O sangramento menstrual intenso ou prolongado é comum em cerca de 33% das mulheres que estão em transição para a menopausa.
Os episódios de fluxo excessivo por norma cumprem os critérios daquilo a que os médicos chamam hemorragia uterina anormal, uma condição médica definida como hemorragia vaginal, que ocorre num período de seis meses e que é excessiva em quantidade, duração ou frequência durante ou entre os períodos menstruais.
Apesar da prevalência do sangramento excessivo e do seu impacto na qualidade de vida, existem poucos estudos sobre se este sangramento está também associado a outros sintomas típicos da menopausa, de acordo com os autores de uma nova investigação publicada na revista científica Menopause e que diz que ter experienciado três ou mais episódios de sangramento menstrual intenso ou prolongado num período de seis meses está associado a sintomas de fadiga.
Segundo os autores, este é o primeiro estudo a avaliar, ao longo do tempo, a associação entre o sangramento menstrual intenso e prolongado em mulheres na pré-menopausa e perimenopausa e os seus relatos de fadiga ou vitalidade.
“A menstruação continua a ser um tema envolto em silêncio e associado a tabus, mesmo no campo da investigação científica”, começa por dizer, numa resposta por escrito, Siobán Harlow, autora principal do estudo e também professora emérita de Epidemiologia e de Obstetrícia e Ginecologia na Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. “A falta de diálogo sobre a menstruação, particularmente sobre as alterações nos padrões de sangramento à medida que as mulheres se aproximam da menopausa, leva à falta de conhecimento sobre o que é normal”, continua
“Esperamos que estes resultados incentivem uma maior avaliação das potenciais associações entre o sangramento menstrual e outros sintomas da menopausa, como a perturbação de sono e a confusão mental”, acrescenta Harlow.
A perimenopausa ocorre, normalmente, entre três a dez anos antes da menopausa, que é definida como o dia em que uma mulher completa um ano sem menstruação, marcando o fim da sua fase reprodutiva. Este período de transição acontece quando os ovários começam gradualmente a deixar de funcionar, segundo o site da Johns Hopkins Medicine. Durante este tempo, os níveis das hormonas estrogénio e progesterona podem flutuar, provocando mudanças de humor, ciclos menstruais irregulares e outros sintomas, como depressão.
Os autores deste novo estudo analisaram os dados de saúde de 2.329 mulheres que tinham, em média, 47 anos quando participaram no Study of Women’s Health Across the Nation, em 1996 ou 1997. No início do estudo e em cada consulta de acompanhamento anual durante um período de até dez anos, as participantes responderam a questionários sobre os seus históricos ginecológico, menstrual e médico.
As participantes mantiveram também um calendário mensal da menstruação, no qual registavam o seu sangramento menstrual até dois anos após o seu último período menstrual ou por um período de até dez anos. Relatar episódios de “sangramento muito intenso” significava que precisavam de mudar de produto higiénico a cada hora ou duas durante mais de quatro horas ao longo do dia. Os autores definiram o sangramento menstrual prolongado como aquele que durava mais de oito dias, enquanto que o sangramento menstrual intenso significava um sangramento muito forte durante três ou mais dias.
Nas primeiras seis consultas e na oitava consulta, a equipa avaliou a sensação de vitalidade ou fadiga das participantes, fazendo-lhes quatro perguntas do Rand’s 36-item Short Form Health Survey, um questionário usado para avaliar a qualidade de vida das pessoas em relação à saúde, avaliando parâmetros como dor corporal, função física, saúde mental e até função social. E uma das questões às quais as participantes tiveram de responder foi: ‘Nas últimas quatro semanas, durante quanto tempo se sentiram cheias de energia, cheias de força, exaustas ou cansadas?’.
As mulheres que tiveram pelo menos três episódios de sangramento menstrual intenso nos seis meses anteriores tinham 62% mais probabilidade de se sentirem cansadas e 44% mais probabilidade de se sentirem esgotadas, segundo o estudo. Relatar três ou mais episódios de sangramento prolongado nos últimos seis meses foi associado a uma probabilidade 32% menor de se sentirem cheias de energia.
