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Ignorar os pés no treino pode causar dores e lesões. Saiba como fortalecê-los

CNN , Dana Santas
7 set 2025, 17:00
Plano aproximado dos pés de uma atleta durante um treino em casa. (Drazen Zigic/Freepik)

Muitas vezes esquecidos, os pés são essenciais para todo o corpo. Exercícios simples podem reforçar a estabilidade e prevenir lesões

Quer faça uma caminhada matinal ou corra atrás de uma criança, os seus pés suportam o peso do corpo a cada passo. Ainda assim, são muitas vezes um dos aspetos mais negligenciados em qualquer rotina de exercício físico. Tal como qualquer outra parte do corpo, os pés respondem ao treino. Ignorá-los pode ter consequências sérias.

Os pés são a base do corpo, portanto, quando lhes falta força, mobilidade ou estabilidade, isso provoca efeitos em cadeia nos músculos e articulações do resto do corpo.

Quando os pés não funcionam corretamente, isso não só contribui para condições inflamatórias, como a fascite plantar e a tendinopatia de Aquiles, mas também para problemas nos tornozelos, dores nos joelhos, rigidez nas ancas e até tensão lombar.

Saber como cuidar dos pés não se resume apenas a prevenir as dores nessa zona - trata-se de apoiar e potenciar a capacidade de movimento de todo o corpo.

A anatomia da função dos pés

Os pés são estruturas notáveis, compostas por 26 ossos, 33 articulações e mais de 100 músculos, tendões e ligamentos. Esta arquitetura complexa permite que os pés se adaptem a diferentes superfícies, ao mesmo tempo que fornecem a força e a mobilidade necessárias para a estabilidade e a propulsão.

Os arcos plantares do pé funcionam como um amortecedor e uma mola naturais. Quando estão a funcionar corretamente, comprimem-se ligeiramente com o impacto para absorver a força e depois retomam a posição para ajudar a impulsionar o corpo para a frente. Os dedos também desempenham um papel crucial, proporcionando equilíbrio, tração e o impulso final em cada passo.

A forma como os pés funcionam influencia diretamente tudo o que está acima deles. Os tornozelos, os joelhos, as ancas e a coluna dependem todos de uma mecânica adequada dos pés para garantir o alinhamento e o movimento ideais. Quando os pés não conseguem desempenhar eficazmente a sua função, outras partes do corpo compensam, o que frequentemente leva a lesões por sobrecarga e dores.

"Podemos generalizar dizendo que causa fadiga postural", diz Emily Splichal, podologista funcional em Chandler, no Arizona. "Quando os pés não funcionam de forma ideal, as pessoas simplesmente já não conseguem estar de pé tanto tempo quanto antes ou mover-se como gostariam. A fadiga dos pés limita a capacidade de fazer certas atividades, como caminhadas ou até mesmo passear o cão."

Teste a saúde dos seus pés em casa

Para testar a mobilidade dos pés, tente afastar os dedos sem os levantar do chão. (Mindful Media/iStockphoto/Getty Images)
Para testar a mobilidade dos pés, tente afastar os dedos sem os levantar do chão. (Mindful Media/iStockphoto/Getty Images)

Experimente estes testes simples para avaliar a força e a mobilidade dos seus pés.

Teste de abertura dos dedos

Sentado, tente afastar os dedos dos pés sem os levantar do chão. Se os seus dedos quase não se moverem ou se enrolarem para dentro, isso pode indicar mobilidade limitada.

Avaliação do controlo do arco

Fique em pé com os pés afastados à largura das ancas. Tente levantar os arcos dos pés, mantendo os dedos e os calcanhares apoiados no chão. Se não conseguir criar uma elevação visível do arco, os músculos intrínsecos do pé podem estar fracos.

Teste de elevação em pontas dos pés (calf raise)

Faça 20 elevações do calcanhar com uma só perna. Apoie as mãos numa parede ou nas costas de uma cadeira para estabilização e mantenha os pés afastados à largura das ancas. Dobre a perna esquerda para a retirar do chão e, em seguida, suba e desça o calcanhar direito, mantendo a perna esticada. Se sentir cãibras no pé, instabilidade no tornozelo ou não conseguir completar a série, isso pode indicar fraqueza nos músculos do pé e do tornozelo.

Estes testes não são ferramentas de diagnóstico, mas podem ajudar a identificar áreas que necessitam de atenção.

Nota do editor: Emily Splichal recomenda procurar ajuda profissional se sentir dores persistentes que não melhoram com exercício e repouso.

