Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

Uma doença ocular parasitária que causa cegueira afeta principalmente quem usa lentes de contacto. Saiba como evitá-la

CNN , Kristen Rogers
22 mar, 19:00
Acanthamoeba

Há quatro anos, Teresa Sanchez estava no México para um procedimento médico, quando começou a sentir uma sensação de secura e pontadas no olho direito.

Ela atribuiu isso a um possível rasgo na sua lente de contacto, à secura geral que sentia desde que começou a usar lentes mensais em vez de diárias ou ao facto de o seu corpo estar possivelmente a combater uma doença.

Mas o que ela não saberia por mais três meses era que um pequeno invasor estava a travar uma guerra contra a sua córnea, destruindo permanentemente a sua visão e causando uma dor intensa e ardente que se espalhava por toda a sua cabeça.

“Eu não podia abrir as persianas do meu quarto, porque isso provocava uma dor muito forte no meu olho”, recorda Teresa Sanchez, 33 anos, residente em Las Vegas, sobre um momento angustiante, após cerca de três meses de diagnósticos errados por oftalmologistas. “Foi assim que percebi que era algo sério e comecei a fazer a minha própria pesquisa”.

Teresa descobriu online que os seus sintomas pareciam consistentes com os de uma doença rara, a ceratite por Acanthamoeba. Um oftalmologista confirmou posteriormente a suspeita a sua suspeita. A ceratite refere-se à inflamação da córnea, a camada externa protetora do olho, em forma de cúpula, que desempenha um papel fundamental na visão.

A Acanthamoeba, vista na sua forma ativa, é um organismo microscópico invisível ao olho humano. (Kateryna Kon/Science Photo Library RF/Getty Images)

A Acanthamoeba, um organismo unicelular que não precisa de um hospedeiro para sobreviver e é comumente encontrado em fontes de água e solo, é um dos muitos patógenos ou micróbios que podem causar ceratite, explica Jacob Lorenzo-Morales, professor de parasitologia da Universidade de La Laguna, Espanha, em declarações por email à CNN.

Uma vez que o parasita oportunista está na superfície do olho, ele adere à córnea, acrescenta Paul Barney, médico optometrista e diretor do Pacific Cataract and Laser Institute em Anchorage, Alasca. Se houver rupturas no epitélio da córnea -  uma fina camada de barreira de células extremamente sensíveis à dor - elas permitem que o parasita penetre na córnea, sublinha o optometrista.

A ceratite por Acanthamoeba é uma doença rara, diz ainda Paul Barney, que também é administrador da American Optometric Association. Há mais de 23 mil casos por ano em todo o mundo, de acordo com dados de 2023 de apenas 20 países, incluindo Brasil, Canadá, Reino Unido, Índia e Estados Unidos.

Mas vale a pena notar que cerca de 85% a 95% das pessoas que são infetadas usam lentes de contacto, o que cria condições favoráveis para a Acanthamoeba. As lentes de contacto podem causar abrasões na córnea que fornecem ao patógeno um ponto de entrada. A Acanthamoeba também pode apanhar boleia na superfície de uma lente ou ficar presa entre a lente e o olho, tornando possível uma penetração mais profunda.

Ter ceratite por Acanthamoeba “pode ser bastante devastador se não for diagnosticado prontamente e tratado de forma agressiva”, alerta Paul Barney. “Basicamente, ela usa a córnea como fonte de alimento, o que causa inflamação e danos aos tecidos e, eventualmente, pode causar perda permanente da visão”. A visão de alguns pacientes pode ser parcialmente restaurada com o tratamento adequado ou totalmente recuperada com um transplante de córnea.

O parasita resistente também está altamente sintonizado com as ameaças e responde com mecanismos de defesa muito desenvolvidos, prolongando um processo de tratamento que já dura meses ou anos e muitas vezes é repleto de outros obstáculos e dor. Por causa da extraordinária resiliência da Acanthamoeba e à sensibilidade do olho, é crucial trabalhar em estreita colaboração com o seu oftalmologista e seguir as suas orientações.

Um caminho difícil para o diagnóstico

O diagnóstico precoce da ceratite por Acanthamoeba pode ser desafiante por alguns motivos.

