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Assistente Hospitalar de Medicina Interna no CHLN, ULS Santa Maria e professora Auxiliar de Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

Acrescentar vida aos anos e não apenas anos à vida

12 mar, 14:16

O aumento da esperança média de vida é uma das maiores conquistas das últimas décadas. Contudo, prolongar os anos de vida nem sempre significa aumentar a qualidade desses anos. Em Portugal, esta realidade é particularmente evidente. Apesar de termos uma esperança média de vida elevada, a análise da esperança de vida com qualidade revela uma discrepância significativa: após os 65 anos, cerca de dois terços do período final da vida são vividos com perda de funcionalidade. Vivemos mais anos, mas muitas vezes vivemo-los com limitação, dependência e fragilidade.

É precisamente neste contexto que a Geriatria assume um papel fundamental. Mais do que tratar doenças isoladas, esta especialidade centra-se na pessoa idosa como um todo, considerando a sua história, o seu contexto social e familiar, a sua autonomia e bem-estar. O objetivo é acrescentar vida aos anos, preservando funcionalidade, dignidade e sentido na vida, e não apenas prolongar a existência cronológica.

Muitos fatores que comprometem a qualidade de vida dos idosos passam despercebidos. A perda de força e massa muscular, conhecida como sarcopenia, aumenta o risco de quedas, limita a mobilidade e inicia uma espiral de dependência e isolamento que poderia muitas vezes ser prevenida com intervenção adequada. As quedas, mesmo sem fraturas, geram medo e restrição voluntária da atividade, conduzindo ao isolamento social e à perda de autonomia. A dor crónica, frequentemente subestimada como “natural da idade”, limita a participação em atividades, altera o humor e compromete o sono. A depressão e a ansiedade, muitas vezes não reconhecidas, amplificam esta incapacidade, reduzindo motivação, adesão terapêutica e qualidade de vida.

Os défices sensoriais são outro fator frequentemente negligenciado, mas de impacto profundo. A perda de audição conduz ao afastamento das conversas e ao isolamento social, enquanto a perda de visão aumenta o risco de quedas, dificulta tarefas diárias e compromete a independência. Estas alterações, muitas vezes corrigíveis, têm efeitos significativos sobre a funcionalidade e a saúde mental, mas continuam subvalorizadas.

Outro desafio crítico é a polimedicação. Muitos idosos acumulam múltiplos fármacos ao longo dos anos, prescritos por diferentes profissionais, sem revisão sistemática da sua real necessidade. Esta acumulação aumenta o risco de efeitos adversos, interações medicamentosas, tonturas, confusão mental e quedas, comprometendo ainda mais a fragilidade física e cognitiva. A desprescrição racional, avaliar o que deve ser mantido, ajustado ou retirado, é uma intervenção essencial, permitindo tratar melhor, muitas vezes tratando menos.

A perda cognitiva, a solidão e a sobrecarga dos cuidadores completam o quadro complexo que a pessoa idosa enfrenta. O envelhecimento é um fenómeno multidimensional e exige uma resposta igualmente multidimensional. É neste contexto que os Cuidados de Saúde Primários assumem um papel central: são o primeiro ponto de contacto, acompanham a pessoa idosa de forma longitudinal, conhecem o seu contexto familiar e social e estão numa posição privilegiada para identificar sinais precoces de fragilidade, declínio funcional ou sobrecarga do cuidador. A colaboração entre Geriatria e Cuidados de Saúde Primários é determinante para uma abordagem preventiva, personalizada e centrada na funcionalidade.

Em Portugal, onde dois terços do período de vida após os 65 anos são vividos com limitação funcional, é fundamental promover a perceção sobre estes fatores e intervir precocemente. Prevenir fragilidade, otimizar medicação, corrigir défices sensoriais, tratar a dor, investir na saúde mental e apoiar cuidadores são estratégias essenciais para garantir que os anos adicionais de vida sejam vividos com autonomia, dignidade e qualidade.

Todos estes temas, fragilidade, perda de funcionalidade, polimedicação e desprescrição racional, défices sensoriais, saúde mental e o papel estratégico dos Cuidados de Saúde Primários na gestão do idoso frágil, serão abordados e discutidos no Update em Medicina 2026, reforçando a importância de uma abordagem multidimensional que permita, verdadeiramente, acrescentar vida aos anos e não apenas anos à vida.

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