Fortalecer a base

Manter o equilíbrio numa só perna durante 10 segundos de cada lado pode ajudar a fortalecer os pés. (Cavan Images RF/Getty Images)
Manter o equilíbrio numa só perna durante 10 segundos de cada lado pode ajudar a fortalecer os pés. (Cavan Images RF/Getty Images)

Para fortalecer os pés, Splichal sugere uma rotina simples de três exercícios, que demora apenas alguns minutos a realizar:

  1. O exercício de inclinação para a frente ajuda a ativar os músculos dos pés e a melhorar a estabilidade. Fique de pé, direito e firme como uma tábua, afaste bem os dedos dos pés e incline ligeiramente o corpo para a frente. À medida que se inclina, os dedos vão agarrar naturalmente o chão, ativando os músculos que estabilizam a postura e fortalecem os pés. Incline, faça uma pausa e regresse à posição inicial. Repita cinco vezes de cada lado.
  2. O exercício de ativação do arco plantar (short foot) trabalha os músculos de suporte do arco através da ativação consciente dos dedos. Em posição de passada (um pé à frente do outro), concentre-se em afastar os dedos e em pressionar o chão com o pé da frente. Splichal integra este exercício com a respiração: "Sempre que os dedos pressionarem o chão, concentre-se em expirar pelo nariz. Inspire para relaxar." Pratique cinco ciclos respiratórios de cada lado.
  3. O desafio de equilíbrio numa só perna combina o fortalecimento do pé com a estabilidade funcional. Depois de realizar os dois primeiros exercícios, pratique ficar de pé numa só perna durante 10 segundos e depois troque de lado.

Splichal recomenda realizar esta sequência diariamente: "Cinco inclinações para a frente, cinco ciclos de inspiração-expiração com a ativação do arco plantar (short foot), e depois o equilíbrio numa só perna durante 10 segundos de cada lado. Quero que façam estes exercícios todos os dias se puderem."

O impacto do calçado

Basta olhar para grande parte do calçado moderno e elegante para perceber como as biqueiras estreitas e os saltos altos podem causar problemas ao longo do tempo. Mas o excesso de amortecimento e de suporte do arco também podem enfraquecer os músculos dos pés, ao assumir o trabalho que estes deveriam desempenhar naturalmente.

Splichal refere que o seu objetivo é "aproximar toda a gente, tanto quanto possível, de um calçado natural". Os sapatos naturais ou minimalistas reproduzem a sensação de andar descalço - sem amortecimento extra, suportes ou elevações. A podologista sublinha, no entanto, que a transição depende de três fatores-chave: tipo de pé, histórico de lesões e atividade pretendida.

"Um pé plano é menos estável do que um pé com arco alto, por isso pode ser mais difícil a adaptação a calçado natural", explica. "Alguém com antecedentes de fascite plantar crónica vai ter uma experiência diferente de qualquer outra pessoa ao tentar usar sapatos minimalistas. E depois há a questão da atividade - precisam desses sapatos para correr uma maratona ou para trabalhar de pé como um enfermeiro? Pode não fazer sentido usar calçado minimalista."

Independentemente da atividade, Splichal aponta que é importante dar prioridade a sapatos com biqueiras mais largas, uma diferença mínima na altura entre o calcanhar e a ponta do pé (heel-to-toe drop) e solas flexíveis.

Apesar de reconhecer estudos que apontam que o calçado minimalista pode fortalecer os músculos do pé e melhorar a força dos flexores dos dedos, não considera que o calçado seja "a única nem a melhor forma de fortalecer o pé". Em vez disso, defende a prática intencional de exercícios para os pés, combinada com rotinas consistentes de recuperação.

Recuperação diária dos pés

Splichal recomenda duas técnicas de recuperação dos pés que todos deviam praticar diariamente.

Pisar uma bola de massagem com picos durante dois minutos por dia é uma técnica de recuperação para os pés. (Creativebird/iStockphoto/Getty Images)
Pisar uma bola de massagem com picos durante dois minutos por dia é uma técnica de recuperação para os pés. (Creativebird/iStockphoto/Getty Images)

Alívio dos pés duas vezes por dia

Para reduzir a tensão nos pés, Splichal recomenda aos seus pacientes que pisem uma bola de massagem com textura durante dois minutos - mudando ligeiramente a posição do pé a cada 30 segundos para garantir que a pressão é aplicada em todas as zonas da planta do pé. Se não tiver uma bola própria para massagem, aponta, pode usar uma de golfe ou de lacrosse, que também funcionam. Para que se torne um hábito diário, aconselha que seja feito "ao mesmo tempo que escovam os dentes". Esta técnica de associação de hábitos ajuda a integrar o exercício na rotina já existente, tornando mais fácil manter a consistência.

Alívio com separadores de dedos no fim do dia

Splichal recomenda ainda que todos utilizem separadores de dedos todas as noites, durante 15 a 20 minutos. Sublinha que os separadores de dedos podem beneficiar qualquer pessoa - não apenas quem tem joanetes ou dedos em martelo - ajudando a combater a fadiga dos pés e a contrariar os efeitos do calçado apertado.

Os seus pés acompanharam-no em todos os passos da sua vida até este momento - não estará na hora de lhes dar a atenção que merecem? Ao integrar no seu dia a dia exercícios específicos para os pés, técnicas de recuperação e escolhas conscientes de calçado, pode fortalecer a base que o vai sustentar durante muitos anos.

Dana Santas, conhecida como “Mobility Maker”, é uma especialista certificada em força e condicionamento físico e treinadora de corpo e mente no desporto profissional, além de autora do livro “Practical Solutions for Back Pain Relief”

 

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