueles que votaram na Aliança Democrática há menos de um ano. Portanto, se fosse um problema, certamente não teria merecido a confiança deles.