Quer melhores resultados no treino? O segredo pode estar na sua personalidade

CNN , Issy Ronald
6 set 2025, 10:00
Diferentes tipos de personalidade gostam de diferentes formas de exercício.
(Mireya Acierto/Digital Vision/Getty Images)

Adaptar o exercício físico à personalidade traz vários benefícios, revela estudo. Descubra qual é o treino certo para si

Tornar o exercício divertido é o objetivo máximo para muitas pessoas que não conseguem encontrar motivação para treinar.

No entanto, em vez de se forçar a gostar de correr ou daquela aula de ginásio a que foi uma vez, a solução pode estar em algo mais simples - escolher um treino que corresponda ao seu tipo de personalidade, segundo um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology.

Isto porque pessoas com diferentes traços de personalidade apreciam diferentes tipos de exercício, concluiu o estudo.

As pessoas mais extrovertidas, por exemplo, preferem sessões de treino de alta intensidade em grupo, como os desportos de equipa, enquanto aquelas que obtiveram pontuações elevadas em "neuroticismo", uma métrica que mede a instabilidade emocional, preferiram treinos individuais, sem ninguém a observá-las e com pequenos intervalos entre cada exercício.

Por outro lado, os participantes com pontuações elevadas em conscienciosidade "eram mais propensos a ter uma rotina de exercício equilibrada… acreditamos que isso acontece porque os indivíduos conscienciosos tendem a ser motivados pelo facto de o exercício lhes fazer bem", diz Flaminia Ronca, professora associada de ciências do exercício na University College London e coautora principal do estudo.

"A personalidade determina que intensidades e formas de exercício nos atraem... Se conseguirmos entender isso, então podemos dar o primeiro passo para envolver e incentivar à prática de exercício os indivíduos sedentários", afirma à CNN.

As pessoas que obtiveram uma pontuação mais elevada em termos de extroversão tendiam a preferir treinos de maior intensidade, concluiu o estudo. (SolStock/E+/Getty Images)
As pessoas que tiveram uma pontuação mais elevada em termos de extroversão tinham tendência a preferir treinos de maior intensidade, concluiu o estudo. (SolStock/E+/Getty Images)

Estas conclusões têm implicações importantes para incentivar mais pessoas a praticar exercício físico, sobretudo porque apenas 22,5% dos adultos e 19% dos adolescentes em todo o mundo cumprem a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de realizarem 150 minutos de atividade física por semana, segundo o estudo.

Ao focarem-se nos tipos de personalidade, os profissionais de saúde podem oferecer uma "abordagem mais personalizada ao exercício", refere Angelina Sutin, professora na Universidade Estadual da Florida, especializada no estudo das ligações entre a personalidade e a saúde, que não participou no estudo.

"Normalmente, dizemos às pessoas para fazerem exercício e limitamo-nos a afirmar: 'Sabemos que o treino intervalado de alta intensidade é bom para si, por isso, deve fazê-lo'", afirma.

"Mas pessoas com níveis elevados de neuroticismo (tendência para maior instabilidade emocional) não o vão fazer, e sabemos também que o exercício de baixa intensidade pode ser benéfico. Ao saber que alguém apresenta níveis altos de neuroticismo, recomendar esse tipo de exercício pode aumentar a probabilidade de a pessoa aderir."

É também importante salientar que os traços de personalidade interagem entre si, acrescenta Ronca. Algumas pessoas obtêm pontuações elevadas tanto no neuroticismo como na conscienciosidade, o que significa que, embora possam sentir que o exercício físico gera ansiedade, são muito mais propensas a praticá-lo, pois sabem que lhes faz bem, afirma.

Para chegar a estas conclusões, Ronca e os seus colegas em Londres pediram primeiro aos 132 participantes do estudo, com idades entre os 25 e os 51 anos, que preenchessem um questionário que revelava os seus traços de personalidade.

Pessoas mais introvertidas tendiam a preferir treinos de menor intensidade, sem ninguém a observá-las. (vm/E+/Getty Images)
Pessoas mais introvertidas tendiam a preferir treinos de menor intensidade, sem ninguém a observá-las. (vm/E+/Getty Images)

O estudo recorreu a um modelo amplamente utilizado que conceptualiza a personalidade através de cinco traços: extroversão, neuroticismo, afabilidade, abertura e conscienciosidade.

"Os traços de personalidade... São apenas descrições da forma como as pessoas se comportam em determinadas situações", explica à CNN Paul Burgess, professor de neurociência na UCL e coautor do estudo.

"A forma como as pessoas se comportam em certas situações é determinada, em grande parte, pelas capacidades do seu cérebro, pelo que reparam, a que prestam atenção, o que conseguem recordar e pela rapidez com que conseguem reagir."

Os investigadores realizaram depois testes de aptidão física aos participantes e dividiram-nos aleatoriamente em dois grupos. Um grupo recebeu um plano de oito semanas de ciclismo e treino de força, enquanto o grupo de controlo fez 10 minutos semanais de alongamentos. Dos 132 participantes iniciais, 86 completaram as avaliações antes e depois dessas oito semanas.

A equipa de investigação concluiu que, embora a condição física tivesse melhorado em todos os tipos de personalidade, entre os que completaram o programa de ciclismo e força, houve uma diferença significativa no grau de prazer retirado dos exercícios. As pessoas mais extrovertidas apreciaram mais os testes de fitness de maior intensidade, ao passo que as mais "neuróticas" preferiram as sessões de baixa intensidade realizadas em casa.

Os traços de personalidade também influenciaram a forma como o exercício afetou os níveis de stress. Pessoas com pontuações elevadas em neuroticismo registaram uma redução significativa do stress autoavaliado, muito superior à verificada em qualquer outro grupo, concluiu o estudo.

"Os que mais beneficiariam com a redução do stress foram precisamente aqueles que efetivamente apresentaram uma diminuição do stress após essas oito semanas de exercício", refere Ronca. "E penso que essa é uma mensagem bastante poderosa a transmitir."

Dados os muitos benefícios do exercício, incluindo a redução do stress, tanto Ronca como Burgess esperam que as suas conclusões encorajem as pessoas a procurar formas alternativas de atividade física, para além dos treinos mais tradicionais que possam não apreciar.

"Há talvez o risco de o foco passar a ser… o desporto competitivo e envolvimento sério, numa altura em que os jovens começam a ter muitas mais exigências", explica Burgess.

"Existem muitas personalidades que não reagem bem a esse tipo de situação e que a consideram bastante stressante."

 

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