Ao utilizar modelação científica descobriu-se que a simples combinação de mais cinco minutos de sono, dois minutos de atividade física moderada a vigorosa - como caminhar depressa ou subir escadas - e meia chávena de vegetais por dia pode prolongar a nossa vida em um ano
Pequenas mudanças na dieta, no exercício e no sono podem prolongar a vida, em um ano, quando aplicadas em conjunto. Por sua vez, mudanças maiores poderão proporcionar um adicional superior a nove anos de vida, segundo um novo estudo.
A combinação de mudanças na dieta, no exercício físico e no sono também aumentou a “esperança de vida saudável”, ou seja, o número de anos em que uma pessoa pode viver sem grandes problemas de saúde.
“Estas descobertas destacam a importância de encarar os comportamentos relacionados com o nosso estilo de vida como sendo um conjunto, não de forma isolada”, defende Nick Koemel, o autor principal do estudo, que é investigador em atividade física, estilo de vida e saúde populacional no campus principal da Universidade de Sydney, em Camperdown, Austrália.
“Quando nos focamos em pequenas melhorias em vários comportamentos, de uma forma simultânea, a mudança necessária para qualquer comportamento individual reduz-se substancialmente, o que pode ajudar a ultrapassar barreiras comuns à mudança de comportamento a longo prazo”, diz Koemel por e-mail.
Contudo, esta descoberta está longe de ser conclusiva, afirma Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada na Open University em Milton Keynes, no Reino Unido, que não participou no estudo.
“Um dos problemas está no facto de o artigo utilizar métodos estatísticos complexos que nem sempre são descritos de uma forma clara”, refere McConway por e-mail. “É, portanto, difícil determinar em que medida as conclusões decorrem da escolha das análises estatísticas por parte dos investigadores, e não de fatores mais evidentes nos dados”.
Um modelo teórico
Ao utilizar modelação científica, Koemel e a sua equipa descobriram que a simples combinação de mais cinco minutos de sono, dois minutos de atividade física moderada a vigorosa - como caminhar depressa ou subir escadas - e meia chávena de vegetais por dia pode prolongar a nossa vida em um ano.
No entanto, este possível resultado só se aplicava a pessoas com uma dieta extremamente inadequada, que dormiam menos de seis horas por noite e faziam exercício só cerca de sete minutos por dia. Além disso, os resultados só se tornaram cientificamente significativos quando as melhorias no estilo de vida previstas pelo modelo aumentaram de uma forma considerável.
“Todos os ganhos relatados neste estudo são teóricos”, refere Koemel. “Não podemos afirmar uma relação causal direta entre os padrões de estilo de vida e os resultados. Portanto, estas descobertas devem ser interpretadas como benefícios esperados ou projetados em relação a variações comportamentais presumidas, e não como efeitos confirmados de uma intervenção”.
Os maiores ganhos em longevidade — 9,35 anos — e em esperança de vida saudável — 9,46 anos — vieram da combinação de mais 42 a 103 minutos de exercício físico e de sete a oito horas de sono por dia, a que se junta uma dieta extremamente saudável, que incluía peixe, cereais integrais, legumes e frutas.
A inclusão de exercício físico na rotina foi o fator que mais contribuiu para o aumento da longevidade — um facto que não surpreendeu o cardiologista preventivo Andrew Freeman, diretor de prevenção e bem-estar cardiovascular do National Jewish Health, em Denver.
“O exercício é o elixir da juventude”, resume Freeman, que não participou no estudo. “Mas há algo que quero deixar claro: este estudo não deve ser interpretado como se, ao fazermos exercício durante exatamente dois minutos e pararmos, tivéssemos atingido um objetivo”.
"Em vez disso, devemos tentar fazer 20 a 30 minutos de atividade física vigorosa e intensa, combinando exercícios de força e cardiovasculares todos os dias. Esta recomendação não mudou ao longo de décadas de investigação".
Esqueça os números – foque-se no bem-estar
O estudo, publicado na revista eClinicalMedicine, analisou quase 60 mil participantes de Inglaterra, Escócia e País de Gales registados no UK Biobank, que é um estudo longitudinal de saúde. Foram seguidos durante, em média, oito anos. Todos os participantes forneceram informações sobre a sua dieta — incluindo alimentos ultraprocessados, como bebidas açucaradas. Um subgrupo também utilizou relógios de pulso que permitiram medições mais objetivas do movimento e do sono.
Os investigadores reuniram estes dados médicos e utilizaram-nos para formular cenários teóricos de maior longevidade e saúde, algo que definem como o número de anos livres de doenças cardiovasculares, demência, doença pulmonar obstrutiva crónica e diabetes tipo 2.
Desfrutar de uma vida mais longa e de uma maior esperança de vida com saúde não é a mesma coisa que permanecer livre de doenças, alerta Koemel. “Melhorias combinadas no sono, na atividade física e na dieta foram associadas a uma maior esperança de vida, mesmo que as pessoas ainda acabassem por desenvolver algumas doenças crónicas mais tarde nas suas vidas”.
Após o ajuste dos resultados a diversas variáveis — como a quantidade de alimentos ultraprocessados, o tabagismo, o consumo de álcool, o índice de massa corporal, a insónia, o ressonar ou a sonolência diurna —, os resultados variaram consoante o grau de alteração de cada comportamento alcançado.
Além dos níveis mais baixos e mais elevados de mudanças no estilo de vida que discutimos acima, os investigadores também descobriram que níveis mais baixos de exercício — menos de 23 minutos por dia —, dormir sete a oito horas por noite e uma dieta excelente estavam associados a quase mais quatro anos de vida e mais três anos de saúde, segundo o estudo.
Níveis moderados de exercício (entre 23 e 42 minutos por dia), dormir até oito horas por noite e uma dieta de alta qualidade foram associados a uma melhoria significativa, de sete anos adicionais de vida e pouco mais de seis anos de boa saúde. Tantas contas! Mas o que significa tudo isto?
“Não é uma questão do número exato de minutos em que se faz exercício ou dorme, ou da quantidade de brócolos que se come. É uma questão de garantir que tudo o que se faz na vida é sinónimo de saúde”, resume Freeman.
“Esta é uma ótima altura do ano para refletirmos sobre a forma como vivemos e para fazer grandes mudanças, que nos prepararam para uma vida de bem-estar, modificando a trajetória das nossas vidas”, junta. “Em resumo, no meio de tanto ruído: se vivermos bem, a nossa saúde e, consequentemente, a nossa esperança de vida serão maiores”.