A raridade da condição significa que muitos oftalmologistas não a conhecem - o que provavelmente explica por que muitos utilizadores de lentes de contacto nunca ouviram falar da ceratite por Acanthamoeba até contraírem a doença ou verem posts virais nas redes sociais sobre ela, como o vídeo do TikTok de Sanchez. Muitos internautas que usam lentes de contacto confessam, nos comentários a essas publicações, que ficaram chocados por nunca terem sido alertados pelos oftalmologistas ou pelas letras pequenas nas embalagens das lentes de contacto sobre não tomar banho ou nadar enquanto usam lentes de contacto.

A Contact Lens Society of America (CLSA) diz, num email enviado à CNN, que “as lentes de contacto são dispositivos médicos e as instruções de cuidados e higiene, incluindo evitar o contacto com água enquanto nada, toma banho ou dorme, são uma parte importante dos cuidados de rotina com as lentes de contacto”. A CLSA é uma rede de membros da área de cuidados oftalmológicos e da indústria de fabrico e serviços de lentes de contacto.

A sociedade acrescentou que “incentiva uma comunicação clara e contínua por parte dos fornecedores e o envolvimento ativo dos pacientes, incluindo fazer perguntas, rever materiais escritos e discutir quaisquer incertezas sobre o uso seguro das lentes de contacto”.

Além da dor, sensibilidade à luz e visão obscurecida, a ceratite por Acanthamoeba também pode provocar vermelhidão, secura, lágrimas excessivas e sensação de corpo estranho no olho.

A falta de conhecimento sobre a doença e alguns sintomas da ceratite por Acanthamoeba que imitam os de outras infeções da córnea facilitam o diagnóstico errado dos pacientes pelos oftalmologistas, diz Paul Barney. O diagnóstico errado mais comum é a ceratite por herpes simplex, uma das principais causas de cegueira induzida por infeção.

Nos estágios iniciais, a ceratite por Acanthamoeba pode até parecer conjuntivite, que foi o diagnóstico feito pelo seu oftalmologista, quando Teresa Sanchez o consultou, cerca de um mês após começar a apresentar os sintomas.

Consequentemente, os tratamentos prescritos incorretamente podem ser ineficazes na melhor das hipóteses e prejudiciais na pior, enquanto o parasita destrói ainda mais a córnea. As gotas para conjuntivite viral turvaram a visão de Teresa, conta ela. Um segundo oftalmologista achou que Teresa tinha conjuntivite bacteriana. As gotas antibacterianas funcionaram durante algum tempo, antes de ela perder completamente a visão no olho infetado.

Grace Jamison, uma jovem de 20 anos do oeste dos Estados Unidos, teve uma experiência semelhante. Grace desenvolveu ceratite por Acanthamoeba em ambos os olhos depois de usar lentes de contacto enquanto tomava banho na República Dominicana, em maio do ano passado. Quando regressou a casa, várias semanas depois, o seu oftalmologista diagnosticou-a incorretamente e prescreveu-lhe colírio com esteróides. Após apenas mais uma semana, Grace ficou cega e permaneceu assim durante cerca de dois meses, antes de iniciar o tratamento adequado.

“Muitas vezes, não percebemos como a vida é boa ou como há tantas coisas que podem dar errado”, diz Grace. “É muito triste não apreciarmos o que temos quando o temos. Quando fiquei completamente cega em ambos os olhos, arrependi-me de não ter aproveitado o facto de poder ver antes”.

“Arrependi-me de não ter passado menos tempo em frente aos ecrãs, apenas a olhar para a beleza do exterior ou para as pessoas que conheço e amo”, exemplifica

A causa da visão turva de Grace Jamison é o dano causado por uma resposta inflamatória ao agente patógenico.

O olho de Grace Jamison nos estágios iniciais da ceratite por Acanthamoeba. (Cortesia Grace Jamison)

 

No mesmo olho, a doença progride até causar cicatrizes e visão turva. (Cortezia Grace Jamison)

“Há momentos em que fico muito triste e gostaria que meu olho direito não parecesse não ter pupila”, confessa Grace Jamison. “E, ocasionalmente, há pessoas em público que me perguntam: ‘O que se passa com o seu olho?’”.

