Não têm suporte científico, mas estão profundamente enraizados na crença popular e até entre alguns profissionais de saúde. A pediatra Mónica Cró Braz propõe, no livro “As Crianças Não Se Constipam por Andarem Descalças”, acabar com os principais mitos que atormentam tantos pais na árdua tarefa de educar os filhos
“Está com febre? É dos dentes, coitadinho”. “Chora tanto porque o teu leite é fraco e não o alimenta”. “Não deixes o menino andar descalço, que se constipa”. “Não lhe dês banho a seguir ao jantar, porque faz mal”. A lista podia continuar, já que os mitos da parentalidade ‘são mais do que as mães’. Não têm qualquer base científica e muitos nem sequer base empírica, mas passam de geração em geração como uma herança ‘preciosa’, que pode ser muito bem-intencionada, mas acaba, muitas vezes, por causar entropias no desenvolvimento das crianças e até ameaçar a sua saúde física e emocional.
Para ajudar a pôr fim a algumas destas crenças, a pediatra Mónica Cró Braz acaba de lançar “As Crianças Não se Constipam por Andarem Descalças” (“É um ótimo exercício para o correto desenvolvimento do pé”, garante), um livro para pais e avós lerem. E até para profissionais de saúde, já que até eles se deixam contaminar.
Mónica Cró Braz licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa em 2005 e, em 2012, completou a especialidade de Pediatria no Hospital Garcia de Orta, em Almada. Desde essa altura também que acompanha, no serviço de saúde privado, crianças e respetivas famílias, desde o nascimento até aos 18 anos de vida.
Diz que também os dois filhos, o seu mais desafiante projeto, a enriquecem enquanto pessoa e pediatra. É também por eles que partilha conhecimentos e conselhos na sua página de Instagram.
Qual é o mito mais frequente que lhe aparece em consulta?
Talvez o mito mais frequente seja que os dentes dão febre. Não é verdade. Os vírus e as bactérias é que provocam infeções respiratórias que dão febre e que se podem complicar com otites. As mãos na boca, resultante do desconforto pelo rompimento dos dentes, traz mais micróbios e mais infeções.
Qual é aquele que considera mais “perigoso”, até por haver possibilidade de colocar em risco a vida ou a integridade física e mental da criança?
Que as vacinas são umas vilãs. Que causam autismo, que estamos a injetar substâncias tóxicas no organismo, que é melhor ter a doença do que tomar a vacina são mitos à volta de vacinas que colocam as pessoas em risco de vida por doenças preveniveis pela vacinação.
Como é que, com tanta informação que os pais têm agora disponível, há tantos mitos sobre parentalidade que ainda persistem?
Porque há opiniões e informações veiculadas pela internet, pelas redes sociais, que as pessoas divulgam sem confirmar se as fontes são confiáveis ou então que difundem com a intenção específica de causar receio e dúvida.
Há mitos entre os próprios profissionais de saúde?
Sim, há. Os profissionais de saúde precisam de se manter atualizados de acordo com o que a última evidência científica demonstra. Atrasar a introdução de alimentos potencialmente mais alergénicos na alimentação dos bebés é um desses mitos.
Já agora, desfaçamos então esse mito. Quando devem ser introduzidos esses alimentos?
O que a evidência científica mostra é que não se deve atrasar a introdução de nenhum alimento. Devemos começar a dar de tudo a partir dos seis meses, com exceção do sal, do açúcar, do mel e dos processados, porque não são saudáveis para ninguém. A não ser que haja um histórico de determinadas alergias na família, não devemos evitar qualquer outro alimento.
Mas devemos fazer um intervalo de alguns dias entre a introdução de novos alimentos…
Não. Também já não é preciso fazer aquele intervalo até introduzir um novo alimento. Claro que, quando fazemos uma sopa para um bebé, nunca fazemos só para uma refeição, porque, no início, eles comem mesmo muito pouco. O que costumo dizer às mães é que lhes podem dar aquela sopa durante três ou quatro dias. O importante é introduzir e manter o alimento. Não devemos dar uma vez e nunca mais dar. E é também importante introduzir os alimentos de forma segura. Por exemplo, os frutos secos, por causa do risco de engasgamento, convém dar em forma de pasta ou de manteiga.
