Acreditar na vida depois da morte é algo de muito íntimo. E era algo muito impossível para este homem: Scott Janssen
Ele não acreditava em Deus nem na vida após a morte. Mas então tudo mudou
por John Blake (redator sénior da CNN e autor do livro de memórias premiado "More Than I Imagined: What a Black Man Discovered About the White Mother He Never Knew")
O coração de Scott Janssen batia acelerado. Ele respirava superficialmente. Não conseguia acreditar no que estava a ver, mas tentava esconder o choque.
Era um dia fresco de outono e Janssen estava a visitar Buddy, um cliente idoso, na sua pequena casa de tijolos numa rua sem saída em Durham, Carolina do Norte, EUA.
Buddy tinha acabado de perder May, com quem estava casado há 40 anos. Ela estava acamada e sofria de Alzheimer. Janssen, um assistente social de cuidados paliativos, visitava o casal há nove meses. Durante esse tempo, ele nunca ouviu May emitir um som e só a viu abrir os olhos uma vez.
Janssen também estava preocupado com Buddy. O homem era o único cuidador da esposa; o casal nunca teve filhos. Ele alimentava, dava banho e vestia May há anos, sem ajuda. Às vezes, ele abria a janela do quarto para que a esposa pudesse sentir o cheiro das flores do jardim que ele plantou lá fora para ela. Ele costumava conversar com ela enquanto trabalhava no jardim, contando histórias da vida que tinham vivido juntos.
Quando Janssen se sentou, percebeu que a depressão de Buddy tinha passado. Janssen perguntou-se porquê e procurou uma resposta.
"Ela estava a falar com os anjos", disse Buddy. "Na última hora, Deus deixou-me saber isso."
A referência de Buddy a Deus não surpreendeu Janssen. Buddy era um homem religioso que lia a Bíblia e frequentava a igreja.
Mas então Buddy fez uma pergunta inesperada a Janssen.
"Quer ver?"
Buddy foi a outra sala e voltou com fotos da esposa. Disse que a fotografou pouco antes de ela morrer. Janssen ficou intrigado quando viu a primeira foto de May. Ele viu-a a fazer algo que parecia impossível. Ao folhear mais fotos dos últimos momentos de May, a confusão transformou-se em espanto.
Então, Janssen questionou-se:
"O que é que está a acontecer aqui?"
Um embaixador improvável da vida após a morte
Flutuar em direção a uma luz brilhante no fim do túnel. Uma sensação repentina de felicidade. Um reencontro com entes queridos há muito perdidos. Estas são as características das experiências de quase morte. As pessoas que sobrevivem a esses momentos costumam descrevê-los como espiritualmente transformadores, algo que inspira a crença em Deus e na vida após a morte.
Mas o que Janssen viu nessas fotos foi outro tipo de suposta comunicação entre os vivos e os mortos. Chamam-se "visões no leito de morte" ou "visões no fim da vida". Uma visão no leito de morte é uma experiência em que uma pessoa moribunda, enquanto está acordada, interage com visitantes misteriosos, parentes falecidos ou figuras espirituais. Uma pessoa que está a aproximar-se da morte pode fazer perguntas enigmáticas como: "Quem eram aquelas pessoas simpáticas que me visitaram ontem à noite?" — quando não há qualquer registo de visitas ao hospital.
Para muitas pessoas com doenças terminais, essas visitas no leito de morte são mensagens de Deus que reduzem o medo da morte e oferecem garantias de que não estarão sozinhas quando partirem.
Mas essas visões no fim da vida não confortam apenas os moribundos. Podem também inspirar uma transformação espiritual nas pessoas que cuidam deles.
Quando Janssen se tornou assistente social num hospício há 33 anos, era ateu. Não falava sobre crenças espirituais com os pacientes. Quando eles pediam para rezar, Janssen recusava e mudava de assunto.
Ele também não acreditava em visitas no leito de morte.
"Eu achava que era tudo uma grande treta. Eu sabia sobre visitas ao leito de morte, mas achava que eram alucinações relacionadas com a doença, com a privação de oxigénio — devia ser a morfina."
E ele certamente não acreditava em Deus. Janssen era um existencialista que acreditava que uma pessoa, e não um deus, deve fornecer respostas para as grandes questões da vida.