“Parece intuitivo que o sangramento menstrual intenso esteja associado a sintomas de fadiga”, adianta Stephanie Faubion, diretora médica da The Menopause Society. “O surpreendente é que nunca tínhamos analisado isto antes, e concordo com os autores quando dizem que um dos nossos questionários mais utilizados sobre a menopausa nem sequer pergunta sobre o sangramento”, continua.
“Os questionários sobre a menopausa não são concebidos para abranger a perimenopausa porque, por definição, se alguém já está na menopausa, já não menstrua”, atira aindaFaubion, que também é diretora do Penny and Bill George Director of the Mayo Clinic’s Center for Women’s Health e não esteve envolvida no estudo “A perimenopausa é um período pouco estudado e pouco descrito”.
Com metade da população mundial a passar pela menopausa se viver até à meia-idade, são necessários muitos mais estudos sobre esta fase, admite a médica Leana Wen, também professora associada adjunta de medicina de emergência na Universidade George Washington, em Washington, DC.
A ligação entre fadiga e sangramento anormal
A associação entre o sangramento menstrual intenso e prolongado e a fadiga pode estar relacionada com a deficiência de ferro e a anemia ferropénica causadas pela perda de sangue, que são causas bem conhecidas de fadiga em geral e complicações conhecidas da hemorragia uterina anormal, afirmaram os autores - uma ideia apoiada por um pequeno estudo de agosto de 2016 sobre mulheres negras.
A anemia é uma condição caracterizada pela insuficiência de glóbulos vermelhos ou de hemoglobina (uma proteína rica em ferro que transporta oxigénio no sangue) para fornecer oxigénio ao corpo. Entre as causas mais comuns estão a deficiência de ferro, a falta de outras vitaminas essenciais para a produção de glóbulos vermelhos e a perda excessiva de sangue e hemoglobina devido a hemorragias.
No entanto, os autores não tinham medições dos níveis de ferro no sangue das participantes, o que poderia ter reforçado a ligação encontrada. Por isso, Faubion não tem certeza de que a anemia seja a única explicação possível, especialmente “porque é necessário perder muito sangue para se tornar anémico”.
“Essa é uma explicação fácil, mas será que também está associada ao facto de as pessoas não estarem a dormir bem porque precisam de se levantar para ir à casa de banho ou porque o sangramento é muito intenso?”, questiona Faubion, indo mais longe: “Além disso, se alguém tem deficiência de ferro - sem necessariamente ser anémico - pode desenvolver síndrome das pernas inquietas, que pode perturbar o sono”. Harlow, a autora principal do estudo, concordou, mas acrescentou que a equipa teve em conta os relatos sobre problemas de sono.
Ainda assim, o estudo sugere que, ao avaliar as queixas de fadiga das pacientes, os profissionais de saúde devem perguntar sobre sangramentos menstruais anormais e testar os níveis de ferro e anemia, lê-se no estudo. A realização de rastreios para identificar sangramentos menstruais prolongados e intensos durante a transição para a menopausa, antes mesmo de eventuais queixas de fadiga, também deve ser considerada, acrescenta Wen.
“As mulheres que estão a passar pela menopausa devem registar a duração do seu ciclo, a duração do sangramento menstrual e se este é visto como mais intenso do que anteriormente”, vinca Wen.
Tratar a fadiga na raiz do problema
Se a fadiga menopáusica for causada por anemia, os profissionais de saúde devem parar o sangramento e repor o ferro, geralmente com suplementos de ferro de prescrição médica, explica Faubion. Aumentar os níveis de ferro ajuda a produzir mais glóbulos vermelhos e a restaurar o fornecimento sanguíneo.
Os tratamentos comuns para o sangramento menstrual excessivo incluem anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), como naproxeno ou ibuprofeno, e pílulas contraceptivas, que podem reduzir o sangramento em cerca de 30%. Os dispositivos intrauterinos hormonais podem reduzir o sangramento entre 79% e 98%.
“A hemorragia uterina anormal nunca deve ser ignorada", conclui Faubion, “pois pode ser um sinal precoce de um cancro”.