Embora muitos de nós ainda oscilem entre a curiosidade esperançosa e o receio incontido no uso da Inteligência Artificial (IA), todos os dias nos damos conta do seu avanço nos mais diversos setores de atividade. Os muito crentes, sempre interessados em mostrar aos outros como são jovens na crista da onda, juram a pés juntos que a IA nos vai livrar das tarefas chatas e repetitivas, permitindo-nos dar azo a toda a criatividade aprisionada. Outros, veem na IA um perigo imenso, que nos vai tirar muitos trabalhos, e tornar muitos homens dispensáveis. Haverá profissões mais ameaçadas pela IA, principalmente aquelas que não interagem com pessoas de carne e osso, que têm emoções e em cujas decisões conta a empatia. Acredito que a IA não consegue substituir, sem perda de eficácia, o rececionista do hotel, o empregado de mesa, o professor do liceu ou o médico que vê doentes.
O Serviço Nacional de Saúde (SNS) vive uma carência inusitada de médicos em todas as áreas. Refiro-me às horas de trabalho médico. Não ao número enganador de médicos à molhada, em que se juntam recém-licenciados, estagiários, médicos em tempo parcial, médicos apenas de Urgência e médicos sem atividade assistencial. Acresce ao problema, o facto bem português de se contarem pelos dedos os médicos que estão em exclusividade no setor público. A opção clara do trabalho do médico entre o público e o privado, exigida na maioria dos países, continua a ser vista em Portugal como uma nódoa. Ninguém tem coragem de alterar isto e inventaram o regime de dedicação plena, que é um sorvedouro de dinheiro, sem que os serviços tenham ganho nada com isso.
Apesar do aumento contínuo dos gastos com o sistema de Saúde, os indicadores de produção e de acesso caem estrondosamente. O desespero dos políticos é grande, ainda mais porque os ciclos eleitorais são demasiado pequenos, para que as medidas tomadas deem efeitos sentidos pela população. Foi aí que alguém se lembrou da IA, não para auxiliar o médico com os maravilhosos algoritmos, mas para os colocar junto do doente, evitando a ida à Urgência ou o recurso ao Clínico. Duma penada, contentamos aqueles que não têm Médico de Família e reduzimos os recursos às Urgências, sem mudarmos nada na estrutura de Cuidados Assistenciais, preservando o bem-estar com os grupos instalados.
Não se julgue que esta visão milagreira da IA no sistema de Saúde é só dos unicórnios da tecnologia, já a anteverem os lucros em catadupa, ou dos Administradores diligentes, para quem os médicos são um problema difícil. Também tenho visto vários colegas médicos, comentadores de Saúde de vários canais televisivos, com fortes convicções sobre a capacidade resolutiva da IA nos problemas do SNS. Curiosamente, segundo me informaram, a maior parte desses colegas comentadores, têm em comum uma escassíssima experiência clínica.
O médico serve para resolver problemas das pessoas. Alguns desses problemas, transformam-se em diagnósticos, depois dos exames adequados para a sua comprovação. Tudo começa na história da doença, em que o médico faz as perguntas cirúrgicas inteligentes, tendo em conta as queixas que o doente lhe apresenta, que lhe permitem delinear hipóteses e caminhos para os diagnósticos, para que possa ser oferecido o melhor tratamento. A empatia entre o médico e o doente, é um ingrediente fundamental para um bom resultado.
Acredito que depois de o médico conseguir elencar uma lista de problemas, completa e hierarquizada, a IA pode ser extraordinária para se lembrar de diagnósticos possíveis, mas mais raros, pois no seu portfolio estão muitos milhões de doentes. Portanto, a IA é excelente para ser usada pelo Médico. Não para o evitar.
As notícias de que a lista de espera de fisioterapia ia desaparecer com o pedido do tratamento online feito pela Medicina Geral Familiar, arrepiou-me. Não sendo especialista de Fisiatria e Reabilitação, julgo que o processo de diagnóstico é crucial para poder prescrever um tratamento. Quem o faz? E, com a nossa esmagadora população idosa e iletrada, é possível fazer o tratamento fisiátrico sem qualquer intervenção do fisioterapeuta? Tenho imensas dúvidas de que eu pudesse ter bons resultados, caso venha a precisar, apenas com o bonequinho da App. Para mim, vou manter tudo como dantes. Só espero que a dificuldade seja apenas minha, para que o bom tratamento não fique só para quem pode.