"Eu não tinha um pingo de espiritualidade. Eu acreditava que a vida não tinha nenhum significado inerente. Não havia alma, nenhuma ordem moral ou espiritual abrangente, nenhuma vida após a morte ou recompensa por uma vida bem vivida."
Mas entretanto Janssen tornou-se um improvável embaixador das visões no leito de morte e experiências semelhantes. Publicou artigos sobre o assunto, participou em podcasts e escreveu vários livros, incluindo "Light Keepers", um romance que se baseia na sua história com experiências incomuns no fim da vida.
Janssen juntou-se à grande maioria dos americanos que, de acordo com uma investigação recente do Pew Research Center, dizem acreditar na existência da alma humana, na vida após a morte e em "algo espiritual além do mundo natural".
O que o mudou?
Janssen disse que foi preciso mais do que uma foto. Foi o culminar de "centenas" de encontros incomuns que teve ao longo dos anos com pacientes e ao ouvir relatos na primeira pessoa. Um deles começou quando um veterano de combate lhe perguntou: "Acredita em fantasmas?".
A pergunta assombrosa de um soldado
Um homem magro, com voz rouca e barbicha grisalha, Janssen vive numa casa arrumada de três quartos em Chapel Hill, Carolina do Norte, nos EUA, com a esposa, Sarah, uma psicoterapeuta. A casa deles parece ter sido projetada para promover a tranquilidade, com quartos organizados, móveis confortáveis e um fogão a lenha na sala de estar, perto de uma estátua em miniatura de Buda.
A carreira média de um enfermeiro de cuidados paliativos dura cinco anos, de acordo com Hadley Vlahos, enfermeira de cuidados paliativos, no seu recente livro de memórias best-seller, “The In-Between”. Janssen trabalha em cuidados paliativos há 33 anos. Atualmente com 62 anos, trabalha atualmente para um grande centro de saúde na Carolina do Norte, que o envia para lugares distantes em todo o estado. O seu Toyota Corolla prateado com matrícula deste ano já tem mais de 24 mil quilómetros.
Janssen diz que o seu trabalho revela o que é realmente importante na vida.
"Costumo perguntar às pessoas como querem passar o tempo que lhes resta. Ninguém diz 'só quero viver o suficiente para ver este projeto de lei aprovado ou a mudança no Senado'. Mais frequentemente, as pessoas dizem 'só quero segurar a mão da minha mãe', 'quero ouvir os meus netos a brincar na sala ao lado'."
Mas um paciente fez-lhe uma pergunta para a qual ele não tinha resposta.
O nome dele era Evan (Janssen usa pseudónimos para os ex-pacientes e familiares). Evan tinha mais de 90 anos e lutava contra o cancro colorretal há quatro anos. Sofria de depressão há muito, desde o tempo em que serviu num hospital de campanha na Segunda Guerra Mundial. Rezava pela morte.
Numa das suas visitas, Janssen percebeu que a melancolia de Evan parecia ter desaparecido. Perguntou porquê e Evan contou-lhe uma história da guerra.
Evan disse que participou numa batalha durante a Segunda Guerra Mundial que resultou em muitas baixas. Os feridos chegaram de comboio e ele passou grande parte daquele dia extremamente frio a transportar homens ensanguentados em macas para um hospital de campanha. Durante uma dessas viagens, Evan disse que estava exausto e que sua mão escorregou. O soldado na maca caiu ao chão, com vapor a sair dos intestinos enquanto eles escorriam. O soldado morreu à frente de Evan.
“Mais tarde naquela noite, eu estava na minha cama a chorar”, disse Evan a Janssen. "Não conseguia parar de chorar pelo pobre rapaz e por todos os outros que tinha visto morrer."
Evan olhou então para cima. Ele disse que viu um soldado sentado na ponta da cama. O soldado estava envolto em luz e, sem dizer nada, transmitiu-lhe que, por mais cruel que o mundo parecesse, "somos todos amados e conetados".
Evan disse que o soldado visitou-o várias outras vezes, mas deixou de o fazer depois de a guerra terminar.
Mas agora, mais de quatro décadas depois, o soldado estava de volta.
