Antidepressivos e gravidez: o que os futuros pais devem saber sobre os riscos de PHDA e autismo

CNN , Kristen Rogers
4 jun, 18:00
Os antidepressivos são considerados, em geral, seguros e eficazes no tratamento da depressão, ansiedade e outros distúrbios. (gpointstudio/Getty Images)
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Especialistas destacam que a toma de medicamentos antidepressivos durante a gravidez deve ser avaliada pelas pacientes e pelos médicos que as seguem

As preocupações sobre se os antidepressivos causam danos aos fetos em desenvolvimento, incluindo distúrbios do desenvolvimento neurológico, têm vindo a aumentar nos últimos anos.

Agora, um grupo de investigadores publicou as melhores evidências até à data sobre as ligações entre o uso de antidepressivos por ambos os pais antes e durante a gravidez e o autismo e o transtorno de défice de atenção e hiperatividade nos seus filhos. O grande estudo descobriu que para a maioria dos antidepressivos, a exposição durante qualquer um dos períodos acabou por ter pouca ou nenhuma associação com as condições, uma vez que os autores consideraram outros fatores influentes.

As evidências resultam de uma revisão e meta-análise de 37 estudos anteriores, incluindo mais de 600 mil mulheres grávidas a tomar antidepressivos e quase 25 milhões de gravidezes sem uso de antidepressivos. O relatório foi publicado a 14 de maio, na revista The Lancet Psychiatry.

Inicialmente, os autores descobriram que o uso materno de antidepressivos durante a gravidez estava associado a um risco 35% maior de PHDAe a um risco 69% maior de autismo sem deficiência intelectual. O uso dos medicamentos pelo pai foi associado a um risco 46% maior de PHDAe a um aumento de 28% no risco de autismo. No entanto, quando os investigadores ajustaram os resultados para outros fatores que podem afetar o risco das condições, conhecidos como fatores de confusão - tais como influências genéticas e familiares e as razões para tomar antidepressivos - a maioria das ligações enfraqueceu significativamente ou desapareceu. O risco de autismo diminuiu para cerca de 15%.

“Este padrão sugere fortemente que as taxas mais elevadas de PHDA e autismo observadas em grupos previamente expostos são em grande parte impulsionadas pela vulnerabilidade subjacente destas mães e famílias”, afirmou Wing Chung Chang, coautor sénior do estudo e professor clínico de psiquiatria na Universidade de Hong Kong, em declarações enviadas à CNN por e-mail.

Os antidepressivos “são o principal tratamento medicamentoso para o transtorno depressivo”, que afeta mais de 10% das mulheres grávidas em todo o mundo, acrescentou Wing Chang. Grande parte do debate em torno dos riscos potenciais tem-se centrado nos inibidores seletivos da recaptação da serotonina, conhecidos como ISRS (Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina) e que constituem a classe mais prescrita de antidepressivos.

“Esta preocupação foi amplificada pelas discussões do painel de especialistas da FDA, em julho de 2025, sobre o possível reforço das advertências relativas aos ISRS na gravidez, destacando riscos potenciais como autismo, aborto espontâneo e malformações congénitas”, afirmou Wing Chang. As organizações médicas criticaram amplamente as declarações feitas durante o evento organizado pela Food and Drug Administration dos EUA por serem “alarmantemente desequilibradas” e por negligenciarem “o reconhecimento adequado dos danos causados pelos transtornos de humor perinatais não tratados”.

Estudos anteriores resultaram num conjunto de evidências inconsistente e foram limitados por amostras de pequena dimensão e pela medição insuficiente de fatores de confusão, afirmou Wing Chang. Além disso, até agora, nenhuma revisão avaliou de forma abrangente os efeitos potenciais da classe de antidepressivos, de antidepressivos específicos, da dose da medicação e do uso de antidepressivos tanto pela mãe como pelo pai pouco antes ou durante a gravidez, acrescentou. Estas lacunas, bem como os benefícios significativos dos antidepressivos e os riscos da depressão não tratada, orientaram a investigação dos autores.

Eles também queriam “ajudar os médicos e os pacientes a fazer escolhas informadas”, acrescentou Chang.

Tomar decisões sobre o tratamento

Os especialistas compreendem que o impacto potencial dos medicamentos psiquiátricos nas crianças “é naturalmente uma fonte de preocupação tanto para os pais como para os médicos que os prescrevem”, afirma, também por e-mail, Jonathan Alpert, titular da Cátedra Dorothy e Marty Silverman do departamento de psiquiatria e ciências comportamentais do Montefiore Medical Center, em Nova Iorque.

“A gravidez é inevitavelmente um período de maior preocupação com a saúde da própria mulher e do feto”, acrescentou Jonathan Alpert, que não participou no estudo.

As pessoas que planeiam ter filhos ou aquelas que já estão grávidas devem saber que as conclusões do estudo confirmam as diretrizes clínicas atuais, que geralmente apoiam a continuação do tratamento com antidepressivos durante a gravidez, quando necessário, reforça Wing Chang. “As nossas conclusões não fornecem evidências sólidas de que a exposição pré-natal a antidepressivos cause distúrbios do desenvolvimento neurológico”.

Quando houver preocupação, pacientes e médicos devem ter discussões aprofundadas que incluam a ponderação “dos potenciais riscos pequenos da medicação continuada contra os riscos substanciais da depressão materna não tratada e tomar uma decisão cuidadosamente ponderada e individualizada”, sublinha Wing Chang.

