Durante anos, olhámos para a saúde pública como um centro de custo. É um erro estratégico, que está a sair caro.
A discussão sobre o financiamento do Serviço Nacional de Saúde tende a concentrar-se no volume de despesa: mais médicos, mais camas, mais investimento hospitalar. Tudo necessário. Mas insuficiente. Porque ignora uma questão mais incómoda: estamos a gastar cada vez mais a tratar doenças que poderíamos ter evitado.
O caso italiano ajuda a perceber o problema... e o risco. Por um lado, Itália decidiu colocar a vacinação e a prevenção no centro da sua estratégia de saúde, assumindo que proteger ao longo da vida é condição para sustentabilidade. Por outro, os próprios documentos de finanças públicas mostram uma contradição estrutural: a despesa em saúde aumenta em valor absoluto, mas permanece estagnada em cerca de 6,4% do PIB até ao final da década. Este aparente detalhe técnico tem implicações profundas. Significa que, mesmo gastando mais, o sistema continua pressionado, porque os fatores que geram despesa não estão a ser suficientemente controlados na origem. E aqui entra a prevenção.
Em Itália - como em grande parte da Europa - a fatia dedicada à prevenção continua marginal, muito abaixo do peso que a evidência recomenda. O resultado é previsível: mais doença crónica, maior pressão hospitalar, custos crescentes e sistemas cada vez mais reativos.
Portugal está perigosamente próximo deste mesmo padrão. Temos um dos sistemas de vacinação mais bem-sucedidos do mundo. Mas isso não se traduziu ainda numa estratégia consistente de prevenção ao longo da vida. Continuamos excessivamente focados na resposta à doença instalada - mais consultas, mais urgências, mais listas de espera - em vez de reduzir a incidência e a gravidade dessas mesmas doenças. Isto não é apenas uma questão de saúde. É uma questão económica e de competitividade.
Uma população mais doente é uma população menos produtiva, mais dependente e mais desigual. Um sistema que investe pouco na prevenção está condenado a gastar mais e a gastar pior. E um país que ignora este ciclo está, na prática, a adiar decisões que só se tornarão mais caras no futuro.
A boa notícia é que sabemos o que fazer. A evidência é clara em três pontos: Primeiro, a vacinação ao longo da vida é uma das intervenções mais custo-efetivas em saúde pública. Não apenas salva vidas: reduz internamentos, dependência e despesa futura; Segundo, a prevenção não se esgota na vacinação: inclui diagnóstico precoce, controlo de fatores de risco e integração entre saúde e apoio social; Terceiro, os melhores resultados surgem quando estas políticas são consistentes no tempo e protegidas de ciclos políticos curtos. O desafio, portanto, não é técnico. É político.
Exige que decisores assumam que prevenção não é uma rubrica residual, mas um pilar central da política económica. Exige que o investimento seja reequilibrado, com menos concentração exclusiva no tratamento, mais foco na antecipação do risco. Exige, sobretudo, coragem para priorizar medidas cuja maior recompensa não é imediata, mas estrutural.
Portugal não parte do zero. Tem conhecimento, profissionais e exemplos internacionais claros. O que falta é transformar essa evidência em prioridade política efetiva. Num contexto de envelhecimento acelerado e pressão crescente sobre o SNS, insistir no modelo atual é escolher o caminho mais caro e menos sustentável.
Prevenir não é apenas uma opção inteligente, é uma forma de garantir a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde.
