Leonor Beleza: É preciso ter em conta as "características muito especiais" das instituições de Saúde. "Tenho a impressão de que não se vê isso"

11 jul, 15:33
Leonor Beleza, Fundação Champalimaud. 27 de setembro de 2021. Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP via Getty Images

É uma das mulheres mais influentes do país e deu uma entrevista exclusiva à CNN Portugal e à TVI. Maria João Avillez conduziu a conversa com a presidente da Fundação Champalimaud, que já foi ministra da Saúde.

Leonor Beleza critica a forma como o atual governo trata os hospitais e profissionais de saúde, sem olhar para o seu caráter especial. "Às vezes tenho a sensação de que não se vê. Vêm de lá do ministério das Finanças ou da Administração Pública com as regras dos funcionários, com as regras da contratação, com as limitações todas", lamenta.

A antiga ministra da Saúde, que exerceu o cargo entre os anos de 1985 e 1980, reconhece que o setor evoluiu muito desde que esteve no Governo, e sublinha que hoje seria preciso uma reforma que tivesse em conta "a sofisticação e o nível de presença do setor privado que existe hoje". Uma reforma que apelida de "corajosa".

Recusando traçar um cenário negro no setor da saúde, Leonor Beleza prefere falar em caminhos e as soluções passam por pagar melhor aos profissionais de saúde e não ter medo de falar de "gestão". "Os profissionais têm de ser pagos de outra maneira, a organização tem que ser muito mais profissional. Às vezes há um contraponto entre a ideia de gestão e a ideia de tratar bem as pessoas. Não há contraponto nenhum."

Há muito retirada da política, mas não desligada do que se passa no país, Leonor Beleza olha para o passado no governo sem ressentimentos  mas com alguma "mágoa". "Eu quando penso em algumas coisas que me aconteceram, não me sinto particularmente feliz com isso". Ainda assim, não tem dúvidas: fez "tudo o que pôde e sabia".

Preside a uma instituição de saúde. Aflige-se com o que se passa neste momento em Portugal na questão da saúde muito concretamente?

Para mim não é uma história de pessoas. Eu julgo que quando estamos a falar de saúde, basicamente estou a falar de políticas públicas de saúde. Eu não gosto muito da conversa entre público e privado.

Não gosta porquê?

Porque a verdadeira questão é como é que os cidadãos podem ser mais bem tratados com melhor utilização dos meios que temos. Há algumas coisas que me parecem ser importantes: as instituições de saúde são instituições com características muito especiais. Os hospitais estão inseridos na administração pública, são servidos por pessoas que têm um vínculo ao Estado, mas não são instituições como as repartições de uma coisa qualquer. São entidades de um tipo completamente diferente. Portanto, a abordagem dos hospitais como se fossem uma instituições como outras quaisquer, sem nenhum desprestígio para as outras, mas não há outras onde se trate da vida ou da morte das pessoas.

É preciso olhar para os hospitais como instituições com as características particulares que têm.

E os governos olham?

Às vezes tenho a sensação de que não se vê. Vêm de lá do Ministério das Finanças ou da Administração Pública com as regras dos funcionários, com as regras da contratação, com as limitações todas sem se olhar para a enorme complexidade, para o facto de que a vida de todos nós depende mais dessas instituições do que de quaisquer outras.

Essas instituições precisam de evoluir como evolui a ciência e a inovação em todo o lado. Que não se pode formar os novos médicos sem colocar à disposição deles os meios mais atuais. Há aí uma série de coisas que têm a ver com a maneira como olhamos para essas instituições.

Por outro lado, eu julgo que houve uma evolução enorme na forma como os portugueses olham para a saúde. Há muito mais instituições hoje entre nós do que apenas os hospitais do Serviço Nacional de Saúde. Existem no setor privado, no setor privado de solidariedade, como somos nós, no setor privado lucrativo. A situação hoje é completamente diferente do que aconteceu, por exemplo, quando eu fui responsável pelo Ministério da Saúde, portanto é preciso olhar para essa realidade.

No seu tempo como era?

No meu tempo não havia a sofisticação e o nível de presença do setor privado que existe hoje. Eu julgo que era preciso olhar para esse conjunto de uma maneira corajosa. A verdade é esta. Como é que fazemos o melhor possível com isto tudo?

Repare, hoje, há quatro milhões e tal de pessoas que têm acesso a seguros de saúde. Ou seguros mais públicos, como a ADSE, ou a seguros privados. Isso significa que essas pessoas pagam do seu bolso para ter acesso a outras instituições de saúde que não as do SNS. Essas pessoas também continuam a pagar o SNS.

O SNS hoje é pago por cada um de nós mais ao menos 100 euros por mês. Todos nós pagamos, quer tenhamos seguros quer não tenhamos. É preciso olhar para esta segmentação que existe. Umas pessoas que conseguem, que desejam, ter acesso a outra coisa e pagam para isso, enquanto continuam a financiar o SNS. O SNS beneficia disto porque essas pessoas todas que vão a outras instituições e que põem dinheiro para o fazer estão de facto a aliviar a carga sobre o SNS. Eu acho que é preciso olhar de uma maneira realista para este conjunto e retirar consequências ao nível de como é que podemos melhor tratar os nossos cidadãos.

A que é que se pode atribuir que neste momento as coisas estejam quase num descalabro? Prejudicando aqueles que não têm nenhum remédio senão esperar 12 horas ou 14 para serem vistos, que ocupam as urgências porque o seu centro de saúde está fechado ou não os acolhe…

Eu acho que a solução está em olhar para essas instituições com a natureza que elas têm: os profissionais têm de ser pagos de outra maneira, a organização tem que ser muito mais profissional. Às vezes há um contraponto entre a ideia de gestão e a ideia de tratar bem as pessoas. Não há contraponto nenhum. Não tem de haver, são ideias que têm de funcionar em conjunto.

O essencial, do meu ponto de vista, é olhar para as instituições de saúde, sejam lá em que setor forem, como instituições que precisam de um tratamento e uma abordagem especial e os profissionais de saúde também.

Todos nós, portugueses, precisamos de bons profissionais de saúde. Motivados, bem tratados, com a possibilidade de fazerem alguma investigação se têm vontade de fazer isso, satisfeitos por servirem uma instituição na qual têm orgulho. Nós precisamos disto. Eu prefiro olhar para as coisas assim em vez de falar em catástrofes.

Não estava à espera que nomeasse ministros ou que entrasse numa diatribe política. Não sei é se no estado das coisas, embora eu perceba muito bem a inteligência com que está a abordar o tema, não sei se chega neste momento pedir que se olhe de outra maneira.

Eu própria, quando estive com essa responsabilidade há décadas e décadas atrás, fiz tudo para que os hospitais do Estado funcionassem da melhor maneira possível e servissem os cidadãos da melhor maneira possível. Nós precisamos disso.

Nem sempre foi bem tratada enquanto Ministra da Saúde. Hoje quando pensa nisso há uma mágoa ou acha que fez tudo o que pôde e soube?

Que eu fiz tudo o que pude e sabia, estou absolutamente convencida disso. Também estou convencida de que o ímpeto reformista era preciso e continua a ser preciso. Eu sei que às vezes se paga preços grandes por se fazer esse tipo de…

Pagou?

Paguei. Mas também fui privilegiada a seguir.

Sim, não há ressentimento nenhum. Eu perguntei mágoa que não é a mesma coisa que ressentimento.

Mágoa, há. Eu quando penso em algumas coisas que me aconteceram, não me sinto particularmente feliz com isso.

Veja a entrevista na íntegra:

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