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Diretora Médica da AbbVie

Decisão partilhada: quando o conhecimento clínico encontra os valores do doente

5 mai, 12:23

Nunca como agora os doentes tiveram acesso a tanta informação. A digitalização dos cuidados, que passa pela telemedicina, as aplicações de saúde, os sensores que medem desde as horas de sono aos passos dados, as plataformas digitais e as comunidades de apoio online tornam possível que milhões de pessoas pesquisem opções, comparem tratamentos e cheguem à consulta com perguntas que até recentemente seriam impensáveis.

É neste contexto, em que o doente deixou de ser um mero recetor passivo para se tornar um agente ativo, informado e participante quando se trata da sua própria jornada de saúde, que surge o conceito de decisão partilhada, que é, na sua essência, o momento em que o doente e o profissional de saúde decidem juntos o que fazer. Não se trata de transferir a responsabilidade clínica para o doente, nem de o sobrecarregar com escolhas que não é capaz de fazer, mas de uma parceria: de um lado está o profissional, com o seu conhecimento clínico e evidência científica; do outro os valores, as circunstâncias, as preferências e os desejos do doente.

Um processo que começa pela compreensão, por parte do médico, da situação que o doente está a viver. Porque só faz sentido que se construa um plano de cuidados em conjunto se este tiver por base a evidência, mas se for, ao mesmo tempo, sensível à dimensão emocional do problema e viável para aquela que é a realidade do doente.

A investigação feita sobre este tema não deixa dúvidas: quando os doentes participam ativamente nas decisões sobre o seu tratamento, os resultados melhoram. Não só aumenta a adesão terapêutica, como cresce ainda a satisfação com os cuidados recebidos, reduzindo-se a frequência de tratamentos que não estão alinhados com as preferências reais de quem os recebe.

E é assim de tal forma que os resultados que são reportados pelos doentes ganham cada vez mais peso nas decisões de pagadores, reguladores e até na investigação clínica, o que torna a voz do doente uma força real no sistema de saúde. De facto, este processo de colaboração já chegou à investigação clínica e ao desenvolvimento farmacêutico, com os doentes a assumirem, cada vez mais, o papel de participantes ativos, o que passa pela definição de prioridades e vai até à avaliação de resultados, proporcionando algo que apenas eles podem dar: a experiência vivida.

É também verdade que talvez nem todos partilhem o desejo de ter o mesmo grau de envolvimento. Alguns doentes preferem delegar, enquanto outros querem decidir em detalhe. A boa notícia é que a tomada de decisão partilhada não impõe um modelo único, deixando espaço para que se respeitem as escolhas e desejos de cada um, assim como a forma como cada um quer participar na sua jornada de saúde.

Mas há, para isso, em toda esta equação, um elemento que nenhuma tecnologia substitui: a relação entre o médico e o doente. Porque mais informação não é o mesmo que decisão informada, e para que o acesso à informação se traduza em escolhas verdadeiramente adequadas, é preciso literacia em saúde, comunicação clara por parte dos profissionais e sobretudo uma relação entre médico e doente que deve estar assente na confiança, na empatia, na escuta ativa e na comunicação aberta, que é o que permite que toda a informação disponível se transforme em decisões verdadeiramente alinhadas com as necessidades e os valores de cada um.

Reforçar a tomada de decisão partilhada e fortalecer esta relação não são objetivos abstratos, mas investimentos concretos numa melhoria dos resultados, essenciais para um sistema de saúde que se quer mais humano e mais sustentável.

O desafio que se coloca é este: garantir que o direito à decisão informada e partilhada não fica apenas no papel, mas que se torna a norma em cada consulta, em cada diagnóstico, em cada plano de tratamento. Porque um doente informado, ouvido e respeitado não é apenas um doente com mais direitos, é um doente com melhores resultados.

Fonte: Shared Decision Making in Health Care: Theoretical Perspectives for Why It Works and For Whom

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