Usar lentes de contacto com segurança

Quer reduzir as suas hipóteses de contrair ceratite por Acanthamoeba? Ao limpar e guardar as lentes de contacto, use sempre solução para lentes de contacto comprada em lojas ou prescrita por um médico, em vez de água, dizem os especialistas. A solução no estojo das lentes de contacto também deve ser trocada todos os dias.

Lavar e secar as mãos antes de colocar as lentes de contacto é importante para prevenir infeções oculares de várias origens. Nunca use as lentes enquanto dorme, pois isso pode causar secura, irritação, abrasões e retenção de germes que podem levar a infeções graves. Usar lentes de contacto descartáveis diárias em vez de mensais também pode reduzir o risco de infeções.

Se praticar atividades aquáticas sem usar lentes de contacto não for seguro para si, pode experimentar óculos ou óculos de proteção com prescrição médica. Mas essa preocupação também pode ser um bom motivo para discutir a cirurgia de correção da visão com o seu médico, aconselha Ashley Brissette, oftalmologista da Kelly Vision, um centro de cirurgia LASIK e de catarata na cidade de Nova Iorque.

Esses procedimentos incluem Smile, PRK (ceratectomia fotorrefrativa) ou LASIK - todas cirurgias a laser - e EVO ICL, que significa “lente colamer implantável de evolução”, explica Ashley Brissette. Cada uma dessas cirurgias tem os seus prós e contras, acrescenta, e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra, dependendo do formato dos olhos, da saúde e da prescrição. Ashley Brissette submeteu-se ao LASIK e considerou que foi “uma mudança de vida”, confessa.

As chaves para um diagnóstico adequado

O diagnóstico preciso da ceratite por Acanthamoeba começa com uma análise cuidadosa do histórico recente do paciente em relação ao uso de lentes de contacto e aos hábitos de cuidados com as lentes, diz Paul Barney.

Existem alguns testes, incluindo raspagem da córnea com lâmina, esfregaço ou biópsia, que podem ser processados em laboratório através de cultura ou teste de reação em cadeia da polimerase (PCR), que diagnostica com base nas informações genéticas do organismo, explicam os especialistas. A microscopia confocal, uma técnica avançada de imagem, permite que os profissionais vejam a ameba na córnea depois de ela se encapsular como um quisto, acrescenta Paul Barney. Nesta forma, o organismo pode permanecer dormente por meses ou anos em resposta a ambientes hostis, incluindo aqueles criados pela resposta imunológica do hospedeiro humano ou medicamentos destinados a matar o parasita.

No entanto, esses testes, especialmente os mais avançados, não estão prontamente disponíveis em todos os lugares, assim como os especialistas que os administram, ressalva o especialista. Os testes geralmente são encontrados em ambientes universitários ou conduzidos por especialistas em córnea, e não há assim tantos.

Não obter um diagnóstico preciso até consultar um especialista em córnea, como nos casos de Teresa Sanchez e Grace Jamison, é uma experiência comum para pacientes com ceratite por Acanthamoeba.

Se tiver algum sintoma preocupante e souber que recentemente se envolveu num comportamento de alto risco, consulte um especialista em córnea o mais rápido possível, recomendam as fontes.

“O reconhecimento precoce pode realmente ajudar a melhorar os resultados”, sublinha Ashley Brissette.

Os desafios de matar um parasita

Tentar matar uma Acanthamoeba enquanto protege o olho é complicado. Os tratamentos de primeira linha são colírios antiamebianos, como clorexidina, isetionato de propamidina, hexamidina ou PHMB, que não é licenciado em alguns países, incluindo os Estados Unidos, diz Jacob Lorenzo-Morales. Alguns destes colírios, especialmente a clorexidina, podem causar dor intensa devido aos efeitos tóxicos na córnea, aumentando a agonia que o parasita já está a causar. Daí a necessidade de novos tratamentos, acrescenta o especialista.

“Os colírios são muito, muito dolorosos, mas não é uma dor profunda. É mais superficial, como se estivesse extremamente sensível e seca”, conta Hannah, uma mulher de 26 anos que tem ceratite por Acanthamoeba desde setembro de 2024. Hannah pediu que seu sobrenome não fosse divulgado por motivos de privacidade.

