Vacinas, sprays e adesivos anticovid. Como a ciência quer travar a pandemia

30 nov 2021, 08:00
Medicamento 'molnupiravir', desenvolvido pela Merck, recebeu 'luz verde' da EMA
Medicamento 'molnupiravir', desenvolvido pela Merck, recebeu 'luz verde' da EMA

Investigadores nacionais explicaram à CNN Portugal todas as novidades que estão a ser preparadas por laboratórios e cientistas de todo o mundo e que vão ser decisivas para tentar travar o Sars-Cov2

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Com os casos de Covid-19 a aumentar em muitos países, a esperança centra-se agora nas novidades que a ciência promete trazer nos próximos meses. As vacinas que estão a ser administradas pelo mundo estão a ajudar a diminuir a gravidade da doença, mas não impedem a transmissão. Conseguir parar a circulação do vírus parece ser a chave para ajudar a acabar de vez com a pandemia do vírus Sars-CoV-2, que cada vez .

A CNN Portugal falou com três especialistas que explicam o que está a ser investigado e contam como o que está ou vai chegar nos próximos meses pode ser decisivo, entre novas vacinas, medicamentos e outras formas de combate mais inovadoras. Isto ainda que o desafio das novas variantes, como a Ómicron, continuem a desafiar os cientistas.

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Vacinas de segunda geração para impedir a transmissão 

De acordo com Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, as vacinas de segunda geração estão já “em pipeline”, isto é, em fase avançada de desenvolvimento. E, segundo diz, apresentam “melhorias substanciais em relação às vacinas atuais”, permitindo, desde logo, “avanços no calcanhar de Aquiles” das primeiras, designadamente a incapacidade de impedir a transmissão do vírus.

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O professor bioquímica estima que as novas vacinas contra a covid-19 vão “conseguir interromper a multiplicação viral ao ponto de a pessoa não adoecer”, evitando, assim, a transmissão do vírus.

“Ou seja, mesmo que a pessoa tenha contacto com o vírus, o sistema imunitário reage muito rapidamente e a pessoa não chega a adoecer. Como o vírus não chega a multiplicar-se dentro de si, também não conseguirá infetar outra pessoa”, explica. 

De acordo com o investigador, há três vacinas que “estão já em fases avançadas de testes” e que “permitem ter esta esperança” já para 2022, nomeadamente as vacinas da Novavax e da Sanofi, ambas “baseadas na injeção direta da proteína ‘spike’ do vírus” - que este usa para entrar nas células humanas. A terceira é uma vacina da CureVac, que, embora baseada no RNA mensageiro (mRNA), como a da Pfizer e Moderna “consegue resultados melhores”. 

A comercialização da vacina da Novavax, designada Nuvaxovid, já está a ser avaliada pela Agência Europeia do Medicamento (EMA), que garantiu, no passado dia 17 de novembro, a divulgação de um parecer “dentro de semanas”. De acordo com a Novavax, o regime de vacinação exige duas doses administradas por via intramuscular com 21 dias de intervalo.

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A vacina da Sanofi, designada Vidprevtyn, é uma vacina que, tal como a Nuvaxovid, contém uma “versão cultivada da proteína ‘spike’ encontrada na superfície do SARS-CoV-2”, bem como um “adjuvante”, isto é, “uma substância para ajudar a fortalecer as respostas imunes à vacina”.

No passado dia 20 de novembro, a EMA iniciou um processo de revisão contínua dos testes da Vidprevtyn, um mecanismo que o regulador europeu usa para acelerar a avaliação de vacinas ou medicamentos durante uma emergência de saúde pública.

Ao contrário da Novavax e da Sanofi, a alemã CureVac, em colaboração com a britânica GSK, apostou no desenvolvimento de uma vacina com base na tecnologia mRNA de segunda geração, que está neste momento em testes pré-clínicos. De acordo com a biofarmacêutica, esta vacina foi projetada com regiões não-codificadas otimizadas para “alcançar uma tradução melhorada do mRNA e conseguir uma expressão da proteína mais reforçada, em comparação com o mRNA de primeira geração”, utilizado nas vacinas disponíveis da Pfizer e da Moderna.

