Há elementos patogénicos mortais nos microplásticos presentes nos oceanos. E podem estar no marisco que comemos também

CNN , Brooklyn Neustaeter
7 mai, 17:00
Um pescador rema no lago de Potpecko, repleto de garrafas de plástico perto de Priboj, no sudoeste da Sérvia, a 22 de janeiro de 2021. (AP Photo/Darko Vojinovic, Arquivo)

Uma nova investigação sugere que o problema dos microplásticos no oceano não afecta apenas a vida marinha. Os fragmentos de plástico facilitam a concentração e mobilidade de elementos patogénicos terrestres que, garantem os investigadores, poderão trazer sérias consequências para a saúde humana

Uma recente investigação constatou que os microplásticos podem transportar parasitas terrestres para o oceano, afetando tanto a vida selvagem como a saúde humana.

De acordo com investigadores da Universidade da Califórnia, Davis (UC Davis), os microplásticos podem originar a concentração de elementos patogénicos causadores de doenças em áreas do oceano contaminadas por plástico, atingindo profundidades onde normalmente nunca seria encontrado um parasita terrestre.

Os microplásticos são pequenos fragmentos de plástico ou fibras produzidas a partir da decomposição de pedaços maiores de plástico, incluindo garrafas de bebidas, embalagens de alimentos e sacos de plástico.

Karen Shapiro, a autora do estudo e professora associada da UC Davis, afirmou num comunicado à imprensa que "É fácil as pessoas ignorarem os problemas derivados do plástico e pensarem que não lhes interessa ou algo como, ‘Eu não sou uma tartaruga no oceano, não me vou engasgar com isto'".

"Mas quando se começa a falar de doença e saúde, há mais possibilidade para implementar a mudança. Os microplásticos podem, de facto, mover germes, e estes germes acabam na nossa água e na nossa comida".

Este estudo, publicado na terça-feira na revista Scientific Reports, é o primeiro a estabelecer uma ligação entre os microplásticos no oceano e os elementos patogénicos terrestres.

Estudos anteriores revelaram que os humanos e os animais consomem microplásticos através dos alimentos e da água, bem como através da inalação da poluição do ar. Foram também encontrados nas fezes de alguns bebés e adultos, bem como no sangue humano.

Os investigadores analisaram três agentes patogénicos comuns: Toxoplasma gondii, Cryptosporidium (Crypto) e Giardia, que podem infetar tanto humanos como animais.

Segundo os mesmos, estes elementos são reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde como uma das causas menosprezadas de doenças causadas pelo consumo de marisco e podem ser encontrados em todo o oceano.

Toxoplasma gondii, um parasita encontrado apenas nas fezes dos gatos, infetou muitas espécies dos oceanos com a doença toxoplasmose e está também associado à morte de lontras marinhas, de acordo com esta pesquisa. Afirmam ainda que, nos seres humanos, o patogénico pode causar doenças para a vida inteira, bem como distúrbios de desenvolvimento e reprodução.

Cryptosporidium e Giardia podem causar doenças gastrointestinais e podem ser mortais, tanto em crianças pequenas, bem como em pessoas que têm o sistema imunológico enfraquecido.

Em condições laboratoriais, os investigadores testaram se os agentes patogénicos se conseguem agregar nos plásticos que estão na água do mar utilizando dois tipos diferentes de microplásticos: microesferas de polietileno e microfibras de poliéster.

As microesferas são frequentemente encontradas em cosméticos, tais como esfoliantes e produtos de limpeza facial, já as microfibras estão presentes no vestuário e desfazem-se nas máquinas de lavar, chegando aos oceanos através de sistemas de escoamento de águas residuais.

O estudo, que foi financiado pelo Ocean Protection Council e pelo programa California Sea Grant, verificou que existem mais parasitas presos às microfibras em comparação com as microesferas, embora ambos os tipos de microplásticos possam transportar agentes patogénicos terrestres.

Os investigadores acreditam que pode ser fácil os parasitas terrestres chegarem aos oceanos através dos microplásticos, dependendo se as partículas de plástico se afundam ou se flutuam.

De acordo com a investigação, os microplásticos que flutuam ao longo da superfície do mar podem percorrer longas distâncias, disseminando os patogénicos para longe das suas origens terrestres, ao passo que os plásticos que se afundam podem concentrar-se na zona bentónica no fundo do mar. Esta zona é onde vivem organismos filtradores como o zooplâncton, ouriços-do-mar, abalone, mexilhões, caranguejos e outros moluscos, aumentando a probabilidade de estes ingerirem os microplásticos e quaisquer parasitas acoplados.

Se a vida marinha ingerir tais parasitas, os efeitos podem ter sérios impactos nas cadeias alimentares, afirmaram os cientistas.

"Quando os plásticos são lançados ao mar, os invertebrados aquáticos confundem-nos com alimento", confirmou Shapiro num comunicado. "Estamos a alterar as teias alimentares naturais ao introduzir este material produzido pelo ser humano e que também pode introduzir parasitas mortais”.

Para ajudar a reduzir os impactos dos microplásticos no oceano, sugere-se a utilização de filtros nas máquinas de lavagem e secagem e um reforço do tratamento das águas pluviais, bem como a implementação de "melhores práticas de gestão" para as indústrias de plástico e locais de construção.

"Este é um problema que afeta tanto os humanos como os animais", afirmou Emma Zhang, a autora do estudo e estudante de veterinária da UC Davis num comunicado. "Todos nós dependemos do ecossistema marítimo".

Uma análise microscópica de uma fibra de plástico coberta de biofilme azul difuso, ligada aos agentes patogénicos T.gondii (ponto azul) e Giardia (ponto verde). (Cortesia de Katherine Kerlin/UC Davis)

 

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