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Psicóloga Clínica, Especialista em Luto

Quando a perda fica sem resposta

31 ago, 08:47
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Há perdas que podem ser confirmadas. Há outras que deixam as pessoas em suspenso, à espera de uma resposta que pode nunca chegar. E há tragédias tão violentas que, mesmo quando sabemos quem morreu, deixam quem sobreviveu sem saber ainda como continuar a viver.

O que está a acontecer no Nepal lembra-nos uma realidade que facilmente esquecemos quando olhamos para uma catástrofe à distância: o momento da tragédia pode ser breve, mas as suas consequências emocionais podem acompanhar uma pessoa durante toda a vida.

Perante uma catástrofe, contamos mortos, procuramos desaparecidos, identificamos vítimas, reconstruímos casas e infraestruturas. Tudo isso é indispensável. Mas existe uma outra reconstrução, silenciosa, que não aparece nas imagens: a das pessoas que ficam e têm de aprender a viver com uma ausência.

Quando uma família não sabe se alguém morreu, sobreviveu ou permanece desaparecido, o sofrimento assume uma particular complexidade. Falamos de perda ambígua: uma ausência física que não é acompanhada pela certeza da morte. E essa incerteza pode impedir o próprio início do processo de luto. Para integrar uma perda, precisamos, de alguma forma, de conseguir reconhecer a sua realidade. Quando não existe confirmação, existe um vazio de informação e a pessoa fica suspensa entre a esperança de um reencontro e a possibilidade de uma morte.

É também por isso que os rituais de despedida são tão importantes. Um funeral, uma cerimónia, a identificação ou o repatriamento não são apenas formalidades. São formas de reconhecer a morte, de simbolizar a perda e de permitir que a comunidade a reconheça também. Quando esses momentos não são possíveis, é necessário encontrar outras formas de dar lugar à despedida.

Sabemos que uma catástrofe deixa sempre marcas em quem sobrevive. Quando alguém permanece vivo enquanto uma pessoa que ama morreu, podem surgir emoções difíceis de conciliar: alívio, culpa, tristeza, revolta ou vergonha. A pergunta “porquê eu?” pode tornar-se persistente. A chamada culpa do sobrevivente é uma resposta humana perante uma experiência extrema e, quando não é acolhida, pode contribuir para sofrimento psicológico prolongado.

É por isso que a saúde mental não pode ser remetida para um “depois”. Nas primeiras horas, garantir segurança, abrigo, alimentação e cuidados médicos é naturalmente prioritário. Mas os primeiros socorros psicológicos, como escutar, estabilizar, ligar as pessoas às suas redes de apoio e facilitar o acesso à informação, devem fazer parte da própria resposta de emergência.

E existe uma responsabilidade que é de todos nós: saber acompanhar.

O luto não tem calendário. Não termina porque passaram algumas semanas, porque a comunicação social deixou de falar da tragédia ou porque a vida dos outros retomou a normalidade. Muitas vezes, quando as câmaras partem e a mobilização inicial desaparece, começa uma fase mais silenciosa e solitária para quem ficou. É aí que a presença continuada pode fazer toda a diferença.

Não precisamos de ter as palavras certas. Precisamos de disponibilidade. De perguntar “como estás?” e estar preparados para ouvir a resposta. De não apressar quem sofre, de não dizer “tens de ser forte” ou “tens de seguir em frente” e de compreender que falar sobre quem morreu pode continuar a ser uma necessidade muitos meses ou anos depois.

O luto não é uma doença. É uma resposta humana à perda. Mas a violência da experiência, a incerteza, a ausência de despedida, a culpa ou o isolamento podem tornar esse caminho particularmente difícil. Quando o sofrimento se torna persistente e incapacitante, é importante procurar apoio especializado.

A tragédia do Nepal será inevitavelmente medida em números. Mas cada número corresponde a uma pessoa, a uma família, a uma história e a uma ausência.

Perante uma perda, talvez a pergunta mais importante não seja “quando vai passar?”, mas “como podemos estar presentes enquanto a pessoa aprende a viver com ela?”.

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