Além dos impactos da depressão não tratada na própria mãe, as crianças em desenvolvimento também correm risco de prematuridade e baixo peso à nascença, bem como de taxas mais elevadas de impulsividade, problemas de socialização e dificuldades cognitivas, comportamentais e emocionais mais tarde. Problemas de saúde mental perinatal podem levar a alterações no metabolismo da serotonina, disfunção placentária e inflamação e alterações na estrutura cerebral fetal, afirma Nancy Byatt, psiquiatra perinatal, em declarações por e-mail.

As condições de saúde mental também causaram quase 28% das mortes maternas relacionadas com a gravidez em 2022, um aumento em relação aos 23% registados entre 2017 e 2019, acrescenta. Nancy Byatt, que não esteve envolvida no estudo, é também diretora executiva do Lifeline for Families Center e do Lifeline for Moms Program, além de professora na UMass Chan Medical School.

Se a decisão for parar de tomar antidepressivos, isso só deve ser feito gradualmente, com acompanhamento clínico rigoroso e enquanto se praticam outras formas de ficar ou manter-se bem, ressalva Jonathan Alpert. A síndrome de abstinência de antidepressivos pode ser particularmente angustiante quando combinada com sintomas comuns da gravidez, como náuseas e fadiga, acrescenta Wing Chang.

“Por favor, tenha em conta que está a promover a boa saúde de ambos ao receber o tratamento de que necessita”, sublinha Jonathan Alpert.

Dependendo da gravidade da sua depressão, tratamentos não farmacológicos como diferentes terapias podem ajudar, afirmam os autores.

Tendo em conta as conclusões, a saúde mental dos pais “pode também representar um fator-chave, ainda que pouco estudado, no risco de desenvolvimento neurológico dos filhos”, escreveram os investigadores no estudo. “A psiquiatria perinatal evoluiu para um campo tripartido, envolvendo a mãe, o bebé e o pai. Otimizar a saúde mental tanto materna como paterna é essencial, não só para o bem-estar dos próprios pais, mas também para o desenvolvimento a longo prazo da criança”.

"Garantia significativa" sobre a segurança dos antidepressivos

Na nova investigação, que envolveu pais com cerca de 28 anos de idade, em média, o uso de antidepressivos não se associou, em grande parte, a riscos aumentados de distúrbios motores, distúrbios da fala e da linguagem e deficiências intelectuais.

O aumento mínimo dos riscos de PHDA e autismo também não pareceu depender da dosagem dos antidepressivos, mas a maioria dos estudos incluídos na revisão não apresentava informações detalhadas sobre a dosagem, indica Wing Chang. “Esta é uma questão particularmente relevante na gravidez, em que as doses são por vezes aumentadas para compensar as alterações no volume plasmático e no metabolismo do fármaco”.

Da mesma forma, apenas alguns estudos examinaram as potenciais influências da duração do tratamento ou de outros padrões de exposição mais detalhados, pelo que os autores da investigação mais recente não conseguiram distinguir de forma fiável possíveis diferenças entre o uso contínuo de antidepressivos e o uso limitado a um trimestre, por exemplo, explica o investigador. Uma vez que o cérebro e o sistema nervoso fetais se desenvolvem ao longo da gravidez, esclarecer estes fatores é um próximo passo importante, acrescenta.

“No geral, as conclusões, juntamente com um conjunto crescente de dados científicos rigorosos sobre o tema do uso de antidepressivos durante a gravidez, oferecem uma garantia significativa quanto à segurança dos antidepressivos contemporâneos», considera Jonathan Alpert.

Mais preocupantes são os resultados relativos aos antidepressivos tricíclicos, que são mais antigos, uma vez que foram descobertos pela primeira vez nas décadas de 1950 e 1960, afirma o professor catedrático - o primeiro ISRS, a fluoxetina, foi desenvolvido na década de 1970 e aprovado nos Estados Unidos, pela FDA em 1987. Enquanto os ISRS afetam apenas o neurotransmissor serotonina, os antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina e a nortriptilina, afetam tanto a serotonina como a norepinefrina e outros mensageiros químicos. Estes medicamentos têm, portanto, mais efeitos secundários negativos e são considerados tratamentos de segunda ou terceira linha.

Na nova investigação, quando outros fatores influentes foram considerados, apenas a amitriptilina e a nortriptilina permaneceram associadas a um risco mais elevado de PHDA

“Se essa ligação é causal… ou se se deve a outros fatores, como a maior gravidade da depressão para a qual esta classe de antidepressivos mais antigos é frequentemente reservada, permanece desconhecido”, diz Jonathan Alpert. “Enquanto se aguarda mais investigação sobre este tema, vale a pena que as grávidas que tomam estes medicamentos mais antigos ou que estejam a considerar começar a tomá-los discutam os potenciais riscos e benefícios com os seus médicos”.

Para quaisquer preocupações relacionadas com a saúde e a medicação durante a gravidez, é importante procurar orientação junto de fontes de confiança, salienta Jonathan Alpert. Para além dos médicos especializados em saúde perinatal, acrescenta, essas fontes podem incluir o Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, a Sociedade Portuguesa de Pediatria e a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental.

 

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