Todos os dias, milhares de pessoas saem de uma consulta médica com um plano terapêutico definido, mas uma parte significativa nunca chega a iniciar esse tratamento, interrompe-o ao fim de pouco tempo ou não o cumpre como foi prescrito. A não adesão à terapêutica tornou-se um dos maiores desafios da saúde pública, comprometendo o controlo das doenças, aumentando o risco de complicações e conduzindo a internamentos que poderiam, em muitos casos, ser evitados.
Para encontrar soluções, é essencial compreender as causas deste problema. Em muitos casos, estas começam no próprio doente. A falta de literacia sobre a sua doença e a terapêutica são uma das principais barreiras. Persistem mitos, receios e falsas convicções em relação a medicamentos, efeitos secundários, doenças crónicas, levando muitas pessoas a interromper ou abandonar a medicação. A experiência clínica mostra-nos também que o esquecimento continua a ser um motivo frequente para falhas na toma da medicação.
Acresce que algumas doenças evoluem durante anos sem apresentarem sintomas. Esta ausência de sinais cria uma falsa sensação de segurança, levando alguns doentes a sentirem-se bem sem a medicação e a interromper o processo terapêutico. No entanto, é precisamente nestas situações que a terapêutica é mais importante, para prevenir complicações futuras.
Existe ainda um problema que começa antes mesmo da primeira toma: a falta de adesão primária. Na Região de Lisboa, apenas cerca de 60% das prescrições são levantadas na farmácia. Isto significa que uma parte significativa dos doentes nunca inicia o tratamento recomendado, comprometendo desde logo os seus resultados em saúde.
No entanto, nem todas as causas da falta de adesão à terapêutica podem ser atribuídas ao doente. O próprio sistema de saúde enfrenta limitações que dificultam uma verdadeira promoção da adesão à terapêutica. Consultas com tempo reduzido, elevada pressão assistencial e um acompanhamento insuficiente dificultam uma comunicação clara, personalizada e adaptada às necessidades de cada pessoa. Explicar uma doença crónica, esclarecer dúvidas, desmontar receios e promover o compromisso com o tratamento exige tempo e continuidade.
Perante estes fatores, como podemos colmatar a não adesão à terapêutica? O segredo passa por envolver o doente como parceiro ativo nos seus cuidados de saúde. Quando compreende a sua doença, conhece os benefícios da terapêutica e participa nas decisões, aumenta o seu compromisso e a sua responsabilidade na gestão da própria saúde.
Mas esta responsabilidade deve ser partilhada. A família desempenha um papel essencial através do apoio diário e de pequenos gestos, como um simples lembrete para a toma da medicação. Também enfermeiros e farmacêuticos comunitários podem dar um contributo decisivo na educação para a saúde, no acompanhamento dos doentes e na identificação precoce de dificuldades.
Além disso, devemos também simplificar o processo terapêutico, recorrendo a terapêuticas combinadas que reduzam o número de comprimidos. As ferramentas digitais podem igualmente ser aliadas importantes ferramentas para promover a regularidade do tratamento e reforçar a monitorização.
No entanto, nenhuma destas medidas substituirá a importância da literacia em saúde. Investir numa informação clara, acessível e baseada na evidência é uma das formas mais eficazes de combater a desinformação, aumentar a confiança nos tratamentos e melhorar a adesão. Centros de saúde, hospitais, farmácias, escolas, comunicação social e associações de doentes devem trabalhar em conjunto para criar uma cultura de maior conhecimento e responsabilização.
Em suma, melhorar a adesão à terapêutica não significa apenas que mais pessoas tomem a medicação prescrita. Significa prevenir doença, evitar complicações, reduzir internamentos e permitir que mais pessoas vivam durante mais tempo com melhor qualidade de vida.