A ceratite por Acanthamoeba causa vermelhidão no olho de Hannah. (Cortesia de Hannah)

No entanto, o tratamento não foi tão mau quanto a dor da infeção em si, que causou a Hannah “a pior enxaqueca da minha vida”, como descreveu. “Eu ficava no chão da minha casa de banho em posição fetal, a chorar e a vomitar”.

Às vezes, os pacientes recebem prescrição de dois tipos de medicamentos simultaneamente e devem aplicar várias gotas de cada um a cada meia hora ou hora, durante dias ou semanas, antes de poderem começar a reduzir a dosagem e a frequência.

“Tem sido horrível”, descreve Grace Jamison sobre o seu tratamento nos últimos quatro meses. “Temos que obter (os colírios) especialmente manipulados, e eles têm que estar sempre refrigerados, porque não contêm conservantes”.

Hannah mantém um minifrigorífico ao lado da cama e uma bolsa térmica à mão para minimizar a interferência do tratamento no seu sono, nas tarefas diárias e na vida social.

Às vezes, quando o olho de um paciente apresenta cicatrizes, redução da espessura ou perfuração da córnea, é necessário um transplante de córnea, diz Ashley Brissette, que também é porta-voz da Academia Americana de Oftalmologia.

“A cicatriz no meu olho direito está precisamente no centro da minha visão e cobre toda a minha pupila”, relata Grace Jamison. Grace diz que o seu médico estava a procurar uma lente escleral, feita de plástico respirável: “Isso é para, com sorte, reduzir a cicatriz e torná-la mais lisa, o que poderia ajudar a melhorar a minha visão”.

Grace ainda tem de passar por mais um ano de tratamento, mas a sua visão melhorou ligeiramente. Com o olho direito, Grace vê principalmente branco, ou formas ou luzes quando aperta os olhos. Ela tem de aproximar muito o rosto do que está a ler e não pode conduzir.

Mas a sua visão nunca será melhor do que 20/40, a menos que ela faça um transplante de córnea. Essa não é uma solução imediata. Ainda é necessário um pouco da córnea do próprio paciente para o transplante. E há o risco de os parasitas ficarem dormentes por anos antes de se reativarem e destruírem a nova córnea. Portanto, os médicos devem primeiro deixar o olho do paciente sem tratamento por pelo menos vários meses para garantir uma cicatrização suficiente.

Teresa Sanchez fez um transplante de córnea em outubro, cerca de dois anos e meio após contrair ceratite por Acanthamoeba. Desenvolveu uma catarata que foi removida em outubro deste ano. “Até agora, minha visão está 20/20”, relata. “Sinto-me muito, muito abençoada por este resultado”.

Hannah recuperou-se em grande parte, mas precisa de continuar o tratamento durante mais alguns meses e a sua visão num olho está muito mais turva do que no outro, conta.

 

“É difícil, mas aguente firme”

Para as pessoas em tratamento para ceratite por Acanthamoeba, o “maior conselho” de Teresa Sanchez é que confiem nos seus médicos, sejam pacientes e não comparem a sua jornada com a de outros doentes.

“Fiquei zangada com o facto de os meus médicos não quererem seguir o caminho mais rápido e fazer o transplante mais cedo, fazer a cirurgia de catarata mais cedo”, confessa Teresa. “Mas estou feliz por ter confiado neles, porque se não tivesse confiado, acho que não teria alcançado uma visão 20/20, mesmo que isso tenha acontecido três anos depois”.

Hannah e Teresa também recomendaram participar num grupo de apoio online, o que pode ser útil emocionalmente, mas também na prática. Os membros dos seus grupos sugeriram médicos para ajudar a acelerar o diagnóstico e os planos de tratamento ou aconselharam maneiras de lidar com os efeitos da doença.

“Sei que é difícil, mas aguente firme. Vai melhorar”, diz Hannah, embora o que é “melhor” varie para cada paciente.

Inspire-se com um resumo semanal sobre como viver bem, de forma simples. Inscreva-se no boletim informativo Life, But Better da CNN para obter informações e ferramentas destinadas a melhorar o seu bem-estar.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Saúde

Mais Saúde