Portanto, há mitos que decorrem daquilo que já foram as indicações dos pediatras para os cuidados com os nossos filhos…
Há coisas que a evidência científica tem vindo a mostrar que já não são bem assim. Por exemplo, nos anos 80, achava-se que a posição mais correta para dormir era de barriga para baixo. Sabe-se agora que a posição mais adequada é dormir de barriga para cima, é melhor até do que dormir de lado. Aliás, há agora evidências que mostram que a posição de dormir de barriga para baixo está até associada a maior risco de morte súbita do lactente.
Como podemos combater estes mitos?
Com conhecimento, informação clara e simples, acessível às pessoas, realizada por profissionais de saúde. Com exemplos de verdade e com a presença de órgãos mais institucionais como a Direção Geral da Saúde ou o Serviço Nacional de Saúde presentes nas redes e na divulgação da informação.
E qual é o papel, por um lado, do cidadão comum e, por outro, dos profissionais de saúde no combate a esses mitos?
Enquanto profissional de saúde, cada um deve estar mais atualizado possível em termos de evidência.
Quanto aos pais, o que normalmente recomendo é que confiem no médico que lhes segue os filhos ou num ou dois profissionais de saúde credíveis que possam seguir nas redes sociais e que não vão nos engodos do ‘dr. Google’ ou do ‘dr. Chat GPT’. Nas redes sociais, há muitos influencers que não são profissionais de saúde e colocam em risco a saúde das pessoas e das crianças.
Além disso, não devem republicar informações que não sejam de fontes confiáveis. Devem verificar sempre as fontes e ter a certeza que é uma informação útil para republicar e que é verdadeira.
Depois de “Pergunte à Sua Pediatra", porque decidiu escrever “As Crianças não se Constipam por Andarem Descalças”? Foi a sua própria necessidade enquanto pediatra de desfazer mitos com que se cruza todos os dias?
Foi um desafio da editora para eu escrever sobre um tema mais transversal e atual, aproveitando o meu conhecimento em saúde infantil para desconstruir estes mitos e chegar a mais famílias.
Podemos agora desfazer alguns mitos que ouvimos com muita frequência? Permita-me que lhe proponha alguns:
“Vou cansá-lo para que durma melhor”. Um bebé cansado dorme mesmo melhor ou pelo contrário?
Um bebé cansado tem uma grande probabilidade de dormir pior. As rotinas são muito importantes para a regulação do bebé e dias que fogem à rotina, e que é normal que aconteçam, saltando sestas e com uma exigência física maior, acabam por dar geralmente noites difíceis.
“Tomar banho depois de comer é perigoso”. Afinal, é ou não perigoso?
Tomar banho em casa após comer não é perigoso. Não há grande diferença na temperatura da água do banho e da temperatura do corpo humano e é perfeitamente seguro comer e tomar banho, sem qualquer risco de “paragem de digestão.”
E banho de mar ou de piscina?
Nunca há questão de paragem de digestão, seja a água quente ou fria. Comer muito e ir para o banho é como comer muito e ir correr a seguir. Após comermos há um aporte do fluxo sanguíneo ao aparelho digestivo e pode faltar o sangue noutros órgãos, como o cérebro, se exigirmos muito esforço físico deles e a pessoa desmaia e pode afogar. É válido para as crianças e para os adultos: ninguém deve ir para água sozinho (diria até que antes ou depois de comer), porque se desmaiarem não têm ajuda.
“As vacinas provocam autismo e vacinas como a da poliomielite ou do sarampo não valem a pena porque são contra doenças que já não existem”.
As vacinas não provocam autismo: as vacinas permitem que as crianças cheguem à idade adulta vivas e saudáveis. A poliomielite e o sarampo ainda não estão totalmente erradicados e o exemplo disso são as bolsas de sarampo que têm surgido em países desenvolvidos exatamente pela resistência à vacinação.
“Dar colo vicia e torna os bebés mimados”.
Não existe excesso de mimo e de amor. Já a ausência do mesmo torna as crianças inseguras, com baixa autoestima e isso sim tem impacto no bem-estar emocional delas. Ainda assim, as regras são importantes para as crianças e adormecer ao colo dificulta que a criança aprenda a adormecer sozinha.
“Uma palmada bem dada não faz mal a ninguém. Eu levei muitas e também cá estou!”
Não existem palmadas pedagógicas. Bater é crime e diz mais da desregulação de um pai do que da irrequietude da criança. As crianças precisam de balizas, de regras e de assertividade, mas tal é possível ser conjugado com amor e colo, sem punições físicas ou psicológicas.