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Variante Omicron não deverá "retardar" aparecimento das novas vacinas

Questionado pela CNN Portugal sobre o impacto da nova variante Ómicron na eficácia destas vacinas de segunda geração, Miguel Castanho admitiu que "ainda não se sabe exatamente", uma vez que ainda não há informações concretas quanto às alterações provocadas por esta nova variante na proteína Spike do vírus, sobre a qual se baseiam as vacinas, tanto as atuais como as de segunda geração.

Por essa razão, o investigador salientou que "em termos de posicionamento em relação à Ómicrom, as vacinas de nova geração não estão melhor nem pior do que as atuais", pelo que, caso se verifique que as vacinas não protegem contra a nova variante, elas terão de ser "atualizadas" nesse sentido. Mas esta atualização "não demorará muito", prevê o especialista, acrescentando que "os ajustes que eventualmente possam ser necessários não serão assim tão longos que possam retardar o aparecimento das novas vacinas".

Medicamentos visam prevenir casos graves de covid-19

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Além das melhorias que estão a ser introduzidas nas vacinas contra a covid-19, as farmacêuticas estão a apostar também no desenvolvimento de vacinas que possam ser administradas por via nasal, oral, ou até mesmo em adesivo.

Nesse sentido, Miguel Castanho salienta a importância dos medicamentos que estão a ser desenvolvidos para combater a covid-19, entre os quais o ‘paxlovid’, desenvolvido pela Pfizer, cujos resultados estão a ser avaliados pela EMA, e o ‘molnupiravir’, da Merck, que no passado dia 19 de novembro recebeu ‘luz verde’ da parte do regulador europeu, bem como do regulador norte-americano, FDA. O antiviral destina-se ao tratamento de adultos que não necessitam de oxigénio suplementar, mas que apresentam risco acrescido de doença grave. 

Para o especialista, o importante não é saber qual dos dois é mais eficiente, mas sim o facto de que ambos atuam “em pontos diferentes da multiplicação viral”, e, por isso, “não são redundantes entre si”. Ou seja, “uma vez que atacam o vírus em pontos diferentes, o efeito de um pode-se adicionar ao efeito do outro”.

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“Isto é extremamente importante porque se uma determinada variante se adaptar a um medicamento e começar a resistir a esse medicamento, ainda temos o outro, e vice-versa. Além disso, se começarem a circular variantes ao mesmo tempo, uma variante que se adaptou a um medicamento e outra variante que se adaptou a outro [medicamento], ainda podemos administrar os dois medicamentos em conjunto”, explicou Miguel Castanho.

'Spray' nasal permitirá "eliminar o vírus" antes de chegar ao organismo

De acordo com Celso Cunha, virologista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade de Lisboa, além das vacinas administradas por via intramuscular e oral, estão a ser desenvolvidas também vacinas em ‘spray’ nasal, que permitem “induzir uma resposta imunitária local, que pode ser benéfica nalguns casos, no sentido em que poderá evitar, eventualmente, uma infeção nos pulmões”, e, deste modo, conseguir “eliminar o vírus mais cedo, antes de ele chegar ao organismo”.

Além disso, o especialista salienta o facto de a vacina em spray nasal ser “mais fácil” de administrar, uma vez que “não é preciso uma pessoa especializada” para o fazer, como acontece com as vacinas intramusculares.

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A Escola de Medicina da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, é uma das instituições que está a desenvolver uma vacina contra a covid-19 que seja administrada por via nasal. Até ao momento, a vacina ainda está a ser testada em ratos, mas, de acordo com a instituição, os resultados são promissores. 

Também a Universidade de Oxford está a desenvolver uma investigação no mesmo sentido, com o objetivo de perceber o nível das respostas do sistema imunitário com a administração da vacina por via nasal. Além disso, a instituição britânica pretende descobrir se este tipo de vacina “reduz a transmissão da covid-19 entre pessoas que não têm sintomas”, explicou a líder da equipa de investigação, Meera Madhavan, citada pela respetiva universidade.
 