Evans contou a Janssen que o homem sentou-se na cama do próprio Evans na noite anterior e, desta vez, falou. "Ele disse-me que estava aqui comigo. Ele vai ajudar-me a superar a colina quando chegar a hora de partir."
Evan morreu pouco depois de contar essa história, conta Janssen.
Um pai moribundo recebe uma visita misteriosa
Inicialmente, essas histórias não inspiraram Janssen. Irritavam-no.
Tornou-se funcionário de um hospício para tornar este mundo melhor, não para refletir sobre o que viria depois. Janssen cresceu numa família católica irlandesa de classe média alta, interessada em questões de justiça social. Quando era adolescente, passou alguns anos numa escola privada exclusivamente para brancos antes de insistir com os pais para que o transferissem para uma escola pública racialmente integrada.
Janssen obteve um mestrado em História Americana e Serviço Social; trabalhou num abrigo para sem-abrigo com jovens infratores; esteve envolvido num programa de alfabetização antes de escolher o trabalho em hospícios. Via o seu trabalho como uma forma de servir as pessoas que tinham sido marginalizadas.
Mas Janssen via grande parte da religião como um instrumento de medo e controlo social. Ele podia ver isso em alguns de seus pacientes. Eles tinham pavor de um Deus vingativo. Alguns viam as próprias doenças terminais como um castigo divino e temiam ir parar ao inferno.
"Eu ouvia as pessoas a falar sobre 'rendição' espiritual e, naquela época, a minha resposta imediata era 'de maneira nenhuma: tu rendes-te, eu não'", conta Janssen.
Tom Beason, um capelão de hospício que trabalhou com Janssen no início dos anos 90, lembra-se de Janssen naquela época como uma pessoa reservada, irritada e indiferente às crenças espirituais.
"Ele não deixava as pessoas aproximarem-se", afirma Beason. "E ele não tinha medo de ficar irritado em frente a grupos de pessoas ou de ficar irritado connosco."
Mas Janssen continuava a ouvir histórias de pacientes sobre a vida após a morte — tanto de pacientes religiosos e como de não religiosos. E isso minava as crenças de Janssen.
Uma dessas histórias era de um jovem pai que estava a morrer de cancro no cérebro.
O homem estava deprimido. Não iria ver os filhos crescerem. Mas o humor do homem melhorou quando Janssen passou um dia pelo quarto dele no hospital. Quando Janssen perguntou o porquê daquela mudança positiva de humor, o homem deu uma resposta surpreendente.
"Ele disse 'bem, recebi a visita de um menino: tinha mais ou menos a idade do meu filho, parecia feliz e disse-me 'vai ficar tudo bem, estou aqui para te ajudar''."
O paciente disse ao menino que não estava pronto para partir porque um dos seus filhos estava prestes a fazer anos. Então, o menino concordou em voltar na terça-feira seguinte.
A depressão do homem desapareceu depois disso, conta Janssen.
"E adivinhe quando é que ele morreu." Pausa dramática. "Na terça-feira seguinte."
Uma série de fotos surpreendentes mudou a opinião de Janssen
Essas histórias podem parecer exageradas, mas a ciência pode explicá-las.
Muitos cientistas explicam que as visitas que pessoas que estão prestes a morrer dizem que têm e outros episódios semelhantes são causados por disfunções neurológicas. Não é incomum que pessoas próximas da morte experimentem "lucidez terminal", um fenómeno em que obtêm clareza mental repentina, reconhecem entes queridos e até falam com eles.
Janssen diz que estava familiarizado com essas explicações e acreditava nelas. Mas elas não conseguiam explicar tudo o que ele estava a ver e a ouvir.
Janssen cita as fotos da mulher moribunda que sofria de Alzheimer e que abriu este artigo — e foram essas fotos que o levaram a perguntar-se "o que é que está a acontecer aqui?".
Janssen afirma que Buddy, o marido da mulher moribunda, não era do tipo de pessoa que exagerava. Antes de se aposentar, era um homem que acordava às 3:30 para entregar laticínios às lojas.
Quando era jovem, Buddy conheceu aquela que seria a sua esposa assim - numa loja de produtos agrícolas e de jardinagem onde ela trabalhava. Durante semanas, Buddy tentou ter coragem para se apresentar, mas ficava sem palavras. Um dia, ela deu-lhe uma caixa de biscoitos que tinha feito para ele.