São esperados "grandes desenvolvimentos" nos testes PCR

Além do desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos, o investigador Miguel Castanho admite ainda esperar por “grandes desenvolvimentos ao nível dos testes” moleculares, como os testes PCR. Isto porque, de acordo com o especialista, embora os atuais testes consigam “identificar com grande precisão quem está infetado e quem não está, “são muitíssimo pouco versáteis”, uma vez que implicam uma “máquina sofisticada e um profissional de saúde para a operar”.

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“Eu creio que acabaremos por ter algo tipo teste rápido. Não quer dizer que funcione da mesma maneira que os testes rápidos atuais, mas algo tão versátil como um teste rápido, mas mais preciso”, explicou.

Para o virologista Vitor Duque, as melhorias que se prevêem para os testes PCR visam “aumentar a sensibilidade, a correlação com a clínica, e diminuir a probabilidade de falsos negativos”.

A correlação do resultado com a clínica assume particular importância para o também diretor do Serviço de Doenças Infecciosas do Centro Hospitalar Universitário de Coimbrauma vez que ainda não está definido que uma determinada carga viral corresponda a um determinado nível de gravidade da doença.

“Sabe-se, de facto, que, quanto maior for o nível de viremia, provavelmente maior será a gravidade da doença, mas pode não ser assim em todos os casos”, explicou Vitor Duque. 

Pastilha elástica prevê redução da carga viral da covid-19 na saliva

Uma equipa de investigadores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, anunciou o desenvolvimento de uma pastilha elástica que prevê a redução da carga viral da Covid-19 na saliva - uma ideia que Miguel Castanho considerou "um bocadinho fora da caixa", mas que "não parece descabida".

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"Suponho que o objetivo é a proteção da boca e das vias aéreas superiores. Portanto, nesse sentido, prevê-se recorrer a um hábito de milhões de consumidores para conseguir colocar na zona de interesse - a boca e as vias aéreas superiores - uma molécula que eventualmente possa ser protetora", explicou o investigador, quando questionado pela CNN Portugal sobre este método inédito para combater vírus.

Já existe, contudo, um "conceito próximo" relacionado com os elixires que contêm antibióticos para tratar inflamações e elimina microrganismos responsáveis por infeções da boca, explicou o especialista.

"É uma coisa semelhante, é como bochechar um elixir que tem um efeito antibacteriano e a ideia é matar as bactérias ou parte das bactérias que estão na boca e que se podem alojar nos dentes e formar as cáries", acrescentou.

Especialista prevê "um arrombo na pandemia" em 2022

Apesar do surgimento da Ómicron, o epidemiologista Miguel Castanho prevê que, com a disponibilização de vacinas de segunda geração, medicamentos e melhorias na testagem, o ano de 2022 fique marcado por um "arrombo na pandemia tal como a conhecemos", mesmo com o aparecimento da nova variante do SARS-CoV-2.

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"Em 2022, se tivermos as vacinas de nova geração - que esperemos que de facto sejam melhores do que as atuais -  e se tivermos medicamentos disponíveis (sendo que estes medicamentos são de toma oral, portanto, em princípio geram mais empatia na população), aí sim, espero que em 2022 estejamos em condições de dar um grande arrombo na pandemia tal como a conhecemos. Não vamos erradicar o vírus, (...) mas podemos estar em condições de combater o vírus de igual para igual", salientou.

O virologista Vitor Duque também prevê "um ano melhor" em termos de combate à covid-19, admitindo esperar sobretudo melhorias ao nível do estudo da imunidade celular, "um dos aspetos que habitualmente não é do conhecimento do grande público, mas que é importante em termos da imunização". De acordo com o especialista, a imunidade celular permite a eliminação de células infetadas com "mais eficácia". 

"É uma forma de o organismo conseguir, com mais eficácia, não só combater a doença, mas também a infeção, porque se não houver infeção não há doença, e as vacinas que nós temos previnem a doença grave, não previnem a infeção. Esse é um dos aspetos que leva a que as pessoas que já foram infetadas possam ser reinfetadas, ou se forem vacinadas, podem ser infectadas na mesma. É um problema complicado, porque mantém o vírus em circulação", explicou o especialista. 

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