"O Buddy contou-me isto: 'Ela cansou-se de esperar que eu a convidasse para sair e achou que os biscoitos me deixariam saber que ela estava interessada'."
Janssen não viu essa versão de May nos últimos meses da vida dela. A mulher que ele conheceu não conseguia levantar a cabeça na cama sem ajuda. Os músculos do pescoço dela tinham perdido força. Ele só a via com a cabeça caída e a boca entreaberta. Ela estava quase completamente sem reação.
Mas as fotos que Buddy lhe mostrou revelaram outra May. Buddy disse que entrou no quarto deles quando ouviu uma agitação. Quando viu o que estava a acontecer, pegou na sua câmara e começou a tirar fotos. As imagens resultantes mostravam May sentada ereta na cama, gesticulando com as mãos para o que parecia ser uma pessoa invisível.
Buddy disse que ela também olhou para ele e agradeceu por cuidar tão bem dela enquanto estava doente. Ela então virou-se para uma pessoa invisível e disse "é lindo".
Buddy contou-lhe que, cerca de uma hora depois de tirar as fotos, May morreu.
Janssen disse que o que viu naquelas fotos não foi lucidez terminal.
"Ela estava a sorrir — os seus olhos estavam quase como um azul iluminado", recorda Janssen. "Eu estava em território desconhecido. O cérebro da mulher tinha sido progressivamente corroído pela demência avançada. As redes neurais tinham sido desestabilizadas. Como é que ela podia saber o que Buddy tinha feito? Como é que ela podia sequer reconhecê-lo?"
Janssen diz que há uma diferença entre visitas no leito de morte e alucinações induzidas por drogas, que são mais fragmentadas.
"Essas visitas no leito de morte tendem a ser tematicamente consistentes. Há um começo, um meio e um fim para a experiência. Alguém chega e diz 'estarei aqui contigo quando tu partires'."
O que convenceu Janssen, porém, não foi algo de que ele se lembrava. Foi algo que ele tentou esquecer.
Janssen tem um encontro pessoal com o desconhecido
Isto aconteceu depois da meia-noite, enquanto a neve caía do lado de fora do apartamento de Janssen, no interior do estado de Nova Iorque. Ele tinha 23 anos na época, era um estudante de pós-graduação cansado do departamento de História da Universidade de Syracuse. Janssen diz que estava na cama quando foi acordado bruscamente pelo som da sirene de uma ambulância.
Janssen não pensava naquela noite há anos. Mas um dos seus pacientes — o veterano da Segunda Guerra Mundial que viu a presença espectral ao lado do seu catre — desencadeou a lembrança quando lhe perguntou "alguma vez lhe aconteceu algo estranho?".
Janssen nunca tinha contado a ninguém o que lhe aconteceu naquela noite em Nova Iorque. Simplesmente não se encaixava na sua visão do mundo na altura, por isso esqueceu-se disso.
Agora ele estava a ser forçado a lembrar-se.
Depois de acordar naquela noite quando tinha 23 anos, ficou surpreendido ao identificar a origem das sirenes. Elas vinham do canto do seu quarto. Ele ouviu uma maca a percorrer o asfalto e um homem a dizer "traga-a aqui rapidamente".
Janssen foi até à janela mas não viu ninguém lá fora. Ele verificou as suas pupilas no espelho e fez equações matemáticas para ter certeza de que não estava a ter um colapso nervoso. Estava tudo normal nos testes que fez a si próprio.
Ele voltou a dormir, pensando que tinha sido um sonho vívido.
Continuando a história de quando Janssen tinha 23 anos: de manhã, acordou com um telefonema. Era o pai a dizer-lhe que o tio Eddie tinha morrido num acidente de carro. Janssen, surpreendido, perguntou quando é que o acidente tinha ocorrido. O pai disse a hora, que era exatamente a mesma em que Janssen tinha sido acordado pela sirene.
Mais tarde naquele dia, Janssen recebeu outro sinal. Um rádio com defeito em cima da mesa ligou-se de repente e começou a tocar "Let It Be", a canção dos Beatles inspirada num sonho que Paul McCartney teve sobre a perda da sua falecida mãe. Enquanto ouvia, Janssen disse que se sentiu invadido por uma sensação sobrenatural de paz e conforto. Os Beatles eram um dos grupos favoritos do seu tio.
Crenças desafiadas
Pergunta: após três décadas a cuidar de pessoas em fase terminal, no que é que Janssen acredita agora?
"Sempre que as pessoas me perguntam se acredito em Deus, eu digo que sim. Mas a palavra Deus significa tantas coisas diferentes para as pessoas", diz. "Acredito que existe uma energia ou força unificadora e consciente que nos conecta a todos. Acho que voltamos à nossa origem, que para mim é Deus."
Janssen explica que antes via a morte como um "predador invasivo" que o aniquilaria. Mas os seus pacientes ensinaram-lhe que a consciência humana sobrevive à morte física.
Agora Janssen também acredita noutra coisa - nas pessoas. Diz que o seu trabalho levou-o a reavaliar opinião sobre a espécie humana.
"É fácil entrar nessas casas e ver que tudo está destruído", diz Janssen sobre as suas visitas aos moribundos. "Mas passei a acreditar que, por baixo dessa superfície, por baixo do medo, temos um lugar interior de bondade, resiliência e capacidade de lidar e navegar por coisas que não pensávamos ser capazes. Há 33 anos que vejo as pessoas a fazerem isso."
Aqueles que conhecem Janssen há anos notaram uma mudança nele.
"Ele é muito menos crítico", diz Patricia Hoffman, irmã de Janssen. Conta que o irmão valoriza tanto a vida agora que remove insetos da casa ou cobras venenosas do quintal em vez de matá-los.
"Ele vê o lado bom em todas as pessoas. Ele tem a capacidade de ignorar todas as imperfeições e chegar ao âmago de quem somos."
Parte dessa mudança deve-se à sua esposa de Janssen, Sarah. Janssen credita à mulher ter sido ela a abrir a mente dele para a espiritualidade.
"Ele teve experiências poderosas ao trabalhar com pessoas em fase terminal, experiências que não conseguia explicar com sua antiga maneira de ver as coisas", diz Sarah Janssen. “Isso forçou-o a abrir-se de alguma forma para um reino mais invisível."
Um pedido final de oração
Essas experiências também forçaram Janssen a abrir-se para as pessoas de novas maneiras. Há uma história que ajuda a ilustrar essa mudança. É sobre outra visita que Janssen fez a um viúvo em luto, cerca de três anos depois de ter visto as fotos da mulher de Buddy.
Uma enfermeira ligou-lhe depois da meia-noite. Disse-lhe que Reba, uma das pacientes de Janssen, tinha falecido. O marido de Reba, Cliff, estava a passar por um momento difícil.
Janssen pegou no carro e conduziu no meio da noite até à casa do casal e encontrou Cliff ao lado do corpo de esposa, na cama. Dois homens corpulentos em fatos escuros estavam na casa prestes a levar o corpo de Reba para uma funerária quando Janssen percebeu que Cliff estremeceu.
Janssen perguntou a Cliff se queria alguns momentos finais a sós com a esposa.
“Podemos fazer uma oração primeiro?”, respondeu Cliff.
O grupo — Cliff, dois dos seus filhos, Janssen e os homens da funerária — formou um círculo em torno da cama de Reba. Deram as mãos e baixaram a cabeça. Ninguém disse nada.
Cliff apertou a mão de Janssen e pediu-lhe que conduzisse o grupo numa oração.
Janssen engoliu em seco. No início da sua carreira no hospício, como um jovem ateu que achava que só pessoas medrosas precisavam de um deus, ele teria recusado. Teria mudado de assunto.
Mas ele viu a dor no rosto de Cliff.
Janssen fechou os olhos e improvisou.
"Querido Deus", ouviu-se dizer. "Agradecemos-Te pela vida da Reba e pelas vidas que ela tocou..."
Quando terminou, pensou que tinha estragado a oração. Gaguejou demais. Abriu os olhos e viu Cliff a aproximar-se dele.
Cliff deu a Janssen um forte abraço. Cliff honrou-o de uma forma que Janssen nunca tinha experimentado antes.
Cliff chorava enquanto falava.
"Obrigado", disse Cliff, "obrigado, irmão Scott".
